21 de maio de 2026

Como Voltaire e Rousseau foram incorporados à cultura dos zumbis, por Fábio Ribeiro

Os zumbis os utilizavam para aprender como e porque determinados autores causaram conflitos inimagináveis por razões ridículas
Imagem gerada por IA

No mundo zumbi, Rousseau e Voltaire são usados para debates teatrais, com humanos interpretando filosofias opostas.
Engenheiros de TI humanos, vestindo trajes do século XVIII, encenam debates para entreter plateias zumbis e evitar serem devorados.
Espetáculos zombis refletem a ironia da história, misturando introspecção e astúcia das filosofias iluministas no pós-apocalipse.

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Capítulo 73, como Voltaire e Rousseau foram incorporados à cultura dos zumbis

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

No último dia de 2025 decidi publicar um novo capítulo da saga Zombies Who Live.

No mundo dos zumbis os livros pré-históricos (ou seja, os livros anteriores à queda da humanidade) desempenham um papel diferente daquele que desempenhavam entre os humanos. Enquanto os humanos os levavam a sério e construíam carreiras acadêmicas respeitáveis com base neles, os zumbis os utilizavam para aprender como e porque determinados autores causaram conflitos inimagináveis por razões ridículas que eles mesmos foram incapazes de compreender.

Jean-Jacques Rousseau foi, sem dúvida, um dos maiores e mais influentes escritores e ensaístas do século XVIII. A obra dele influenciou não apenas seus contemporâneos em diversos países, como continuou sendo muito popular, estudada, citada e comentada até a queda da humanidade. Os estudiosos zumbis rapidamente o redescobriram e quando se depararam com os fragmentos abaixo eles ficaram estupefatos.

“Essa lentidão no pensar junto a essa vivacidade no sentir, não a experimento somente durante a conversa, experimento-a mesmo quando só e quando trabalho. As ideias arrumam-se em minha cabeça com a mais incrível dificuldade: circulam por ali surdamente, fermentam até me comoverem, abafarem-me, darem-me palpitações; e, no meio de toda essa emoção, nada vejo nitidamente, não saberia escrever uma palavra só: é preciso que eu a espere. Insensivelmente essa grande agitação se acalma, o caos se aclara, cada coisa vem por-se no devido lugar, mas lentamente e após uma perturbação longa e difícil. Já assistiu alguma vez à ópera na Itália? Nas mudanças de cenário reina, naqueles grandes teatros, uma desordem desagradável e que dura muito tempo; todas as decorações são misturadas, por todo lado há uma agitação que aborrece, julga-se que tudo vai ficar de pernas para o ar; entretanto, aos poucos, tudo se arranja, não falta nada e ficamos surpresos quando vemos suceder a um tumulto tão longo um espetáculo deslumbrante. Esta manobra é quase igual à que tem lugar em meu cérebro quando quero escrever. Se tivesse sabido esperar antes, e depois descrever em toda sua beleza as coisas que me são inspiradas desse modo, poucos atores me teriam sobrepujado.” (As confissões, Jean-Jacques Rousseau, volume I, Livraria José Olympio Editora, São Paulo, 1948, p. 106-107)

“Não só custo a interpretar as ideias como até custo a concebê-las. Estudei os homens e me julgo um observador muito bom: entretanto não sei ver nada do que tenho sob os olhos; não vejo bem o que me trazem à lembrança e só tenho inspiração nas minhas recordações. Em tudo o que dizem, em tudo o que fazem, em tudo o que se passa em minha presença, não sinto nada, não possuo a penetração para nada. A exterioridade é tudo o que me impressiona. Todavia, tudo aquilo me volta à lembrança, recordo-me do lugar, da ocasião, do tom, do olhar, gesto, circunstância: nada me escapa. Então sobre aquilo que fazem ou dizem, encontro o que pensaram e dificilmente me engano.” (As confissões, Jean-Jacques Rousseau, volume I, Livraria José Olympio Editora, São Paulo, 1948 p. 107)

A curiosa descrição não muito elogiosa que aquele humano chamado Rousseau fez de si mesmo é em tudo diferente da descrição que foi feita de François-Marie Arouet, vulgo Voltaire:

“Jamais os jesuítas tinham visto um espírito tão precocemente universal. O padre Porée, homem amável, ‘cheio de candura e de mérito’ dizia afetuosamente: ‘Ele gosta de pesar nas suas pequenas balanças os grandes interesses da Europa’. Mas o colegial, como criança, pregava peças aos seus mestres. Em Luiz-o-Grande só se acendiam as estufas de inverno quando estava gelada a água benta das pias. O jovem Arouet, que era friorento, juntava bolas de neve no páteo e ia ás escondidas colocá-las nas pias – o que era uma prefiguração, assas exata, do seu destino.

Os padres apaixonados pela bela cultura, só poderiam estimar de todo o coração um menino prodígio, que aos doze anos fazia com facilidade versos elegantes e perfeitos. Eles próprios se encarregavam de propagar seus epigramas. Um desses epigramas foi mostrado por Chateauneuf a Ninon de Lenclos, e a bela octagenária pede-lhe para levar o autor à sua casa. O abade satisfaz sua vontade apresendo-lhe o afilhado; ela interroga-o sobre suas ideias sobre o jansenismo. Acha-o espirituoso e ousado; e ao morrer deixa-lhe um pequeno legado para comprar livros.

Uma grande cortezã erudita, um abade libertino, os jesuítas – essa educação de Voltaire explica perfeitamente, porque ele tão bem representou a sua época.” (Voltaire, André Mourois, Editora Pongetti, Rio de Janeiro, cerca de 1938, p. 21-22)

Enquanto Rousseau tinha grande dificuldade para interpretar e conceber ideias, Voltaire as tinha com grande facilidade e as expressava e colocava em prática com grande habilidade e malícia. Um foi capaz de vencer o temor para enganar os jesuítas a fim de ficar aquecido. A única coisa que aquecia a imaginação de Rousseau era a recordação e ele provavelmente aguentaria o frio sem fazer algo para ludibriar alguém a fim de ficar aquecido.

Antes do apocalipse zumbi, os humanos diziam que Rousseau era melancólico e introspectivo. Voltaire seria o oposto dele: sanguíneo e fleumático. Era impossível combinar as obras de dois homens tão diferentes, sendo certo que Voltaire chegou a zombar de alguns conceitos da obra de Rousseau. Todavia, ambos ajudaram a dar forma ao século XVIII e ao mundo que os sucedeu.

Os engenheiros de TI zumbis temiam as IAs humanas. Ao contrário dos engenheiros de TI humanos, os zumbis especialistas em programação rapidamente concluíram rapidamente que aqueles motores de aprendizado de máquina podiam combinar tanto a introspecção analítica de Rousseau quanto a capacidade de Voltaire de encontrar atalhos cognitivos para ludibriar seus usuários. Isso explica porque a civilização zumbi havia proibido os humanos de utilizar IAs e as utilizavam com muito cuidado respeitando os regulamentos fortes que foram criados para preservar o bem-estar dos zumbis. E também justifica uma moda que se torno comum na civilização zumbi.

Depois que os seres humanos serem derrotados e os sobreviventes confinados na reserva de comida. Com raríssimas exceções, os zumbis davam prioridade para os engenheiros de TI no processo de seleção de humanos a serem abatidos. Mas enquanto os outros humanos eram apenas despidos e enviados para ser comidos in natura ou processados na fábrica de comida enlatada zumbi, os engenheiros de TI eram obrigados a vestir fantasias do século XVIII. Então eles eram organizados em duplas, cada qual recebendo seu papel. Um interpretaria Voltaire e outro Rousseau.

O leitor deve perdoar os zumbis por causa dessa pequena diversão. Como os gatos eles também gostam de se divertir com o alimento enquanto ele está vivo. Ademais, do ponto de vista dos zumbis que organizaram esses espetáculos eles eram muito representativos da nova comédia da arte. Não havia nada mais engraçado e irônico do que fazer os herdeiros do iluminismo, os engenheiros de TI que criaram a tecnologia que ajudou a provocar a subida da civilização zumbi, representar Rousseau e Voltaire defendendo as ideias do adversário irredutível. Especialmente porque os engenheiros geralmente detestam filosofia de ambos.

Mas retornemos ao tema que realmente interessa. Após serem organizadas, as duplas de engenheiros-atores eram enviadas para teatros diferentes onde encenavam um debate baseado na filosofia voltairiana e rousseauniana para entreter plateias zumbis. Mas havia uma pegadinha: o humano que interpretava Voltaire tinha que defender a filosofia de Rousseau; o que representava o papel de Rousseau faria o oposto, ou seja, ele defenderia a filosofia de Voltaire. O engenheiro-ator que tivesse a pior performance ou que se recusasse a participar do jogo teatral era imediatamente devorado pela plateia de zumbis, retornando o outro para a reserva de comida.

As duplas foram sendo formadas e desfeitas assim até que um certo dia ocorreu algo realmente maravilhoso que somente poderia ocorrer na civilização zumbi. O melhor intérprete de Voltaire e de Rousseau se encontraram no mesmo palco. O resto é história. Aquele espetáculo se tornou um clássico e foi repetido durante décadas. Ambos engenheiros-atores sempre tiveram performances magníficas e cativaram quase toda população zumbi. Eles se tornaram celebridades e passaram a gozar de privilégios.

Mas um dia um dos dois atores entrou no palco entorpecido pelo vinho e esqueceu seu papel. Irritada a plateia começou a vaiar e rapidamente caiu sobre ele e o devorou ali mesmo, como era o costume. Os zumbis são muito tolerantes, vocês sabem, mas uma coisa que eles não conseguem realmente tolerar é a falta de profissionalismo dos engenheiros-atores humanos. Ademais, não fazia qualquer sentido ver um espetáculo em que Voltaire interpretava Rousseau e Rousseu também interpretava Rousseau.

Dois melancólicos e introspectivos em cena era uma coisa enfadonha demais até mesmo para os zumbis. Mas eu suspeito que no caso oposto eles teriam poupado o ator que cometeu o erro. Afinal, se Rousseau interpretando Voltaire fosse obrigado a confrontar Voltaire interpretando Voltaire as coisas ficariam muito engraçadas, inclusive e principalmente porque pessoas dois personagens sanguíneos e fleumáticos rapidamente encontrariam uma maneira de entreter a plateia improvisando uma mudança de papéis.

Os humanos mais velhos que ainda lembravam do conflito que destruiu o mundo humano algumas vezes se lamentavam, porque Vladimir Putin, Donald Trump, Xi Jinping  e Emmanuel Macron não encenaram debates de duplas do tipo Rousseau-Voltaire como naquele famoso espetáculo zumbi. Isso poderia ter salvado o mundo, porque para sobreviver evitando uma guerra nuclear seria preciso ter ou adquirir a versatilidade necessária para sair de um personagem e entrar rapidamente em outro quando o companheiro de encenação comete um erro de interpretação que pode resultar no desgosto generalizado da plateia humana planetária.

Quando ficaram sabendo que essa ideia havia se espalhado pela reserva de comida, os antropologos zumbis deram boas risadas. Afinal, os humanos obviamente não entendiam nada da dinâmica teatral zumbi e tampouco ficariam inclinados a devorar rapidamente Emmanuel Macron e Donald Trump caso ambos cometessem erros de interpretação durante um debate do tipo Voltaire-Roussou com Vladimir Putin e Xi Jinping.

Ademais, os zumbis obrigavam humanos a fazer aquela brincadeira teatral Voltaire-Rousseau x Rousseau-Voltaire porque um daqueles autores era claramente autista e o outro odiava o autismo. Ao cada um deles defender a filosofia do adversário no palco, do ponto de vista da plateia zumbi Voltaire e Rousseau adquiriam características moderadamente semelhantes às dos zumbis o que tornava o show cativante para os zumbis, é claro.

Os humanos que participavam do jogo teatral como atores queriam apenas não ser devorados. Eles eram incapazes de entender o que estavam fazendo e o que motivava os aplausos da plateia zumbi. E para falar a verdade, todos os demais  humanos que especulavam sobre algo que eles não conheciam e obviamente nunca viram com seus próprios olhos estavam apenas espalhando fake news na reserva de comida… o que de certa maneira era bom para a civilização zumbi. Afinal, os humanos sempre foram politicamente mais dóceis em relação aos seus líderes belicosos quando perdiam tempo discutindo coisas irrelevantes ou sobre coisas importantes que eles realmente não conheciam nada.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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