5 de junho de 2026

De volta às memórias (I), por Izaías Almada

Pedro acreditou no socialismo, na solidariedade e na justiça social e na igualdade. Sempre acreditou e continuava lutando
Banksy

De volta às memórias (I)

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Izaías Almada

Ano de 1996

Sonhar é preciso… Pedro voltava ao Brasil após uma temporada de quase seis anos no exterior, onde viveu em Lisboa, cidade que o iria marcar para o resto de sua vida, como se verá.

Uma tentativa, entre tantas outras, que fizera para esquecer ou mesmo apagar da memória alguns traumas e sofrimentos adquiridos durante o tempo em que foi um militante da esquerda revolucionária, adepto da luta armada contra a ditadura civil/militar de 1964 que infelicitou o Brasil por mais de vinte anos.

Foi feito prisioneiro político nos finais dos anos 60 e inícios dos 70. Vinte e cinco meses de prisão. Mais ainda: vinha adquirindo a necessidade quase que visceral, plena, insubstituível, de fugir a um sentimento permanente de frustração e inquietude ao pensar na sua terra e na sua gente, por ver no que havia se transformado o seu país, o país que sempre amou e continuava a amar… 

A miséria que durante séculos foi imposta à sua gente simples e analfabeta, bem como a ganância e a insensibilidade de uma elite que fazia e faz do dinheiro ganho, nem sempre honestamente a bem da verdade, o prolongamento do látego torturador e escravizador dos séculos XVI e XVII até aos dias de modernidades científicas como celulares, computadores e redes sociais do século XXI, tão ou mais perversos que os capitães do mato.

Pensava nos amigos e nos antigos companheiros de militância, todos divididos entre viver a dura realidade dos novos tempos globalizados, que se impunham com a força de um vendaval, divididos agora pela inglória defesa de partidos políticos de esquerda em meio a uma democracia dita representativa e burguesa, mas completamente falida.

A realidade à sua volta mudava com espantosa velocidade sob o poder invisível do tal mercado livre, neoliberal, o “deus mercado”, como diziam os comentaristas na tevê ou os analistas de jornais e revistas semanais, um deus sem ética e disciplinador das relações humanas pelo que elas têm de pior: o mundo do desemprego, do egoísmo devastador, da inveja e do consumismo sem eira nem beira – realidade essa confrontada a todo o momento com o fim de um sonho, de uma utopia.

Sem nos esquecermos que, ao lado da luta de classes nos anos 90, um novo mundo surgia sorrateiramente pelos desvãos do saber e da razão: o mundo cibernético e digitalizado.

Pedro acreditou no socialismo, na solidariedade e na justiça social e na igualdade entre os homens. Sempre acreditou, aliás, e ainda lutava para continuar acreditando, mas pelos vistos e para muitos dos que viveram à sua volta, o sonho havia acabado ou interrompido.

“The dream is over”… Ele mesmo demorou alguns anos para perceber o significado da frase do beatle John Lennon, embora proferida em outra época e em outro contexto.

E quando um sonho dessa natureza acaba, é preciso tempo e, sobretudo, colhões, coragem, para se voltar a sonhar. Se é que valeria a pena, já agora, para alguém como ele, voltar a sonhar…

Muitos tentaram ou ainda tentam, tentam e acabam por não conseguir, restando-lhes – aos de melhor sorte – o irônico patamar social da sobrevivência com dignidade, essa anomalia hipócrita consagrada na pós-modernidade, seja lá o que isso signifique, a pós-modernidade, e a sobrevivência com dignidade, mas…

(CONTINUA)

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Izaias Almada

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados