5 de junho de 2026

De volta às memórias (II), por Izaías Almada

Pedro costumava arrepiar-se quando lia opiniões sobre alguns pontos de identidade entre o fascismo e o comunismo
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De volta às memórias (II)

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por Izaías Almada

Ano de 1996

…Outros terminam por descobrir e aceitar, não sem algum heróico esforço pessoal, uma convivência sem maiores atritos com suas crises existenciais, suas depressões, inseguranças e fantasias inconfessáveis.

Outros, mais ainda, sucumbem com a consciência aliviada de terem carregado durante algum tempo da sua vida o peso de uma ideologia em que na verdade não acreditavam muito, mas que por esse ou aquele motivo (sabe-se lá qual!) tiveram que carregar.

E nesse caso, Pedro costumava arrepiar-se quando lia opiniões sobre alguns pontos de identidade entre o fascismo e o comunismo, por exemplo, esses dois ‘palavrões’ que marcaram toda a sua geração do pós guerra e dos anos 50, 60 e 70. 

Identidades não no plano ideológico é evidente, mas na prática política diária onde a União Soviética, por exemplo, sob Stalin, exerceu violenta repressão aos seus cidadãos e aos cidadãos          dos países que invadiu na Europa após o final da Segunda Guerra mundial.

Repressão essa que viria macular a ascensão do comunismo soviético e deu argumentos, que ainda existem para muitos até os dias de hoje, de crítica às idéias de Marx, Engels e Lenin.

 Tal fato prova que a distância entre o sonho e a realidade pode muito bem ser ou se tornar, pura e simplesmente, a não menos sofrida luta cotidiana pela sobrevivência. Não é insignificante a lista de homens e mulheres que de fascistas passaram a comunistas e vice e versa.

Pedro, desde que regressou da Europa, quando viveu em Portugal cinco anos da sua vida, morava agora num apartamento modesto no bairro de Vila Suzana em São Paulo.

Segundo andar de um desses despersonalizados edifícios de quatro apartamentos por andar, coberto de pastilhas brancas e em alguns pontos amareladas pelo tempo, cujo quarto de empregada é concebido para empregadas domésticas com no máximo um metro e meio de altura.

Com a geladeira vazia e um permanente gostinho amargo na boca, conseqüência ainda da vesícula retirada há dez anos, Pedro decidiu comprar algumas coisinhas para comer e, quem sabe, aproveitar a ocasião para escolher alguns presentes de Natal.

A alegria do Natal estava marcada para dali a uma semana e antes que se esquecesse de presentear alguém da sua já diminuta lista de amigos era bom se precaver.

Sua ex-mulher, preocupada em não envelhecer pobre, o abandonara havia cinco meses à procura de uma carteira mais recheada.

Pedro ficou por semanas dando voltas no mesmo lugar, confuso, até perceber que nessas questões de amor sempre comprara gato por lebre.

Já não era essa a primeira vez… A vida, com a enorme variedade de oportunidades e escolhas que oferece a cada um de nós, por vezes limita o discernimento afetivo daqueles que sonham de mais ou sonham fora de horas… Começava a ter a sensação de que sempre escolhera errado… Ou fora erroneamente escolhido.

Finalmente foi capaz de entender na prática o pensamento sartreano sobre a idade da razão. Das escolhas e da responsabilidade das escolhas. Jean Paul Sartre foi uma de suas leituras preferidas na juventude: “… o inferno são os outros!”

Como fizera ele, Pedro, sua travessia até ali?

(CONTINUA)

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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Izaias Almada

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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