
De volta às memórias (III), por Izaías Almada
Ano de 1997
Os jornais da semana que findava, deram destaque ao desejo explícito do presidente da República em aprovar no congresso nacional um projeto de lei que permitisse a sua própria reeleição. Corria ainda o ano de 1997 quando a discussão do projeto estava em pauta.
Fernando Henrique Cardoso, o nome do presidente. Com que então o seu quase professor universitário no curso de Ciências Sociais na Universidade Federal de São Paulo (USP), ainda na Rua Maria Antônia, tinha sido mordido pela mosca azul!
Gostava do poder e queria mais quatro aninhos para se divertir… Isso cheirava a sacanagem.
Mais quatro anos para quê, se ainda não mostrara a razão pela qual fora eleito? Que o homem lutasse pela possibilidade de reeleição, vá lá, mas para o seu sucessor e não para si. Seria mais ético, mais democrático, menos vil.
Mas, quem é que ainda se importa com pormenores dessa natureza, não é verdade? A Sociologia, contudo, poderia explicar, se me entendem.
Ele, Pedro? Não, não… Não tinha mais nada a ver com isso… O país e o mundo agora eram outros.
Um Brasil mais inconseqüente, mais novo-rico, mais obcecado com o primeiromundismo a qualquer preço, mais envergonhadamente fascista, onde a modernidade era enfiada a martelo numa sociedade ainda de sentimentos escravocratas e manipulada pelas telenovelas, pelos cartões de crédito e pelas igrejas evangélicas. E, sobretudo, pelo assalto ao patrimônio público. Tinha que enfiar isso na cabeça de uma vez por todas!
O presidente Fernando Henrique Cardoso e sua equipe de burocratas neoliberais, oportunistas e alguns deles até corruptos, que ficassem no poder o quanto quisessem.
Considerava ele, o príncipe sociólogo, ter uma missão para isso? Considerava-se um enviado de Deus para salvar o Brasil? Achava-se infalível, preparado, ungido? Ele e seus cumpinchas do PSDB?
Sua obra didática já tinha sido destruída pelo filósofo e humorista Millor Fernandes (ou humorista e filósofo, tanto faz) ao provar que não se entendiam os textos que o sociólogo escrevia. Todos esses textos, ou quase todos, segundo Millor, copiados vergonhosamente de outros sociólogos estrangeiros.
Que se virasse o presidente com a sua missão: eram em sua maioria uns bons oportunistas esses políticos de final de século, mais ainda quando conseguiam pôr o pé em Brasília.
Há tempos o país vinha enfileirando uma súcia de presidentes, deputados e senadores que fariam corar marginais como Hiroito, Quinzinho e Sete Dedos, Fernandinho Beira-mar ou Marcola ou mesmo o carioca Lúcio Flávio. Esses, por mais incrível que possa parecer, ainda conseguiram exercer a sua profissão com ética e nunca esconderam o que pensavam e praticavam.
Animado por tais reflexões, Pedro entrou no supermercado com a sensação de que ia ser surrupiado mais uma vez, como nos bancos e nas lojas de departamento, mas só que ao som de ‘jingle bells’ e outras melodias natalinas românticas e bregas.
Luzes, bolas coloridas, pinheirinhos salpicados de algodão, a neve tropical, o papai Noel magricela na seção de brinquedos enganando as criancinhas com a sua pança de travesseiro, gente gastando o que tinha e principalmente o que não tinha…
(CONTINUA)
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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