5 de junho de 2026

De volta às memórias (III), por Izaías Almada

Corria ainda o ano de 1997 quando a discussão do projeto de reeleição estava em pauta.
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De volta às memórias (III), por Izaías Almada

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Ano de 1997

Os jornais da semana que findava, deram destaque ao desejo explícito do presidente da República em aprovar no congresso nacional um projeto de lei que permitisse a sua própria reeleição. Corria ainda o ano de 1997 quando a discussão do projeto estava em pauta.

Fernando Henrique Cardoso, o nome do presidente. Com que então o seu quase professor universitário no curso de Ciências Sociais na Universidade Federal de São Paulo (USP), ainda na Rua Maria Antônia, tinha sido mordido pela mosca azul!

Gostava do poder e queria mais quatro aninhos para se divertir… Isso cheirava a sacanagem.

Mais quatro anos para quê, se ainda não mostrara a razão pela qual fora eleito? Que o homem lutasse pela possibilidade de reeleição, vá lá, mas para o seu sucessor e não para si. Seria mais ético, mais democrático, menos vil.

Mas, quem é que ainda se importa com pormenores dessa natureza, não é verdade? A Sociologia, contudo, poderia explicar, se me entendem.

Ele, Pedro? Não, não… Não tinha mais nada a ver com isso… O país e o mundo agora eram outros.

Um Brasil mais inconseqüente, mais novo-rico, mais obcecado com o primeiromundismo a qualquer preço, mais envergonhadamente fascista, onde a modernidade era enfiada a martelo numa sociedade ainda de sentimentos escravocratas e manipulada pelas telenovelas, pelos cartões de crédito e pelas igrejas evangélicas. E, sobretudo, pelo assalto ao patrimônio público. Tinha que enfiar isso na cabeça de uma vez por todas!

O presidente Fernando Henrique Cardoso e sua equipe de burocratas neoliberais, oportunistas e alguns deles até corruptos, que ficassem no poder o quanto quisessem.

 Considerava ele, o príncipe sociólogo, ter uma missão para isso? Considerava-se um enviado de Deus para salvar o Brasil? Achava-se infalível, preparado, ungido? Ele e seus cumpinchas do PSDB?

Sua obra didática já tinha sido destruída pelo filósofo e humorista Millor Fernandes (ou humorista e filósofo, tanto faz) ao provar que não se entendiam os textos que o sociólogo escrevia. Todos esses textos, ou quase todos, segundo Millor, copiados vergonhosamente de outros sociólogos estrangeiros.

Que se virasse o presidente com a sua missão: eram em sua maioria uns bons oportunistas esses políticos de final de século, mais ainda quando conseguiam pôr o pé em Brasília.

Há tempos o país vinha enfileirando uma súcia de presidentes, deputados e senadores que fariam corar marginais como Hiroito, Quinzinho e Sete Dedos, Fernandinho Beira-mar ou Marcola ou mesmo o carioca Lúcio Flávio. Esses, por mais incrível que possa parecer, ainda conseguiram exercer a sua profissão com ética e nunca esconderam o que pensavam e praticavam.

Animado por tais reflexões, Pedro entrou no supermercado com a sensação de que ia ser surrupiado mais uma vez, como nos bancos e nas lojas de departamento, mas só que ao som de ‘jingle bells’ e outras melodias natalinas românticas e bregas.

Luzes, bolas coloridas, pinheirinhos salpicados de algodão, a neve tropical, o papai Noel magricela na seção de brinquedos enganando as criancinhas com a sua pança de travesseiro, gente gastando o que tinha e principalmente o que não tinha…

(CONTINUA)

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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Izaias Almada

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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