Dominó de Botequim, episódio 15, por Rui Daher

Dominó de Botequim, episódio 15, por Rui Daher

– Ô, qual o motivo de ninguém do Conselho Consultivo me atender?

Silêncio.

– Já invoquei a todos, rezei, fiz macumbas clássicas, liguei para as duas outras Estações pedindo informações, e nada. Justamente hoje que pretendo ir ao cemitério do Araçá conversar com meus pais, visita prometida desde o início do ano.

Silêncio.

– Preciso conversar.

– Ô tchê, desde 28 de janeiro sem falar conosco, e tu querias o quê? Com tantas maravilhas aqui no céu, nós te esperando para ouvirmos mimimis de mão fraturada, percepções sociológicas do que acontece no Brasil, sua desgraça no final do século passado, um esquerdista ganhando muita grana e, bobo, se fodeu?

– Darcy, né? Entendi, caio fora.

– Fica aí, porra!

– Não entendi o tipo de fala gaúcha. Todos sabem que tu és mineiro.

– Esquece, magro, de que aqui do céu sabemos todos os teus pensamentos e sabemos o que hoje te aflige?

– E os outros?

– Melodia foi apresentar seu show na Estação Purgatório com Aracy de Almeida.

– Ela está lá? Imperdível.

– Sim, diz que ainda não purgou todos os pecados que aí fez. O Ariano ocupado preparando palestras sobre a criação de cabras, encomendadas a ele pelo Todo Poderoso, e o Dr. Walther na Estação Inferno, bem pago para explicar a produção como alternativa ao rentismo. Ligou-me para dizer que na última palestra havia duas presenças, um camponês que produzia cana para suas vacas em Minas Gerais e uma jovem do MST.

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– Estou desesperado.

– Quando não? Sabemos. Por causa da Ana Amélia, certo? O que esperava de seu pronunciamento? Louvores a Lula? Ela é do PP.

– Sei que você não é gaúcho, já escrevi errado sua nascitura mineira, mas e a tradição dos maragatos, de Getúlio Vargas, do general Assis Brasil, de João Goulart, Leonel, como ficam, diante de um bravo povo que preserva sua identidade nos CTG, que tantos visitei, com essa senhora ridícula que há poucos dias ficou alguns meses mais velha do que eu?

– Ruizinho, se eu ainda estivesse aí, em Maricá/RJ, estaria com 95 anos. A que prestaria? Peça apenas que leiam meus livros e se virem. Vocês, da esquerda, perderam a oportunidade de fazer deste um País melhor. Agora tratem de lutar sério. Tu, e pares de encher o saco do Luís e da Lourdes, seus editores. Eles são ótimos e, também e estão lutando por ideais iguais aos seus. Tome a última cachaça e vá dormir. Nossas preces a seus falecidos pais, que o fizeram “um dos nossos caras”.

– Inté.  

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5 comentários

  1. “Vocês da esquerda perderam a oportunidade…”

    Será mesmo, Rui? Não estaríamos contaminados por noções relacionadas à culpa e à responsabilidade, crendo demais nessa carochinha de homem, independente das condições, escrevendo  a história?   Não percebemos ainda que o tempo  – do qual participamos, com todos os conflitos, tensões, poderes e diferenças –   é o grande senhor do destino? 

    Na publicação anterior você  falava  sobre a  ingenuidade.  Ora, o ingênuo, como  um sonhador ou visionário,  está mais inclinado às possibilidades do que ao princípio de realidade. E tanto à esquerda, como à direita – nas críticas ao PT – há quem esqueça que o homem não faz  a coisa como quer, mas como a história determina.  O que não significa que erros não possam ser cometidos, e que isso sirva para justificar erros, mas também não dá azo  para embarcar em velhos bodes expiatórios. Nesta vereda,  fico com o empirismo de Raduan Nassar:  

    “… neste mundo de imperfeições, tão precário, onde a melhor verdade não consegue transpor os limites da confusão, contentemo-nos com as ferramentas espontâneas que podem ser usadas para forjar nossa união (…)  se as flores vicejam nos charcos, dispensemos nós também o assentimento dos que não alcançam a geometria barroca do destino; não podemos nos permitir a pureza dos espíritos exigentes que, em nome do rigor, trocam uma situação precária por uma situação inexistente …”

     

    Um forte abraço

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=iS45wzyptU%5D

     

     

    • Cris,

      Você: “crendo demais nessa carochinha de homem, independente das condições, escrevendo  a história?”

      Raduan: não podemos nos permitir a pureza dos espíritos exigentes que, em nome do rigor, trocam uma situação precária por uma situação inexistente …”

      Sem dúvida, você e Raduan se complementam para negar que nossas ações cotidianas podem ou não aproveitar as micro oportunidades que irão determinar os rumos da História. Concordo, mas então estamos aqui para o quê? Deixar que o destino nos leve como Zecas Pagodinhos, deixando a vida nos levar.

      Para este 2018, por exemplo, devemos apenas esperar que milhões de brasileiros sejam levados por um destino que se mostra perverso? O próprio Raduan tem agido concretamente para que isso não aconteça.

      Abração   

  2. Certamente, Rui
    Somos agentes. Podemos aproveitar as brechas, como dia o o próprio Raduan, citando. Jorge de Lima: “há sempre um copo de mar para um homem navegar”, lembrando também que as pessoas se assemelham às palavras de um texto: quanto mais organizadas entre si, mais o text é forte. Soinhas, no entanto…

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