Fedro, sobre o leão – Uma fábula, escrita há dois mil anos, por Mefistófeles de Albuquerque

Para Samuel Pinheiro Guimarães Neto, pelo seu 80º aniversário

Fedro, sobre o leão – Uma fábula, escrita há dois mil anos

por Mefistófeles de Albuquerque

para Samuel Pinheiro Guimarães Neto, pelo seu 80º aniversário

Autonomeado, com voz nada tonitruante, mas estridente e a resvalar para o guincho, o rei dos animais retornou ao imaginário político brasileiro. Eis uma razão suficiente para transcrever e traduzir a quinta fábula do Livro I.

A crer no prólogo ao Livro III, Fedro (aprox. 15 a.C. – aprox. 50 d.C.) foi macedônio. Parece ter aportado jovem à Itália como escravo do imperador Augusto, que o teria alforriado. Influenciou fortemente os grandes fabulistas da literatura ocidental, assim Jean de La Fontaine e Gotthold Ephraim Lessing.

Vacca et capella, ovis et leo

Numquam est fidelis cum potente societas:

Testatur haec fabella propositum meum.

 

Vacca et capella et patiens ovis iniuriae

Socii fuere cum leone in saltibus.

Hi cum cepissent cervum vasti corporis

Sic est locutus, partibus factis, leo:

‘Ego primam tollo, nominor quoniam leo;

Secundam, quia sum fortis, tribuetis mihi;

Tum, quia plus valeo, me sequetur tertia;

Malo afficietur si quis quartam tetigerit.’

Sic totam praedam sola improbitas abstulit.

 

Em tradução livre:

A vaca, a cabra, a ovelha e o leão

Inexiste sociedade confiável com um poderoso.

Esta fábula atesta a minha proposição.

 

A vaca, a cabra e a ovelha, que sempre padece a injustiça, associaram-se ao leão em caça no bosque. Apresado um cervo de grande porte e feita a partilha, assim falou o leão: ‘Fico com a primeira parte, pois sou chamado ‘leão’; deveis-me a segunda, pois sou valente; e como valho mais, a terceira também me cabe; mal se haverá quem tocar a quarta.’

Assim a desfaçatez abocanhou todos os despojos.

 

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4 comentários

  1. É preciso desenhar. Não entendi. Quanto a Samuel Pinheiro Guimarães, construiu fase histórica das Políticas de Relações Internacionais Brasileiras juntamente com Celso Amorim. Mas sabe quem os demitiu? O mesmo Governo que os empregou. O Brasil é surreal. A culpa é de quem? Do Trump?

  2. O sistema político dos leões

    Tem uma fábula, creditada a Antístenes, discípulo mais velho de Sócrates, que também parece refletir bem esses tempos difíceis em que vivemos, quando as pessoas, depois de anos de bestaferização, começam a achar que a Democracia é o maior absurdo do “reino animal”.

    Diz a fábula que, em certa feita, foram as LEBRES discursar, dizendo com belas palavras que “todos deveriam ter IGUALDADE”. Ao final, até o Leão elogiou, mas não deixou de indagar: “realmente vocês falam muito bem, lebres, mas se vamos mesmo ter igualdade, me digam: onde estão os seus dentes e suas garras?”.

    Naquela época, quando os discípulos de Sócrates davam GOLPES (e deram dois se me lembro bem da história), os democratas (não era o caso do velho filósofo) retiravam-se de Atenas para organizar a reconquista da “democracia”, o que tornava fácil discernir os dois grupos.

    Hoje as coisas mudaram um pouco… Já não conseguimos mais saber quem é a favor de um sistema de igualdade e quem é a favor da lei dos mais fortes. Mas tem coisas que não mudam!, pois os leões, eles continuam a mostrar as garras e a ranger os dentes contra as lebres.

  3. Lobato se apropriou dessa fábula construindo outra chamada “Liga das Naçoes”. Ei-la:
    “Gato-do-mato, jaguatirica e irara receberam um convite da onça para constituírem a Liga das Nações.

    – Aliemo-nos e cacemos juntos, repartindo a presa irmãmente, de acordo com os nossos direitos.
    – Muito bem! – exclamaram os convidados. – Isso resolve todos os problemas da nossa vida.
    E sem demora puseram-se a fazer a experiência do novo sistema. Corre que corre, cerca daqui, cerca dali, caiu-lhes nas unhas um pobre veado. Diz a onça:
    – Já que somos quatro, toca a reparti-lo em quatro pedaços.
    – Ótimo!
    Repartiu a presa em quatro partes e, tomando uma, disse:
    – Cabe a mim este pedaço, como rainha que sou das florestas.
    Os outros concordaram e a onça retirou a sua parte.
    – Este segundo também me cabe porque me chamo onça.
    Os sócios entreolharam-se.
    – E este terceiro ainda me pertence de direito, visto como sou mais forte do que todos vós.
    A irara interveio:
    – Muito bem. Ficas com três pedaços, concordamos (que remédio!); mas o quarto tem que ser dividido entre nós.
    – Às ordens! – exclamou a onça. – Aqui está o quarto pedaço às ordens de quem tiver a coragem de agarrá-lo.
    E arreganhando os dentes assentou as patas em cima.
    Os três companheiros só tinham uma coisa a fazer: meter a caudas entre as pernas. Assim fizeram e sumiram-se, jurando nunca mais entrar em Liga das Nações com onça dentro.”

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