16 de junho de 2026

Fernanda Torres: sotaque e distinção, por Homero Fonseca

Pessoas reclamaram do sotaque brasileiro de Fernanda Torres ao fazer o discurso no Globo de Ouro.

Fernanda Torres: sotaque e distinção

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Homero Fonseca

 Gente de cabeça colonizada andou criticando com horror: ao agradecer o Globo de Ouro de melhor atriz, Fernanda Torres “falou inglês com sotaque brasileiro”. A discussão continua rolando nas redes sociais.

Meto minha colher: isso é puro “Complexo de Vira-lata”, particularmente grave em seres que amam a Disneylândia, sonham em morar em Miami, pedem a bênção a Tio Sam e prestam continência à bandeira americana.

Sotaques são poderosas fontes de distinção. Implicam noções de superioridade, autoridade, prestígio e poder. Quem se julga superior (mentalidade de colonizador) trata de impor sua prosódia. Quem se submete (cabeça de colonizado) imita-o, tentando em vão ser aceito como um igual.

Estrangeiros do Norte (Ops, Ocidente!), estejam na situação de migrante ou turista, cagam pro sotaque local. Já em relação a quem os visita, acatam com prazer a língua do dólar ou do euro, mas nem tentam entender o que falam seus visitantes. (Cansei de ser chamado de Rómerr (Homer) nos EUA; quase voltei um Simpson.)

Internamente, convivemos com o fenômeno: nordestinos sem noção começam a falar imediatamente paulistês ou carioquês mal pisam em terras do Sudeste. Tentam inutilmente se disfarçar para fugir da discriminação. No reverso, cariocas e paulistas vaidosos cultivam seu modo de falar, mesmo morando há décadas no Nordeste.

Tudo em função de quem se julga superior e quem aceita ser considerado inferior. Distinção na veia. A Sociologia (Pierre Bourdieu) explica.

Cenário diferente ocorre quando os falantes descartam atitudes discriminatórias: Dom Hélder Câmara fazia conferências em Paris com carregado acento nordestino. Era entendido e aplaudido.

Já dizia o filósofo Branchu: quem é obrigado a falar sem sotaque é ator ou espião.

Homero Fonseca é pernambucano, escritor e jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi editor da revista Continente Multicultural, diretor de redação da Folha de Pernambuco, editor chefe do Diario de Pernambuco e repórter do Jornal do Commercio. Foi também professor de Teoria da Comunicação e recebeu menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Atualmente, dedica-se à literatura e mantém um blog em que aborda assuntos culturais.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados