
Gregório, o infalível
por Henrique Morrone
Gregório nasceu e cresceu em uma família tradicional de baixa renda — e de direita. Num ambiente marcado por crenças e mitos, herdou do pai — uma máquina de replicar convicções — um olhar peculiar sobre a vida. Via o mundo em contrastes, dominado por uma visão dualista e intransigente.
Ao se mudar para a capital, deparou-se com uma fauna humana variada. Conviveu com tratantes de primeira classe, incrédulos e honestos desprovidos, além de delirantes obcecados por uma única causa: o sucesso.
Com o passar dos dias, Gregório, apesar de toda essa complexidade, manteve-se fiel à sua visão unidimensional. “Nada como o contexto familiar para moldar um homem-menino”, diziam seus críticos.
Por sua racionalidade, disciplina e sanha pelo êxito, ingressou cedo na faculdade de economia. Era visto como exemplo — sempre afundado em livros e de olhos cansados. Acreditava, sobretudo, na força do esforço. Em seu mundo unicolor não havia espaço para nuances: sua meta era clara — conquistar o sucesso pelos estudos.
Foi nesse ambiente acadêmico que Gregório encontrou sua fé definitiva: o livre mercado.
Convencido das benesses do sistema, via na concorrência um purgatório meritocrático e nos preços o reflexo mais puro da justiça. Repetia, com devoção, que o mercado recompensava os melhores, punia os preguiçosos e que, com esforço suficiente, todos teriam sua chance.
O mercado, para ele, era uma espécie de Deus moderno — invisível, onisciente e meritocrático.
Rezava para essa entidade em forma de modelo: racional, previsível, perfeita.
Qualquer dúvida moral, resolvia com uma curva de oferta e demanda.
No tocante à vida pessoal, esta praticamente não existia. Sua única diversão fora dos livros era correr contra o vento nas manhãs frias de inverno — hábito curioso, mas essencial para escapar das contradições internas que começavam a emergir.
De tempos em tempos, ensinava aos colegas a arte do cálculo, lecionando com a maestria de um pastor conduzindo o rebanho pelo deserto. Foi um árduo percurso até a formatura, enfrentando as agruras de um crente sem recursos.
A cerimônia foi marcada por uma explosão contida de sentimentos. Afinal, Gregório acreditava não estar fazendo mais do que sua obrigação. Passou as festividades em branco, traçando já os próximos planos. Para ele, cada etapa era apenas um degrau rumo a algo maior, sem espaço para distrações terrenas.
Os anos correram. Gregório concluiu o mestrado e, depois, o doutorado, com a precisão de quem calcula até o próprio suspiro. Mas o tic-tac do tempo não cessa. Ao conseguir sua primeira entrevista de emprego, encontrou-se com Godoberto, filho de um empreiteiro local. Nos áureos tempos de faculdade, Godoberto fora seu colega — e até aluno. Tinha raciocínio raso, mas otimismo profundo. Sabia que a vida é complexa — e que conhecer as pessoas certas conta.
Enquanto Godoberto acumulava empreendimentos e contratos, Gregório esperava o ônibus, infalível em sua trajetória e em suas crenças sobre as benesses do livre mercado.
O tempo, porém, já não esperava por ele. Parado na calçada, revia mentalmente cada equação da vida — todas corretas, mas nenhuma capaz de explicar o que havia perdido pelo caminho.
O ônibus não vinha… tampouco o sucesso. Gregório era tão infalível quanto a ideia de livre mercado.
Henrique Morrone (Professor Associado, UFRGS)
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