5 de junho de 2026

Ilhabela, passado, presente e futuro, por Rui Daher

Manhã, cedinho, ele entrou em nosso chalé da Pousada Kluka’s e entregou a Cléo, sua confidente mãe, uma cesta de café-da-manhã.

Ilhabela, passado, presente e futuro

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por Rui Daher

Passado

Há meio século frequento o município de Ilhabela, arquipélago-marinho (19 ilhas, ilhotes e lajes), localizado no litoral norte do estado de São Paulo. Tem larga extensão quando toda visitada, quase 350 km², e fica a 250 km da Capital.

Lá comecei, ao lado de Cléo, formar pequena família nuclear. Os dois somos filhos únicos. Passados três anos, veio a primeira (f)ilhota. Talvez daí ter escolhido ser bióloga. Aqui e acolá, fomos completando a obra. A segunda (f)ilhota preferiu a inovação tecnológica. Ambas acabaram indo morar fora do Brasil, naquele país que, hoje em dia, deglute o capital intelectual de países sem noção sobre preservar seus tesouros humanos e recursos naturais. Se elas voltarão? Não sei, nem creio.

Mas onde, então, a arte no núcleo, ó escritor mequetrefe? No caçula, o homem. Como os mares mais revoltos que invadem a ilha, em sua parte que não voltada para o continente, escolheu as artes visuais, e em Ilhabela habita, como executor de pinturas e professor de arte e cultura.

Um núcleo que, sei, muitos, através dos séculos, vêm formando e, se mais brasileiros tivessem a oportunidade de fazê-lo, o teriam feito. Teríamos uma nação mais desenvolvida, além de menos agressiva e estúpida como a Federação de Corporações Financista, que escolheu o cinismo da corrupção e ser dadivosa com nossas riquezas.

A construção oficial destes Daher (na vertical e na horizontal há muitos, só que menos especiais) começou em 1972, com meu casamento com Cléo, ampliou-se em 1975 com a primeira ilhota, Mariana. Contas feitas e preliminares agregados, passou meio século. Entre barracas, campings, bancos de fuscas, pousadas, hotéis chinfrins, outros luxuosos, enfim, jovens estudantes e revolucionários vindos da classe média baixa olhando a classe média alta.

Até que, levados por um casal amigo (ele, o alemão Christian, casado com uma colega minha de FGV, a Beth) compramos uma pequena casa na praia do Ilhote.

Nota de meio pé: Aos fins de tarde, depois de passar o dia na praia, entre sol, mergulhos com equipamentos, os mais simples, batíamos os pés-de-pato entre os rochedos da costeira hospitaleira, e observávamos peixinhos, cavalos-marinhos, moreias, siris, ouriços, águas-vivas, recolhíamo-nos da escondida prainha da Raquel, coincidentemente nome de uma caiçara bonita, esposa do caseiro de Christian, comíamos, bebíamos, vez ou outra jantávamos ou saíamos para uma pizza no píer da Vila, onde podíamos assistir os pescadores locais e turistas, puxarem em seus caniços brilhantes e longos peixes-espada, serpenteando até os isopores cativeiros.

No final da noite, com os nossos filhos e os deles, já dormitando, voltávamos para o ‘Steinhaeger’ final. Era quando o alemão de Stuttgart (Salve), contava deliciosas histórias fantasiosas e criativas, de “pirratas” e escunas “misterriosas” que descobriram a Ilha de São Sebastião, mais tarde Ilhabela.

As crianças despertavam e seguiam as histórias fantasmagóricas. Na rede da varanda, sempre mais passado na conta etílica, ouvia, dormitava, bebia mais uma dose do Stein, a última cerveja, ouvia, dormitava, e acordava terçando espadas com Christian.

Um caminho secreto unia nossas casas. Atravessávamos uma pequena queda d’água escondida no meio da mata, as crianças nos colos de quem melhor estivesse.

– Até amanhã, Christian. Um beijo Beth! Conforme o clima, amanhã vamos para o norte, na praia do Jabaquara.

– Combinado.

Tudo assim ocorreu até 2012, quando um banco alemão (ironia) roubou nossa casinha da Ilhabela num leilão, vilmente, pois poucos anos depois de me foder, fechou seu braço no Brasil (história para os dois futuros livros em que trabalho: o primeiro, um apanhado das colunas e crônicas escritas e separadas em temáticas, para GGN e CC, entre 2016 (lançamento do “Dominó de Botequim”) e 2023; o segundo, uma auto-biogalhofaria. Procuro editores.

Presente

Por óbvio, passado tal nos trouxe dor imensa nestes dez últimos anos. No período, raríssimas vezes visitamos Ilhabela. Fazer o quê? Relembrar tudo isso, no meu caso, chegando aos 80 anos, há dois com dificuldade de locomoção, tratamentos médicos e intensivos de fisioterapia (obrigado médicos, jovens meninas e meninos maravilhosos que tentam pôr de pé um homem aguilhoado pelo vaticínio “vá ser gauche na vida”, sem entender que o mote significaria andar normal com uma perna só (manco, digamos).

Foi assim e dois anos fazem: uma onda enorme se elevou na praia de Castelhanos, formada por enorme euforia política (a possível volta de Lula ao poder) que eu sentira quando numa manifestação na Avenida Paulista. Virou tsunami alcoólico me fez deitar na areia, sem sentidos ou movimento. Lembro, vagamente, de chegar ao hospital e o espantado olhar dos médicos diante de meus exames neurológicos.

Dia 1° de junho de 2021, começaram a tentar salvar parte de mim, principalmente as das paixões incontroláveis, todas incompatíveis com minhas idade e condição.

 Restaram partes, que só a mim importam. Outras que gostaria de reaver e transmitir a amigos. Animadas ou inanimadas. Esforço-me. Pouca reação percebo.

Há uma semana, em Ilhabela, importante reconquista. O artista que não admitiu eu ter bobeado no tsunami, a que tanto havia me treinado a fugir das ondas de mar que não ouviram Dorival Caymmi, rachou com a minha insensatez, e cortou relações comigo. Sim, o filho das artes.

Mas como? Era filho, o caçula, artista, tinha escolhido viver à beira-mar, tinha a mesma ideologia política que eu, enfim, o mecenas de sua carreira de artista, que me salvara de tantas quedas nos saraus, do Nassif, não falava mais comigo e não percebia passado e amor que por ele eu sentia?!

Remoía–me: será que não estaria orgulhoso naquela foto, ao meu lado, na Livraria da Vila, noite de meus primeiros autógrafos, presentes os mais inesperados amigos?

Não. Foram dois anos de cizânia completa.

Até que há semanas, uma amiga e anjo-da-guarda levou a mim e Cléo (Dia das Mães) até Ilhabela para as recordações que lá, ao seu lado e de sua companheira batalhadora (de família querida – obrigado, Vanessa, Tânia, Miron, todos) por essa reunião, que descobriu a força de um pai por um filho e, espero, quanto mais valioso o amor do que a guerra.

Fez-me subir escadas íngremes, almoçamos fora, preparou-nos um excelente risoto, mostrou-me a Ilhabela renovada, feérica, mãos dadas, como se todos meus fisioterapeutas estivessem lá o orientando.

Tudo isso, na casa deles. Manhã, cedinho, ele entrou em nosso chalé da Pousada Kluka’s https://klukasilhabela.com.br/ e entregou a Cléo, sua confidente mãe, uma cesta de café-da-manhã.

O que mais poderia narrar este trôpego escritor, além de ter voltado a ser feliz?

Futuro

Não sei. Sinto-me com o sinal fechado. Se alguém souber se irá abrir, me avise. Por enquanto, aguentem leitoras e leitores (existem?) confissões assim. Como só os apaixonados sabem fazer, né Paulinho da Viola?

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

Rui Daher

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

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4 Comentários
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  1. Lourdes Araujo

    23 de maio de 2023 10:04 pm

    Tem gente que lê sim. Do começo ao fim.

    1. RUI DAHER

      16 de junho de 2023 7:14 pm

      Somente hoje leio seu comentário. Obrigado. Me fez feliz. R

  2. Luiz Fernando Juncal Gomes

    24 de maio de 2023 3:16 pm

    Magnífico, Rui, magnífico. Aguardo os livros. Abraço.

  3. RUI DAHER

    16 de junho de 2023 7:18 pm

    Luiz Fernando, saudades. Somente hoje li seu comentário. Você que me deu coragens que me faltavam. Amo você e Diméa. Beijos

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