19 de junho de 2026

Incessante América Latina, de Ángel Rama

Esse texto do uruguaio Ángel Rama registra o rastro do tempo dessas tentativas honestas de se entender, ler e interpretar a América Latina.
Jorge Gonzalez Camarena

Incessante América Latina, de Ángel Rama

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Acredito que as palavras mais bonitas que já escutei ou li sobre a América Latina, estão contidas nessa intervenção que o escritor e crítico literário, o uruguaio Ángel Rama, realizou, em 1972, na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM). “Incessante América Latina” está disponível no Youtube, na própria voz do autor. Tentei traduzir as palavras de Rama para que sejam lidas como texto, esse texto que para mim registra o rastro do tempo dessas tentativas honestas de se entender, ler e interpretar a América Latina.

Incessante América Latina*, de Ángel Rama
Tradução: Maíra Vasconcelos

Cada vez que alguém desacredita da nossa América, já seja por desdém dos seus modos próprios e originais, ao compará-los com outros estrangeiros, aos quais se mira e se admira e se reverencia com olhos coloniais, já seja por desespero de não alcançar pronto uma potente soberana cultura que nada deva a ninguém, e no extravio do seu orgulho de si só se alimente. Cada vez que alguém cai em uma dessas atitudes que são como as caras contrárias de uma mesma moeda falsa, eu percebo uma incessante, soterrada, nutricia América Latina, que sustenta a todos, os levanta com leve humor, os conduz generosamente e volta a lhes dar vida. Porque a existência de ambos negadores depende da existência de uma cultura latino-americana que seja real, viva e distinta, a qual confere entidade própria a suas lamentações. Sem ela, não teriam consistência nem suas palavras, nem sua só existência.

São, somos, os peixes no rio que corre. Com esse signo tão especificamente americano, de que não nos basta existir, nadar na corrente expansiva da cultura que nos transporta, nos faz, senão, que devemos contradizê-las sem cessar, negá-la, muitas vezes, como uma criança nega para que a resposta corrobore que ele existe e que há forças externas que o atendem. Filhos de uma vasta conflagração de culturas onde se exerceram as crueldades sobre as quais se constroem as histórias. Vítimas constantes da espoliação ou do paternalismo estrangeiro, deambulando entre os mitos da natureza, ainda radiante e os rigores da civilização não sempre consentidos, não atinamos a nos reconhecermos a nós mesmos como membros do processo milenário, a corrente infinita juan ramoniana, e somente somos capazes de nos descobrirmos existentes, quando nos vemos na crista das catástrofes, nesses momentos em que parece se desbaratar a máquina do universo.

Mas ainda que seja esse o rosto com o qual hoje nos apresenta a história, não deixa de se perceber por debaixo das ondas catastróficas que se sucedem, um mar permanente, que está composto por muitos homens e muitos gestos em que eles expressaram, muitas obras que cristalizaram esses gestos antes que nós.

Reconhecer a continuidade da cultura pode ser para alguns uma tentação de conservadorismo, na medida em que temerosos de viver e de avançar até o desconhecido, se limitam a ser arquivistas do passado, custodios de uma herança que muito pronto decairá em macabra decomposição. Mas, também, reconhecer a continuidade é acrescentar a energia criadora de homens que sabem abrir caminho no bosque. Porque se significa colocar um certo limite ao capricho ou ao arrebate individual, ao saber-se parte de uma sociedade que arrasta um passado que não fizemos, também gera um corpo mais vasto e poderoso que o próprio e instaura um organismo grande que, portanto, pode acometer mais audácias e empresas. Também nos religa ao comum em uma experiência da qual seria prejudicial que nos alienássemos.

A isso se chama, às vezes, tradição. A palavra, no consenso geral, sugere peso morto. Lápide que oprime a vida dos homens atuais, segundo uma reconhecida reflexão. Mas ocorre que a acumulação cultural da qual partimos, não é unívoca, senão, plural, contraditória, dispersa e escondida. E somente por esses traços se faz vivente para nós, já que somente pode tentar-nos nos convida a uma eleição livre entre seus múltiplos termos, que confirme ao mesmo tempo nosso livre arbítrio. A tal eleição, não chegamos, no entanto, através de uma consideração acadêmica das distintas proposições que se foram articulando no passado, mas por uma decisão que efetuamos sobre o maquinar presente de nossas vidas, quase diríamos, como uma aposta ao vazio, uma demanda que formulamos ao mundo desconhecido para que ao nosso requerimento se torne real. Se essa demanda nos remete a um futuro possível, sempre mais sonhado que real, também nos traslada a uma forma particular do passado, onde reconhecemos o vislumbre germinal de nossa eleição. Assim reafirmamos, com nossa vontade presente, a continuidade da cultura, porque somente um novo gesto livre, pode assegurar um passo adiante dessa permanência cultural. É a isso que chamamos revolução.

Porque essa aposta sobre o amanhã, esse esforço de cancelamento da história atual, em benefício de uma futura ainda inexistente, nos fala do incessante retorno dos astros, já que assim a linguagem astronômica define a palavra revolução. Por isso, as revoluções são concluídas aperfeiçoando a continuidade criadora de uma cultura. Elas nos revelam, entre a confusão e a contradição dos conceitos acumulados pelas sociedades, à medida que envelhecem e se deformam, os impulsos centrais da comunidade. Essa diretriz, ainda que ziguezagueante, que marca o seu progresso histórico, mercê de suas próprias reiterações ao longo de estágios escalonados e distintos do tempo, nos entrega uma sorte de modelo ideal sobre o funcionamento desacelerador das culturas.

Do mesmo modo que os astros não voltam nunca ao mesmo ponto de partida, porque toda a galáxia tem se deslocado no tempo de sua rotação, tampouco as revoluções humanas voltam ao mesmo lugar, nem repetem os mesmos processos e operações, porque é outra a vida que rompem e é outro, sobretudo, o tempo da história. Corrobora em instâncias transformadoras que ocorreram no passado, mas não repetem. Pelo qual, tudo resulta original, imprevisível, in-codificável, e, ao mesmo tempo, reiterativo do passado. Interpretadoras da lição escura que transporta, em definitiva, consolidadoras da continuidade cultural. Mas, tampouco, congeladoras, já que não se trata de um esquema mecânico, que nos abre o futuro, recuperando-nos o passado, uma só vez, e para sempre. Se de revoluções se trata na cultura latino-americana, não pode ser senão de revoluções permanentes, giros incessantes dos astros recorrendo ciclos criadores e desenhando a América Latina que permanece e se prolonga, também ela incessante.

Nas origens, Enéas, que partia à fundação de Roma, saía da incendiada Tróia com Anquises sobre os ombros. A maioria dos que hoje partem, através da conflagração da América, em busca de terras prometidas, levam a José Martí sobre os ombros ou o encontram no meio do caminho. E o mesmo Martí, quando ia a caminho dos rios, levava a presença de sua mãe com ele, em uma reiteração simbólica desse modelo de avanço e recuperação.

É normal que para o recém-nascido o mundo pareça nascer junto com ele, que a história pareça começar junto com as ações da criança. E isso ainda naqueles que cumprem essas ações inovadores no campo da língua, mediante criações que usam palavras, elas estão bem longe de ser patrimônio exclusivo daqueles que lidam com elas. Ao contrário, levam marcas que testemunham seu uso por muitos outros, antes, nos mesmos lugares. Mas é normal também que a sucessão dessas marcas sobre as palavras conclua sendo delas algo mais que uma série de obras literárias de distintos períodos, senão, corretamente, uma literatura, a saber, uma estrutura estética coerente com uma linguagem cada vez mais específica, uma correlação de produtores e consumidores, uma problemática relacionada que se manifesta em séries temáticas e em linhas de investigação formal, uma estrutura dinâmica de ideias e sentidos.

Dentro do mais vasto campo da cultura latino-americana, as obras literárias tem resultado um modelo persuasivo desse funcionamento renovador e simultaneamente continuador, demonstraram que a construção de uma ordem artística não podia ser uma tarefa desconectada de outras obrigações próprias da instauração sempre enriquecida de uma cultura. E naqueles casos em que esta não funcionava ao estrito serviço da coletividade da qual emerge, deveu atender em modo concreto e plural as necessidades diretas da humanidade latino-americana.

Dessa multiplicidade de demandas, tem sido clara e constante a atenção de algumas culturas que, às vezes, não se percebem nos curtos prazos ou nas polêmicas regionais, mas que se fazem patentes a uma mirada que tenta abarcar a totalidade geográfica e temporal. Uma é o diálogo respondão às incitações externas, mal poderia funcionar uma literatura sem constantes incorporações e até agressões externas, porque com ela se tece o sistema de incitação e resposta que asigna todo produto cultural falido. Se algumas vezes, houve simples mimesis, derrota portanto da criatividade, o substantivo iraigal dessa literatura foi sua ingente capacidade de resposta, sua maneira original de se apropriar das invenções exteriores, submetendo-as à forçados casamentos  ou distorsionando-as sob uma mirada que, não por pertenecer a ordem da cultura mediterrânea, deixava de saber-se em uma situação única e distinta, que a singularizava em relação à norma estrangeira da qual procedia. Outra, é sua capacidade de reintegrar o corpo político social e economicamente disperso da América Latina, em uma entidade ideal unitária.

Não existe, não existiu nunca, jamais, uma América Latina unificada, nem sequer tem havido uma comunicação autêntica de suas partes. A América Latina existe como unidade de ação e destino, apenas em seus pensadores e poetas, em seus herois e em seus artistas. São eles que têm forjado, difundido, convencido da unidade de uma pátria grande, por cima do desmembramento, das insígnias da ignorância ou da derrota de seus integrantes.

A literatura tem cumprido um papel relevante aqui, lhe correspondeu criar a incessante América Latina como unidade. E isso não somente com aqueles que assim o propuseram explicitamente e por isso são os grandes avós, mas também com aqueles que pareciam distraídos dessa tarefa magina, suas obras e o que nelas se testemunham das particulares refrações de uma totalidade sonhada, serviram para dar-lhe a esta uma realidade que não tinha. Assim, a América Latina resultou existir na arte como unidade de sentido. As múltiplas estrelas separadas entre si concluíram oferecendo-se como uma harmônica, sábia, esplêndida constelação. É a América Latina que não cessa.

*Vídeo “Incessante América Latina”

Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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  1. Hugo Souza

    26 de agosto de 2024 1:19 pm

    Que maravilha!

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