Como capturar o comum cotidiano ou a própria vida
por Maíra Vasconcelos
Buenos Aires, final de abril de 2024
Em outubro de 1917, numa terça-feira, Virginia Woolf escreveu em seus diários. “Como está fazendo uma noite bonita & razoavelmente serena, talvez amanhã eu tenha um ataque aéreo para descrever. Fizemos um passeio breve ao longo do rio”. Como transformar o cotidiano da vida durante a guerra em um dia comum. Amanhã o que tenho para contar é: um ataque aéreo. Dito assim com a mais sonsa e premeditada naturalidade. Talvez, em prol da escrita. Mas isso não vem ao caso.
A cada dia, ficamos esquecidos no dia anterior sem ter conseguido entender e ver o que fomos em um só dia que seja. A fila do banco. A compra no sacolão da esquina. Um delicioso encontro amoroso. O beijo na bochecha da mãe. Querer agarrar a vida que escapa. Registrar uma lista de pendências. Preciso comprar tomate, batata, feijão, outro lápis. Preciso passar na papelaria. Todos os dias e seus detalhes desaparecem na face anônima que somos nós mesmos diante do espelho.
O vizinho se levanta e vai varrer a rua. Pergunto-me. Neste momento ele deseja ter um rastro de vida. O vizinho cumpre o mesmo gesto há 40 anos. Posso admirá-lo por isso. Por esse movimento monótono em sentido a. A vida é esse movimento.
Talvez árduo seja o trabalho de capturar algum momento em favor de algo que nos faça menos ordinários diante da vida. Principalmente nos grandes centros urbanos. Com suas luzes-farois e gigantes avenidas. A valorização extrema da vida parece apenas o desespero dos inconformados. Como se assim desviassem da própria vida. De suas nuances e miudezas.
Os dias passam sem piedade alguma. Outro dia liguei para o meu pai. Contei que estava em um café do bairro. Claro que isso passaria apenas como mais um gesto da filha estrangeira em outro país. Mas a ligação em si é que diz respeito à vida. Porque a ligação não basta. Mesmo que durasse cinco horas.
Parece que o importante é dar atenção a tudo e a todos que nos rodeiam. A tudo que fazemos. O que conseguimos apreender a partir dessa atenção. Como se Virginia Woolf tivesse escrito seus diários com uma atenção comum e absurda para “desmerecer” a guerra. E escrever. Colocá-la no estado da normalidade de mais um dia. Esse contraste. Como inibir o assombro dentro da palavra. A ironia da naturalidade. Sua vida comum num dia de guerra. Pergunto-me. O que diremos amanhã sobre as filas do banco e do supermercado.
Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).
AMBAR
3 de maio de 2024 12:30 amA gente só se esquece do dia anterior quando a rotina da nossa vida é boa.