Maira Vasconcelos
Maíra Mateus de Vasconcelos - jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).
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É a nobre arte, por Maíra Vasconcelos

Miles Davis estava certo. Tocando entre as cordas ele sabia. Entre um gancho e um direto. Você olha firme. De lado, você olha. De frente.

É a nobre arte

por Maíra Vasconcelos

Quando você menos espera, a luta retorna em uma nova possibilidade. Dar um golpe, levar um golpe. Você verá. Sempre acontecem as duas coisas. Como se, há poucos milésimos de segundos, tudo estivesse perdido. De repente, você tem menos gás para o próximo movimento. Você tem quase certeza de que tudo está perdido. Mas os pés continuam ativos. O corpo pede outra vez. Como sempre, na veia. E como uma âncora salvadora surge outra visão de si dentro do jogo. Mas ainda é necessário derrubar o medo. Como quem destroça o adversário. São valiosos os segundos. O pensamento vai matar você. Aniquile seus grandes inimigos. Lembre-se, caminhe bem de lado como um caranguejo. Mais uma vez. Flexione as pernas. Gire o corpo junto com o braço. Movimente-se. Cada segundo é mortal. Invente outra forma de entrar. “No boxe não se pode fazer a mesma coisa duas vezes”. Miles Davis estava certo. Tocando entre as cordas ele sabia. Entre um gancho e um direto. Você olha firme. De lado, você olha. De frente, você olha. Sempre muito firme. Como se sabe, é proibido piscar. Você pisca e pode ser o seu adeus. A vida não perdoa. O amor não perdoa. O boxe não perdoa. Com os ombros devidamente levantados. Apenas o suficiente para se proteger e manter a guarda. Você extrai de si aquela parte mais confiante. Aquela que você até mesmo desconhece. Uma confiança dura e feroz. Uma confiança voraz. Em algum lugar deve estar. O boxe faz você procurar. Você acorda ou é destruída. A vida passa por cima. O boxe passa por cima. Ao posicionar o corpo de lado. Você prepara a velocidade. O boxe quer toda a sua respiração. O boxe exige até a última gota. Rápido. Destrua seus pensamentos. Movimente-se. Dance com as pernas ágeis como um bailarino. Dance. Você sabe que sempre pode encontrar aí o que menos espera. Procure. Aquele que você não conhece. Esse mesmo: é você. Você quer destruir alguém com um cruzado. E esse alguém é apenas você mesma. Você está cansada, se vira. Procure ainda mais. Busque. E você irá vibrar por um jap. Pela técnica perfeita. A cada respiração. Cada vez que você cobre as mãos com a bandagem. Suja e suada, muito suja e suada. Isso é muito bom. De repente, há poucos milésimos de segundos, tudo está a ponto de virar. Tudo o que estava perdido, retorna em nova possibilidade. A posição do corpo muda em poucos segundos. Depois de um jab, um cross. A situação é outra. É a nobre arte. Abrace cada segundo. Isso é muito importante: a cada segundo você deve ir contra si mesmo. Você precisa de cada segundo para encontrar o que busca. Ora, os minutos são extensos demais. Você piscou. Que vacilo enorme. Em poucos segundos um direto e você beija a lona. Isso acontece. Isso vai acontecer. Sustente cada novo segundo como se sustenta a vida. É a nobre arte.

Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos - jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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