Lô e a democracia de terra batida
por Jean D. Soares
No meio das montanhas de Ouro Preto, entrou pelas janelas da alma o Clube da Esquina. Senti qualquer coisa de primeira vez. A sensibilidade para os tons outonais e vertiginosos, as melodias delicadas, as harmonias feitas de ouro incrustado em minério de ferro.
Vesti aquele som e fui caminhar com o disco da bota na cabeça, com a alegria juvenil exarada em disco com os meninos na capa. Aquela mistura perfeita de brasis, democracia de terra batida, curada em Minas Gerais, nas esquinas várias.
O valor das ruas de pedra, do céu de poucas nuvens, de penas a fazerem cócegas nas cordas, todos esses eu aprendi ouvindo o clube da esquina pela janela de sete igrejas. Senti outro gosto quando amei ouvindo o congado a se fundir ao rock progressivo. Toda aquela dissonância dava forma musical às radicalidades altimétricas e sentimentais inexoráveis a uma juventude estudantil nas ladeiras inconfidentes. Entendi que podia sentir melancolia em português, finalmente.
Nos tons de Lô e Milton, entendi que a poeira das estradas era também matéria originária, lembranças do magma e força férrea do sentido que qualquer coração tido por mineiro encontra em escavações mais profundas ao ser. A metáfora que o disco de 1972 é a do encontro, da mistura, da cultura em plenitude, não interessando estar ou não calçado, ser ou não ser o que os outros acham que deveríamos ser. Nada será como está – a ditadura acabaria, amanhã ou depois de amanhã, e era preciso resistir na boca da noite com um pouco de sol – musical e estelar.
E esse meteoro da minha vida estudantil foi mostrando suas partes, pouco a pouco, sendo Lô o dono da guitarra mágica, do tapete de gênio a me deixar à vontade para cantar ao lado dos ratos soltos na praça, madrugada adentro, pela rua afora.
Hoje, quando olho pelo astrolábio e me vejo em outro hemisfério, os acordes e versos desse ourives da música mineira garantem um retorno fugaz a sentimentos íntimos, a amizades regadas pela encruzilhada tão produtiva entre música, filosofia e poesia, em que aprendi a viver naqueles anos. Deixo meu coração bater sem medo outra vez. Sua via láctea é a via expressa às lembranças do que já nunca mais seremos, com gosto de sol.
Eu não quero acreditar, mas sim, é normal deixar-se ir como um trem azul. Nada será como antes amanhã. Que o sol de Lô se mantenha vivo em nossas cabeças, que nasçam novos girassóis, sejamos audazes para continuar a cantar.
Jean D. Soares – Doutor em Filosofia (PUC-Rio), é músico e pesquisa atualmente o comum no século XXI.
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