5 de junho de 2026

Travessia: Memórias de um rapaz mal comportado, por Izaías Almada

A verdade e os boatos sobre a morte de Getúlio Vargas no dia 24 de agosto de 1954 cruzavam os céus brasileiros com a velocidade da luz.

Travessia: Memórias de um rapaz mal comportado, por Izaías Almada

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Ano de 1954

“O Getúlio morreu, o Getúlio morreu! O rádio acabou de anunciar! Vargas suicidou-se. Mataram o presidente! Vai haver uma revolta popular no Brasil… É coisa do Lacerda e do pessoal da Aeronáutica. A direita vai dar o golpe!”.

O que significava tudo aquilo? A direita vai dar o golpe? Seria da mão direita?

Pedro estava agora com doze anos de idade e já esquecido do acidente em que saltou do bonde em movimento aos oito anos, saiu do colégio Batista Mineiro e foi para o centro da cidade de Belo Horizonte…

A verdade e os boatos sobre a morte de Getúlio Vargas no dia 24 de agosto de 1954 cruzavam os céus brasileiros com a velocidade da luz. O clima era tenso, a redação dos jornais em polvorosa, as emissoras de rádio com notícias de última hora criavam um ambiente de medo pelo que pudesse acontecer no país dali para frente.

“As aulas serão suspensas e esperamos que todos os alunos voltem para suas casas em ordem”, anunciou o diretor do Colégio Batista no grande auditório do prédio… “No centro da cidade há muita confusão”.

Pedro pensou no pai… Será que ele ia se meter na tal confusão? O pai sempre fora de uma “coisa” chamada UDN e antigetulista. Mais gente gostava do Getúlio do que do Lacerda, era apenas o que conseguia entender de política nos seus doze anos de idade. Aquilo ia dar merda da grossa?

Desobedeceu a advertência do diretor do colégio e foi a pé para o centro de Belo Horizonte com alguns colegas, que íam ficando pelo meio do caminho. Já próximo da Avenida Amazonas, percebeu que estava sozinho.

Na esquina da Rua Rio de Janeiro com a Praça Sete ouviram-se tiros. Gritaria, confusão.

Pedro saiu correndo, apavorado. Atrás dele, bem no lugar de onde começou a correr, um rapaz foi ferido na perna. Ficou tremendo e atravessou a Avenida Amazonas como uma flecha, procurando se esconder dentro de Cine Brasil.

“Assassinaram o presidente! Morte aos assassinos do Getúlio! Ele foi obrigado a se matar! Os americanos estão por trás disso”.

O homem, meio gordo, corria desajeitado e gritava por entre as árvores da Avenida Afonso Pena com um revólver na mão. Alguém disse que era um velho comunista da cidade. Os jornais mostraram a foto no dia seguinte que o identificaram: Armando Ziller. Corria e gritava dizendo que era preciso defender o Brasil e o presidente Getúlio Vargas contra os fascistas, contra o Lacerda.

Como defender o presidente, se ele acabava de suicidar? E o que significava a palavra comunista?

Diante da confusão que aumentava, Pedro resolveu que o melhor mesmo era voltar para a casa. Encontrou a mãe apavorada junto ao rádio da sala e de noite levou uma boa tunda de corrião do pai pela estripulia matinal. O drama, já vivido, se repetia.

Como é que um menino de doze anos desobedecia assim ao diretor do colégio e ia justamente para o meio da confusão? Depois da surra do primário, aos oito anos de idade, essa foi a do colegial agora já com doze anos.

Ficou de castigo e não pôde ouvir o “Peça Bis pelo Telefone”, seu programa de rádio preferido. No outro dia, passado o castigo, soube que a Rádio Mayrink Veiga do Rio de Janeiro tinha mudado toda a programação por causa da morte do presidente e o programa não fora transmitido. Menos mal.

O assunto naqueles dias, no entanto, era só política e ele não entendia nada disso, a não ser que o pai era um udenista no meio de uma família de getulistas.

Udenistas? Getulistas? O que quer que isso significasse, causava-lhe vez por outra uma sensação de mal estar na casa dos primos, todos getulistas apaixonados e torcedores fanáticos do Clube Atlético Mineiro, o principal time de futebol em Minas Gerais, seguido pelo América Futebol Clube. O Cruzeiro só se tornaria um grande time de futebol alguns anos depois…

Seguindo a opinião paterna, Pedro não gostava de ouvir que falassem mal do Brigadeiro Eduardo Gomes e do seu querido América Futebol Clube. À sua maneira, era assim que amava o pai…

“One, two, three, o’clock, four, o’clock, rock… Five, six, seven, o’clock, eight, o’clock, rock”…

O cotidiano foi se recompondo e os conjuntos de rock ‘n Roll foram tomando conta do mundo… Bill Halley e Seus Cometas estavam nas paradas de sucesso outra vez, deixando o suicídio de Vargas em segundo plano, mas Pedro preferia Paul Anka, Little Richard… E Brenda Lee.

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

Izaias Almada

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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  1. Roberto Lara

    18 de setembro de 2024 11:29 am

    Olá

    Já há algum tempo, ficou difícil ler artigos de vocês pelo smartphone.

    Uma barrinha de publicidade, gruda no texto, de maneira que para entendermos, é necessário adivinhar três ou quatros linhas do texto, que façamos o que for, permanece oculta.

    A publicidade é importante, com certeza, mas esse tipo estranho anúncio, que mais do que outra coisa, nos aborrece com o que está sendo vendido ou anunciado, só acontece nas publicações GGN.

    Não seria possível resolver esse problema?

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