10 de junho de 2026

Modestas considerações natalinas, por Luiz Gonzaga Belluzzo

Os olhares do nosso tempo perderam de vista a ideia de comunidade cristã, expressão frequentemente repetida por Francisco
Banksy

A celebração do Natal atual foca em presentes e ceias, raramente mencionando o mistério da Encarnação de Cristo.
O cristianismo revolucionou a história ao trazer Deus encarnado, comprometido com a humanidade e a solidariedade.
Papa Francisco critica o consumismo religioso e destaca a importância da comunidade cristã e da missão social.

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Modestas considerações natalinas

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por Luiz Gonzaga Belluzzo

No mundo de hoje, a celebração do nascimento de Cristo está confinada à troca de presentes e aos regabofes apelidados  de Ceia de Natal. Entre um gole e outro, as conversas na mesa giram em torno das banalidades da vida. Raramente, o Mistério da Encarnação, o Deus que se fez homem, é mencionado.  

O cristianismo foi um divisor de águas na história da humanidade, um movimento revolucionário, nascido das crueldades e sabedorias do mundo greco-romano. No mistério libertador da Encarnação, Deus ofereceu o Filho para partilhar as misérias dos homens na Terra.

O teólogo Hans Kung escreveu em sua obra magna, The Incarnation of God, que o Deus do Torá permanecia “externo”, como o “outro” dos homens. Jesus, o Deus entre os homens, era o amigo dos pecadores e falava as palavras da comiseração do Pai amoroso pelos filhos perdidos.

Vou relembrar o que João XXIII escreveu na encíclica Mater et Magistra: A Santa Igreja, apesar de ter como principal missão a de santificar as almas e de fazê-las participar dos bens da ordem sobrenatural, não deixa de se preocupar ao mesmo tempo com as exigências da vida cotidiana dos homens, não só no que diz respeito ao sustento e às condições de vida, mas também no que se refere à prosperidade e à civilização em seus múltiplos aspectos, dentro do condicionalismo das várias épocas.

O Papa Francisco rejeitava as formas de religiosidade que fazem recuar o espírito para os recônditos do individualismo, uma espécie de “consumismo do sagrado” que ignora os fundamentos comunitários do Cristianismo. “Mais do que o ateísmo, o desafio que hoje se nos apresenta é responder adequadamente à sede de Deus de muitas pessoas, para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou com um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro. Se não encontram na Igreja uma espiritualidade que os cure, liberte, encha de vida e de paz, ao mesmo tempo que os chame à comunhão solidária e à fecundidade missionária, acabarão enganados por propostas que não humanizam nem dão glória a Deus.”

Um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro é a negação do Cristianismo.

Depois da Encarnação, a escatologia judaico-cristã sofre uma transmutação: o tempo adquire uma dimensão histórica. Cristo trouxe a certeza da eventualidade da salvação, mas cabe à história coletiva e individual realizar essa possibilidade oferecida aos homens pelo Sacrifício da Cruz e pela Ressurreição. “Não nos é pedido que sejamos imaculados, mas que não cessemos de melhorar, vivamos o desejo profundo de progredir no caminho do Evangelho, e não deixemos cair os braços.”

Em 2013, o Papa Francisco ofereceu aos cristãos a Primeira Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”. Assim como as encíclicas Rerum Novarum de Leão XIII, Mater et Magistra e Pacem in Terris de João XXIII, a exortação apostólica de Francisco  abordava as vicissitudes e esperanças da vida cristã no mundo contemporâneo.

Também em 2013, Francisco lamentou o Espírito desse Mundo que reduz o Homem “a uma única das suas necessidades: o consumo e, pior ainda, o ser humano é considerado também um bem de consumo que pode ser utilizado e jogado fora. Inversamente, “a solidariedade, o tesouro do pobre, é considerada contra produtiva, contrária à racionalidade financeira e econômica”. Isto deve-se “a ideologias promotoras da autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira, que negam o direito de controle dos Estados”

Os olhares do nosso tempo perderam de vista a ideia de comunidade cristã, expressão frequentemente repetida por Francisco em suas exortações e incrustada nas origens do cristianismo. Jaques Le Goff diz com razão que no cristianismo primitivo e no judaísmo, a eternidade não irrompia no tempo (abstrato) para “vence-lo”.  A eternidade não é a “ausência do tempo”, mas a dilatação do tempo ao infinito. 

Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular do Instituto de Economia (IE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1985-1987) e de Ciência e Tecnologia de São Paulo (1988-1990). Belluzzo é formado em Direito e Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), pós-graduado em Desenvolvimento Econômico pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) e doutor em economia pela Unicamp. Fundador da Facamp e conselheiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), é autor dos livros “Os Antecedentes da Tormenta”, “Ensaios sobre o Capitalismo no Século XX”, e coautor de “Depois da Queda, Luta Pela Sobrevivência da Moeda Nacional”, entre outros. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Em 2005, recebeu o Prêmio Intelectual do Ano (Prêmio Juca Pato).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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