O que é que o Recife tem? *
por Urariano Mota
Inácio Araujo, crítico da Folha de São Paulo, chamou atenção nesta semana para o novo cinema de Pernambuco. Vale a pena citar a citação de trechos do artigo:
“Hoje, ninguém dirá que os quatro filmes a serem apresentados constituem uma mostra exaustiva. Ela comemora datas redondas —’Baile Perfumado’ completa 30 anos; ‘Baixio das Bestas’, de Cláudio Assis, e ‘Cinema, Aspirinas e Urubus’, 20 anos; enquanto ‘Boi Neon’, de Gabriel Mascaro, chega à primeira década…
Samuel Paiva, professor de cinema na Universidade Federal de São Carlos, esteve na equipe do filme (Baile Perfumado) e situa a origem do movimento recifense nos anos 1980, quando grupos de estudantes que se interessavam pela arte se juntaram para ver filmes, estudá-los e fazer seus primeiros curtas.
No mais, estavam em sintonia com a nova visada trazida pelo movimento manguebeat, de Chico Science e Fred Zero Quatro, e, ao mesmo tempo, sentiam-se ligados à tradição cultural do estado. Para o crítico Luiz Joaquim, ‘no grupo, eram solidários entre si. Coisa típica de uma pequena grande cidade. E isso ajudava a protegê-los de excessivas influências sudestinas’”.
Mas aqui, uma vez mais, há uma mistura de pessoas com a história da cidade. Um encontro de união indissolúvel, podemos dizer. Os grupos de estudantes que se juntaram nos cineclubes estavam inscritos na crítica de cinema de Celso Marconi e Fernando Spencer nos jornais Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, além do embate diário desses críticos recifenses, quando criaram cinemas de arte, incentivaram cineclubes, realizaram filmes super-8 e festivais de cinema. Quem era no Recife que gostasse de cultura poderia ficar imune a tão alta prática? Recomendo os textos de Celso Marconi que foram republicados no Portal Vermelho, quando os jornais da terra, muitos anos depois, achavam que o genial crítico já não valia a pena. Quanta incompreensão de quem via o moderno como o mais recente. Olhem por favor este link Arquivos Celso Marconi – Vermelho. Em especial, o texto “O cinema do presente e do passado” aqui O cinema do presente e do passado – 1 – Vermelho. Que critico maravilhoso com as armas da filosofia e da sensibilidade!
É claro que a própria prática de cineastas e críticos vinha da cidade anterior, presente já no Ciclo do Recife, de 1923 a 1931. E reverberou sempre nas conversas, nos bares, nas escolas, em todos os ambientes. Mas por que essa mania de cinema, digamos assim? Antes que a mania se tornasse mana, ou manas e manos, esses hábitos culturais estavam nas ruas e teatros. E por falar em teatro, nada mais próprio e histórico que o Teatro de Santa Isabel, onde Castro Alves cresceu para plateias do Brasil. Nele, Castro Alves foi o homem mais feliz. Ali, no Santa Isabel, ele se ergueu condoreiro quando no palco declamou poemas abolicionistas. E no Teatro, a partir do Teatro amou para o mundo a bela atriz Eugênia Câmara.
E por falar em poesia, há um quê no Recife que se revela nos poetas, se não os melhores do Brasil, pelo menos alguns dos melhores, sem qualquer cabotinismo. Isso porque invocamos os nomes de Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Joaquim Cardozo, Carlos Pena Filho, Ascenso Ferreira, Mauro Mota, Alberto da Cunha Melo, e que nos perdoem os lapsos de nomes de poetas nesta hora.
Mas essa história do cinema, da poesia, vem de mais longe. A história não é um animal mumificado. Ela é viva. Queremos dizer, para que não se busque o mais longe. Frei Caneca no Recife. A frase anterior mereceria uma torrente de exclamações.
O Typhis Pernambucano foi um jornal fundado e editado por Frei Caneca, no contexto da Confederação do Equador. O seu primeiro número circulou em 25 de dezembro de 1823, encerrando a sua publicação em agosto de 1824. Olhem só o nível da altura, da escrita e do valor político do jornal redigido por Frei Caneca:
“Quando a nau da pátria se acha combatida por ventos embravecidos; quando, pelo furor das ondas, ela ora se sobe às nuvens, ora se submerge nos abismos; quando levada pelo furor dos euripos, feita o ludibrio dos mares, ela ameaça naufrágio e morte, todo cidadão é marinheiro; um dever sustentar o timão, outro pôr a cara ao astrolábio, ferrar o pano outro, outro alijar ao mar os fardos que a sobrecarregam e afundam, cada um prestar a diligência ao seu alcance, e sacrificar-se pelos cidadãos em perigo”.
Frei Caneca, ele, que também escreveu e publicou esta beleza de amor à terra e à política:
“ENTRE MARÍLIA E A PÁTRIA
Entre Marília e a pátria
Coloquei meu coração:
A pátria roubou-me todo;
Marília que chore em vão.
Quem passa a vida que eu passo,
Não deve a morte temer;
Com a morte não se assusta
Quem está sempre a morrer….”
Melhor parar por aqui.
*Vermelho O que é que o Recife tem? – Vermelho
Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.
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