5 de junho de 2026

O silêncio dos inocentes, pássaros e humanos também, por Fábio Ribeiro

Esse não é um conto sobre tecnologia, política suja e corrupção militar, mas sobre o uso ideológico do bordão “cale a boca você é antissemita”

O silêncio dos inocentes, pássaros e humanos também

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por Fábio Ribeiro*

Num país muito triste e enlouquecido pela dissonância entre sua decadência evidente e o discurso político que a rejeita, um poderoso senador odiava o canto dos pássaros numa praça arborizada próxima à casa dele. A felicidade dos vizinhos alados todas as manhãs o deixava deprimido. Ela o lembrava de que os sorrisos cordiais que ele treinava no espelho antes de ir trabalhar eram uma encenação hipócrita para disfarçar sua impotência. Ele era incapaz de transformar em realidade os discursos retumbantes que fazia dentro e fora do Parlamento, mas não podia admitir publicamente isso. Entretanto, aqueles malditos pássaros tinham o poder de cantar felizes ao nascer do dia, algo que ele obviamente não conseguia fazer e julgava intolerável.

Certo dia o senador acordou especialmente raivoso e resolveu silenciar os pássaros.  Ao chegar no Senado ele mandou a secretária convocar todas as empresas de nanotecnologia do país para uma consulta pública. Ele queria saber quais eram os projetos em que as empresas estavam trabalhando e se elas precisavam de financiamento público. No dia marcado, os representantes de várias empresas vieram ao Senado. Cada qual expos seus projetos, mas apenas um perguntou ao senador se o Estado estava precisando de algo especial. Um produto essencial à segurança nacional,  talvez.

Satisfeito, o senador encerrou a consulta. No dia seguinte ele ligou para a empresa cujo representante havia demonstrado sensibilidade para atender assuntos estatais importantes. Uma nova reunião foi agendada, desta feita num restaurante de luxo. Na ocasião o senador disse ao interlocutor que estava disposto a financiar um novo produto: o silenciador de pássaros.

As especificações do nanodispositivo que o senador precisava eram simples. Ele deveria ser capaz de entrar na corrente sanguínea dos pássaros, atingir os cérebros deles e bloquear a área cerebral específica responsável pelo canto. O vetor do nanodispositivo seria uma ração nutritiva irresistível que já estava disponível no mercado. Obviamente o senador era já era sócio oculto da fábrica que produziria a ração especial.

O ambicioso empresário disse que o produto poderia ser desenvolvido, mas os estudos custariam caro. O senador respondeu que os fundos públicos para iniciar e concluir o projeto seriam alocados e que se fosse necessário um programa social qualquer poderia ser cortado para liberar mais dinheiro para aquele projeto de interesse público com grande impacto na segurança nacional do país. Tudo deveria ser feito em segredo, obviamente.

Dois anos depois, dezenas de bilhões de dólares haviam sido investidos nesse projeto científico secreto. O protótipo desenvolvido foi testado com sucesso em laboratório. O senador exigiu que a primeira experiência de campo fosse feita nas imediações da casa dele e voilà. Em pouco tempo os pássaros deixaram de infernizar a vida do político. O sucesso foi imenso e o novo produto foi adquirido pelo Departamento de Defesa e acrescentado ao arsenal de guerra psicológica não convencional. Centenas de toneladas de ração especial foram estocadas e esquecidas num depósito de munição do Exército. O senador levou alguns sacos do novo produto para casa, porque ele eventualmente precisaria alimentar e silenciar novos pássaros na vizinhança dele.

Alguns anos depois, um coronel desonesto responsável pelo depósito de munição percebeu que toda aquela ração especial de aves estocada estava com prazo validade vencendo e precisaria ser removida e destruída. O vocábulo “especial” nos sacos não significava nada para ele e o coronel realmente não se preocupou em descobrir o que aquela “comida de pombos” continha. O desperdício é algo que repugna à cultura militar. Então, ao contrário de ordenar a remoção e destruição da munição especial de guerra psicológica, o coronel simplesmente deu baixa no relatório de estoque e começou a transportar os sacos de ração para uma empresa de fundo de quintal que ele montou com o cunhado.

Ao chegar na nova fábrica, a ração era reembalada e vendida a um preço extremamente competitivo como se o prazo de validade estivesse apenas começando. O negócio se tornou tão lucrativo que todos os oficiais comandantes do depósito de munição se tornaram sócios do coronel espertalhão e em pouco tempo o comércio da ração especial provocou uma catástrofe ecológica.

Primeiro, em diversas regiões do país os pássaros do país começaram misteriosamente parar de cantar. Depois a população deles declinou por falta do canto de acasalamento. Os predadores de pássaros também começaram a ficar silenciosos e nem os cientistas nem os curiosos sabiam o que estava ocorrendo. Por fim uma epidemia de mudez se espalhou no país. Isso ocorreu quando parte da ração de pássaros acabou sendo lucrativamente incorporada à alimentação de frangos destinados ao abate. 

O silêncio de uma parcela da população despertou o interesse da imprensa. Mas o caso não foi necessariamente considerado um problema de saúde pública, porque como vocês sabem, de maneira geral os políticos odeiam mais uma população barulhenta do que alguns senadores gostam de ouvir pássaros cantando na vizinhança. De qualquer maneira, um inquérito parlamentar foi realizado e identificou a fonte do problema. O resultado final da investigação foi mantida em segredo, por razões de segurança nacional. Mas pistas e fragmentos do relatório final do inquérito parlamentar vazaram e isso causou um certo desconforto, rapidamente desmentido como sendo teoria da conspiração.

Parece que os militares envolvidos no comércio ilegal da ração especial de pássaro ganharam promoções de patente. O senador que havia destinado fundos ao desenvolvimento do produto ganhou a mais alta Comenda de Honra ao Mérito Senatorial e teve o nome inscrito no livro dos heróis da pátria. A empresa que inventou o nanodispositivo do silêncio foi contratada para retomar a produção do produto, que doravante seria incorporado à produção de alimentos subsidiados pelo Estado e distribuídos gratuitamente aos pobres dentro e fora do país. Mas antes desse novo projeto social grandioso ser colocado em prática, a empresa recebeu fundos adicionais para desenvolver um nanodisposito que desabilitava o nanodisposito do silêncio. Esse novo produto seria eventualmente comercializado com lucro, mas sua venda seria extremamente controlada. 

PS: Atenção: esse não é um conto sobre tecnologia, política suja e corrupção militar, mas sobre o uso ideológico do bordão “cale a boca você é antissemita” para normalizar o genocídio em Gaza. 

*Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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