Os diários de Gombrowicz na Argentina, por Maíra Vasconcelos

Nada lhe cabe e assim levanta a voz de um escritor que se quer delinear a partir da solidão de seus diários.

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Os diários de Gombrowicz na Argentina

por Maíra Vasconcelos

Este diário, apesar das aparências,
tem o mesmo direito à existência que um poema.

Parece-me mais cabível escrever sobre alguma leitura. Apenas finalizar este texto longe daquele ingrato estado onde escrever, às vezes, parece impossível. O “Diário argentino” do polaco Witold Gombrowicz é como ler um manifesto artístico. Uma leitura, talvez, um pouco cansativa por seu niilismo inclemente. 

Quando a Polônia então é invadida pela Alemanha, Gombrowicz, que já estava na Argentina como escritor ou jornalista convidado, decide permanecer em Buenos Aires, onde irá viver por cerca de 24 anos. No prefácio do diário argentino, avisa ao leitor sobre a presença da raivosa força poética. Traduzi algumas partes. “Não encontrarão aqui uma descrição da Argentina. Talvez, inclusive, não reconhecerão suas paisagens. A paisagem é aqui “um estado de ânimo”.  Este diário, apesar das aparências, tem o mesmo direito à existência que um poema”.

Gombrowicz se coloca na trincheira contra o marxismo, o existencialismo, o comunismo. Nada lhe cabe e assim levanta a voz de um escritor que se quer delinear a partir da solidão de seus diários. Sabedor de que diários passam longe de ser a verdade do “eu”. Em muitos momentos, ele é apenas teatralmente confessional. Pois mostra-se um escritor consciente de seu trabalho diarístico de contar determinado cotidiano e traçar o impossível autorretrato daquele que o escreve.

Witold não se enquadra completamente, mas frequenta o meio artístico argentino. Critica Borges e seu europeismo, “ele via a Argentina como um francês culto vê a França ou um inglês a Inglaterra”. Tampouco se dava muito bem com as irmãs Victoria e Silvina Ocampo, deixa isso claro nos diários. Fala da Argentina como se a conhecesse melhor do que ninguém e a considera seu segundo país. “O pecado na Argentina é menos pecaminoso, a santidade menos santa, a repugnância menos repugnante e não somente a beleza do corpo, senão em geral cada virtude é aqui menos solitária, está disposta a comer no mesmo prato que o pecado”.

Gombrowicz arma seu espetáculo diarístico e sua política. Do que é político, diz querer aniquilar aquilo que chama de “crise de universalismo”. Deseja “ser concreto e privado”. “Não sou Atlas para carregar nos ombros o mundo inteiro”. Gombrowicz é exemplar ao armar uma identidade de escritor, que é um dos objetivos de seu diário, teria dito a um editor.

Termino com a tradução de um trecho para provocar a leitura. Porque o diarista Gombrowicz é propositalmente provocativo e rebelde, em uma escrita que se escreve apesar dos pesares do próprio escritor que discute imadurez e juventude nos diários, ao comentar repetidamente sua novela “Ferdydurke”. “Noventa por cento da Argentina e da América do Sul se deixa explicar pelo gênero de vida de seus habitantes, vida – apesar de seus lamentos – fácil em comparação com a de outros continentes”.

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