Palavras Espelho
por Nadejda Marques
Preste atenção nas palavras que usamos com mais frequência, nas que estão em voga. Elas servem não somente como um espelho pelo qual nos enxergamos e nos definimos, mas também revelam o que se passa ao nosso redor, o que valorizamos e o que acreditamos ser importante dar nome e expressar.
Em 2025, o Merriam-Webster anunciou que “slop” (desleixo), em referência a conteúdo de baixa qualidade produzido por IA, era a palavra do ano nos Estados Unidos. Em Portugal, “apagão” foi eleita a palavra do ano segundo votação organizada pela Porto Editora. O Dicionário de Cambridge elegeu a palavra “parassocial”, definida como relação intensa, unilateral e frequentemente doentia que as pessoas desenvolvem em relação a celebridades, influenciadores ou IA, como a palavra do ano na Inglaterra. No Brasil, “incerteza” foi eleita a palavra de 2025 e “ansiedade” a de 2024, segundo pesquisa da Cause e o Instituto Ideia. Mesmo desconsiderando o processo de seleção dessas palavras, todas evidenciam aspectos muito importantes e interessantes sobre a nossa sociedade e, se agrupadas, podem explicar bem o momento histórico político que vivemos.
Algumas palavras aparecem timidamente em um artigo aqui e outro ali como é o caso de “despotocracia”. Outras, como “tiranocracia”, que tem sua a origem no século XIX, parecem ressurgir das cinzas (ou do inferno)! Essas duas, em particular, invadem o nosso vocabulário para explicar o óbvio. Não podemos chamar de democracia um sistema de governo que simplesmente realiza eleições mas onde os eleitos não representam os interesses do povo. Onde grande parte da sua população não participa ou é impedida de participar das eleições. Onde forças do governo brutalizam e aterrorizam sua população. Onde o poder do presidente não respeita o judiciário, o legislativo ou a Constituição. Como mais definir os Estados Unidos atualmente senão como uma despotocracia ou tiranocracia?
Nos últimos anos passamos a usar várias palavras com o sufixo cídio cuja a origem do Latim -cidium significa “matar”. O genocídio descarado, contínuo e totalmente impune contra o povo palestino. O ecocídio em Mariana, Brumadinho, Pantanal e Amazonas. O feminicídio de Tatianes, Tainaras, Denises, Adrianas. O medicídio quando o sistema de saúde é destruido de forma dolosa, quando profissionais da saúde passam a ser alvos de ataques militares ou quando os remédios são tão caros e inacessíveis para grandes populações que deles precisam. Temos até o verbocídio, quando há uma distorção deliberada e total do significado de uma palavra (situação presente em campanhas políticas onde palavras como “liberdade”, “escolha” e “reforma” são usadas para designar algo que nunca fez parte de suas definições).
Como ainda estamos no início do ano, temos a desculpa temporal e a esperança humana para conceber e pôr em prática as palavras que gostaríamos que definissem este ano de 2026. Seja no Brasil ou em qualquer outra parte, busquemos as palavras que podem mudar a realidade e, ainda mais importante, as ações que correspondam a essas palavras.
Nadejda Marques é escritora e autora de vários livros dentre eles Nevertheless, They Persist: how women survive, resist and engage to succeed in Silicon Valley sobre a história do sexismo e a dinâmica de gênero atual no Vale do Silício e a autobiografia Nasci Subversiva.
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