Qual o CEP?
por Dayse Torres
O Censo 2022 do IBGE identificou 32.113.490 pessoas com mais de 60 anos no Brasil. A estimativa é de que essa população seja de 75 milhões até 2070.
O casal de velhos na casa de palafita. O ronco do motor a querosene do barco soa como sirene de ambulância. Lá vem a mocinha, a agente de saúde do posto localizado a mais de 100Km. Ele está com febre, há dias prostrado na rede. Ela esgotou as possibilidades de chás e emplastros. Os filhos estão longe, desde os dezoito anos na cidade grande. A agente mede a temperatura, 39,5 graus, tenta contato com o posto, não há sinal para o celular, deixa uma cartela de analgésico. Na próxima semana, o médico virá, ela promete.
O casal de aposentados comprou a casinha na periferia com financiamento por trinta anos. Caberia a piscina de plástico para os netos, quando chegassem. Chegaram. Os filhos deixavam por conta deles a obrigação da presença. Eles adoravam, até começarem a desgostar da macarronada da avó, todo domingo sempre igual, das histórias tediosas sobre os pais quando eram crianças, das perguntas repetitivas do avô sobre as namoradinhas dos netos, das restrições impostas às netas. A piscina secou, ressecou, rasgou. Avó e avô, sem filhos, sem netos, sem serventia.
O velho era teimoso, enxerido na vida dos filhos, encrenqueiro, deu para fazer picuinhas maldosas. A velha pegava no pé da filha para levá-la ao carteado e quermesses, trocava as caixas de remédios, os horários de tomar, perdia as consultas médicas no postinho. A filha, única mulher, equilibrava o trabalho no telemarketing, o pai, a mãe, dois filhos adolescentes, uma filha criança e o marido que dizia não ter nada a ver com tudo isso. Sem saída, internou pai e mãe na casa de repouso. Não cobram nada. Só um percentual pequeno do salário mínimo que ele recebe de aposentadoria. Terão moradia, cinco refeições diárias, remédios da farmácia popular, terapia ocupacional, fisioterapia e convivência social. Foram, os dois. Foram-se, rapidamente.
O bairro ostenta casarões centenários, decadentes, as famílias sem conseguir pagar o IPTU altíssimo. Moradores de condomínios de luxo da vizinhança se alvoroçam com a ocupação dos casarões transformados em ILPIs [Instituição de Longa Permanência para Idosos]. Olha lá, mais um defunto saindo, é um entra-e-sai de carros funerários e ambulâncias, desvalorizam nossos imóveis. Eles que se mudem para outro lugar, aqui não. Foram à prefeitura exigir o cancelamento do alvará para funcionamento das residências dos velhos, por estarem em zona estritamente residencial.
Estima-se que existam 6.200 ILPIs no Brasil, que atendem 160.000 pessoas, equivalente a 0,5% da população acima de 60 anos. 65% das ILPIs são filantrópicas, frequentemente dependentes de doações e parcerias públicas [IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada]. O valor mensal de uma vaga em ILPI privada pode variar de R$ 6.500,00 a R$ 14.000,00. *
* Informações obtidas no portal terra.com.br, em 1/abril/2026.
Dayse Torres é autora de “Vossos Velhos”, finalista no Prêmio Jabuti – Contos 2017, e do romance “eu sou uma velha”, cuja escrita foi contemplada pelo Projeto Rumos Itaú Cultural 2023-2024 e será publicado em breve pela Editora Quelônio.
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