4 de junho de 2026

“Soledad no Recife” para o cinema, por Urariano Mota

“Soledad no Recife”, receberá uma adaptação que denuncia a execução da heroína grávida pela traição do Cabo Anselmo e torturada por Fleury.

“Soledad no Recife” para o cinema *

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por Urariano Mota

Divulgo aqui em primeira mão: o meu romance “Soledad no Recife” vai para o cinema.

A narração franca de um dos crimes mais cruéis da ditadura brasileira cometidos contra Soledad Barrett, e mais cinco bravos executados no Recife, está num projeto em discussão com André Cintra, diretor do longa, editor-adjunto do Portal Vermelho.

O livro “Soledad no Recife”, que é uma reconstrução ficcional dos últimos dias de vida de Soledad, receberá uma adaptação para o filme que denuncia a execução da heroína grávida pela traição do Cabo Anselmo, morta sob torturas por Fleury.

A seguir, um trecho do livro onde a suspeita sobre “Daniel”, nome usado pelo Cabo Anselmo no Recife, se agrava.

“- Tenho um problema pra falar contigo.

Problemas não nos faltavam, muitos anos depois continuam com a sua livre dádiva, mas àquela época as árvores do inferno eram mais férteis. Eu me levantei da sala e fiz um sinal para vir a meu quarto. Era um meio de fugir à vigilância cerrada da minha mãe, que, eu sabia, punha-se pelos cantos a nos seguir com seus ouvidos detectores. Entramos no quarto, fechei a porta e liguei o som. Alto.

– Pode falar, externei, em competição com a vitrola. 

– Baixe mais, se não eu vou ter que gritar. 

– Tem que ser assim. Fale mais perto, aqui.

– É um problema sério. Muito sério, rapaz.

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Olhou para os lados por simples tique, porque só nos restavam paredes com uma foto de Lorca. E quase gritou:

– Escute. Houve umas quedas.  – E desandou a falar como em jatos de vômito: – Houve três quedas. Todas de pessoas que tiveram ponto comigo. Todas. O que se sabe agora é que todos três estão mortos. Caíram pouco tempo depois do ponto comigo. E agora tem outro, que faltou a um ponto. Eu me encontrei com eles e depois eles sumiram. O que é que acontece? Estão desconfiando de mim. Porra, não pode haver tanta coincidência. Eu me encontro com eles e os camaradas caem. Porra, estão pensando que eu sou policial, entende? Eu, policial, você está me entendendo?!

– E você é?

– Tomar no cu! Vá tomar no cu!!!

– Calma. É só uma pergunta.

– Aqui! Gritou, dedo em riste, como uma faca.

– Preste atenção. Você tem certeza de que fez o ponto e caíram logo depois?

– Claro.

– Mas como se explica? Você deve estar sendo seguido.

– Não pode. Eu tomo todas as precauções. Eu nunca sigo reto. Tomo caminhos sem nexo pra chegar no ponto. Pego ônibus, desço, pego táxi. Entro em uma clínica por uma porta e saio por trás.

– E como se explica?

– Não sei.

– Além de você, quem sabia desses pontos?

– Eu e os camaradas do encontro, claro… Bom, mas só mais uma pessoa. Ele tem que saber, porque ele é quem banca as despesas.

– Quem?

– Daniel.

– Então é ele.

– Não pode. Não pode ser ele. Absurdo!

– Por que não pode? Se não for ele, é você.

– Presta atenção, caralho. Ele é importante.

– Quem? Daniel?

– Sim. Eu sei. Ele já abriu pra mim a importância do trabalho dele.

– É ele.

– Não pode, cara. Não pode. Ele é treinado em Cuba.

– Se não for ele, é você. Escolha”.

Como fala André, “Bora!”. E seguimos em frente.

*Vermelho “Soledad no Recife” para o cinema – Vermelho

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    22 de fevereiro de 2025 9:51 am

    Uma das coisas mais terríveis da Comissão da Verdade de Dilma Roussef e Lula foi o silêncio da esmagadora maioria dos militares e policiais direta ou indiretamente responsáveis por torturas, assassinatos e desaparecimentos de pessoas consideradas indesejáveis ou inimigas da ditadura militar.
    Alguns ficaram apenas com medo de ser processados e punidos pelos crimes que cometeram. Outros silenciaram porque são criminosos orgulhosos e imaginaram que não seriam tratados como heróis. Como contornar esse problema e fazer os vagabundos que restam abrir o bico antes de morrerem?
    Eis aqui uma ideia alternativa. A esquerda precisa criar o programa dos “falsos pastores bolsonaristas”. Após treinamento (linguagem, maneirismo, etc), os candidatos percorrerão os hospitais (especialmente hospitais do Exército e das PMs) a procura de policiais e militares idosos no fim da vida.
    Os falsos pastores se aproximarão dos criminosos da ditadura com o pé na cova” em nome de Zezuis”. Eles incentivarão os vagabundos a falar do passado dizendo que eles são heróis e que o heroísmo deles não pode ser esquecido. As entrevistas devem ser gravadas com ou sem autorização dos moribundos.
    As confissões obtidas dessa maneira alternativa (e potencialmente ilícita) não poderão ser usados em processos criminais. Mas podem ajudar a desfazer mistérios, preencher vazios e até ajudar a localizar os restos mortais de desaparecidos políticos.
    Vocês apoiariam o programa dos “falsos pastores bolsonaristas”?

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