Izaias Almada
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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Travessia (I), por Izaías Almada

“TRAVESSIA”, título que escolhi para relembrar as venturas e as desventuras pelas quais passei do século XX ao século XXI.

Travessia (I), por Izaías Almada

(Memórias de um rapaz mal comportado)

        Caros leitores, como curiosidades e a título de degustação aí vão as primeiras linhas das minhas memórias que abrirão o volume de número 01 de “TRAVESSIA”, título que escolhi para relembrar as venturas e as desventuras pelas quais passei do século XX ao século XXI.

        Há muito que contar: fatos, pessoas, realizações, frustrações, algumas vitórias, algumas derrotas. A infância, a adolescência, a primeira juventude, o início da fase adulta, o envelhecimento, tudo alinhavado com a firme convicção de que “a vida, com certeza, não começa aos quarenta”…

        A família, os amigos e também os inimigos, as esperanças e desesperanças, uma travessia e uma história que só eu posso contar, pois é a minha travessia… A história da minha vida. Vamos a ela!

01               

Anos de 1942/1946

                 Hitler aterrorizava o mundo e Getúlio Vargas, o Brasil, quando ainda administrava o seu Estado Novo. Foi nesse momento que resolvi nascer…

Da madrugada do dia 16 de abril de 1942, na maternidade do Hospital São Lucas até às 10hs do dia 25 de janeiro de 1963 na Rodoviária da cidade de São Paulo, quando troquei Belo Horizonte pela capital paulista, vivi os meus primeiros vinte anos nesse planetinha chamado Terra.

Se bons ou maus não sei, até esse momento em que escrevo, avaliar corretamente. Da matrícula no Jardim da Infância no Colégio Izabela Hendrix feita aos cinco anos de idade (1947) até ao quarto ano primário no mesmo colégio (1951), guardo no coração a saudade amorosa e fraternal das professoras Lenir e Elisabeth, das colegas Wanda, Milcy, Marília e Vânia Mara, entre outras e também dos colegas Zé Carlos, Camil Abras, Brasil Winston e Júlio Kielruff.

        Sobre esse período infantil, escrevi um conto para o meu livro “Memórias Emotivas” (*) que reproduzo abaixo, com o título Belô:

Há quem diga que o mineiro de verdade é aquele nascido no interior das Gerais. Bobagem. Todo mineiro nascido na capital é tão ou mais mineiro porque consegue reunir todos os matizes de mineiridade que se desenham desde o interior. E depois, o que é que tem a ver uma coisa com outra, não é mesmo? Interior ou capital somos todos mineiros.

Eu, por exemplo, que sou da capital, adoro brevidade, doce de leite com queijo, rapadura, galinha com quiabo e angu, doce de mamão ralado, jabuticaba Sabará, goiaba vermelha, abil, torresmo e tutu de feijão.

É que sou ao mesmo tempo do Triângulo Mineiro, da Zona da Mata, sou de Montes Claros, Governador Valadares e Varginha, sou de Juiz de Fora, Patrocínio, Uberlândia, Carangola, Ouro Preto, Barão do Cocais e Belô…

Meu amigo Pereira, não. Meu amigo Pereira é só de Belô. Ou melhor, era! Em criança andou de bonde pela Rua da Bahia e colecionou figurinhas Seleções, compradas de atravessadores junto aos abrigos da Praça Sete.

Os pais do Pereira viviam mudando de casa. E de bairro. Em dez anos moraram nos bairros de Carlos Prates, Progresso, Santa Tereza, Floresta, Sagrada Família e Prado. Mal o menino se acostumava à nova vizinhança e lá vinha o caminhão de mudanças encostar-se em frente à sua casa: migrante na própria cidade.

Tal nomadismo fez de Pereira um homem sem raízes. Ou quase. Porque sua mineirice tornou-se acachapante, ou melhor, sua belorizontinice. Todos os seus amigos, feitos aqui e ali, foram deixando a cidade. Pereira, não. Pereira foi ficando. Gostava mais de Belo Horizonte do que da própria mulher com quem veio a se casar. “Daqui não arredo pé”, costumava dizer.

Viu, com grande aperto no coração, cortarem todas as árvores da Avenida Afonso Pena e trocarem de lugar o Pirulito, marca arquitetônica da cidade. Viu nascer o Mineirão e o seu Ameriquinha amargar um segundo plano no futebol. As matinês domingueiras do cine Brasil eram incomparáveis…

Estudou no Colégio Anchieta e depois no Estadual, antes ainda do prédio do Niemayer. Lembrava-se muito bem do medo que se abateu sobre a cidade quando houve o crime do Parque Municipal, quase na mesma época do crime na mansão da família Abras.

O pai de Pereira era jornalista do Estado de Minas, vindo de Juiz de Fora. Jornalista sem maiores ambições, pois o fato de vir para Belô já era bastante para o seu orgulho profissional. Era repórter de esportes, o que deu a Pereira o privilégio de ir a vários jogos do América Futebol Clube no Estádio Independência ou no Otacílio Negrão de Lima.

Ficou sócio de carteirinha do clube, frequentando a piscina e fazendo amizade com o porteiro Bolão que, de tão gordo e avantajada barriga, diziam, não conseguia ver o próprio pinto, a não ser com o uso de um espelhinho. Pereira era torcedor fanático e tinha especial bronca do Atlético Mineiro o “galo” das charges de esporte do jornal Estado de Minas… Galo era bom na panela, com ervilhas e batatas cozidas.

Quando inauguraram Brasília, seus orgulhosos construtores chamaram-na de Novacap. Com inveja, por deixarem de ser a capital do país, os cariocas se autodenominaram de Belacap, pelos encantos óbvios da cidade.

Os emigrantes mineiros, abundantes nas duas cidades, ironizaram o fato chamando Belo Horizonte de Merdacap. Pereira nunca entendeu assim e se revoltava com o maledicente epíteto. Admitia apenas o carinhoso Belô.

(Continua)

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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