Por Maíra Vasconcelos, especial para o blog
San Telmo, 27 de janeiro,
sentados, na sombra, no terraço de um antigo casarão.
Após as 17 horas, o sol arredaria espaço para que durante a conversa no terraço seus raios não trincassem nossos crânios. Além do mais, Esteban, o desenhista Remo, guarda por ali é o reduzido crânio de uma rata – “mas ainda não lhe coloquei um nome” – e outras partes ósseas de animais, assim, não-humanos. “Tenho também ossos de cabra e de touro. Estou estudando essas formas e texturas”, adverte, sossegado, o artista argentino. Ele observa os materiais da natureza, essa que, segundo ele, encarna “a poesia das coisas”, até o estrondar da contemplação. “Pintar e desenhar é contemplar. É um ato poético”, delineia o pensamento.
Á lápis, ou também á pura caneta Bic, vê-se a imperfeição exata de corpos humanos alterados. Mas são perfeitas enquanto partes corporais robóticas, androides ou também alienígenas. Sentido que pode ser atribuído aos seus desenhos pelas influências e admiração de Esteban pelo trabalho do suíço Han Rudolf Giger, que criou o personagem extraterrestre para a clássica série do cinema, “Aliens”. Remo também produz pinturas com acrílico. Mas, para ele, o material mais nobre é o óleo, trabalho ao qual vai se entregar em breve.
Desenho mistura de surrealismo, elementos fantásticos e ciência ficção. “São construções antropomórficas. Podem aparecer partes orgânicas, corpos multilados. Uso a imagem do humano para expressar essa bronca pela espécie”, disse Esteban, quando também afirma valorizar “a parte brilhante da humanidade”. “Somos criação e destruição. Buscamos a vida e matamos. Buscamos energia, depois produzimos energia atômica. Transformamos o bom que podemos ser em algo nefasto”, conclui.
Sua crítica social também perpassa os espaços elitistas das artes. Porém, Esteban confessa que a rebeldia deve ser controlada, pois pode levar a nada. Como quando decidiu participar do Salão Nacional de Artes Visuais 2012, no centenário Palais de Glace, em Recoleta. Poucos dias antes de apresentar o desenho para avaliação, em conversa com um colega, Esteban descobre que não havia cumprido com as regras. Passou40 centímetrosdo permitido pelo regulamento.
“Eu era uma árvore. Oito meses comendo arroz e produzindo para a mostra. Ciente do erro, igualmente, o apresentei e me recusaram. Mas como pode ser que meu inconsciente me enganou de tal forma?”, ri de si mesmo, e afirma que este ano irá tentar verdadeiramente participar. “É preciso aprender a não marginalizar-se”.
Seus desenhos ganharam espaço em duas exposições, em La Plata, em 2010. Na Universidade Nacional de La Plata e durante a Primeira Bienal Universitária de Arte e Cultura. Oportunidade conquistada com a admiração dos seus trabalhos pelo artista plástico e desenhista gráfico, Ricardo Cohen. Conhecido como Rocambole, confeccionou todas as capas de discos de uma das bandas referência no rock argentino, “Patricio Rey y sus Redondito de Ricota”.
“Os melhores momentos de uma mostra é quando o autor pode estar oculto e ver as sensações de cada espectador. Você percebe que faz um trabalho coletivo. Vê que o artista não é nada nesse emaranhado de sensações alheias”, pontua. Para Esteban, o artista carrega consigo a responsabilidade por conduzir determinada energia, que deixa de ser interna no momento da criação, e passa assim a ser coletiva. “É a sua condição de fio condutor”.
Seguimos o cabo das ideias, entre crânios animalescos intercalados, quando Esteban diz dissociar-se de Remo, tido mais que como um pseudônimo tradicional do mundo dos artistas. “Remo é uma entidade. Dizer que é uma entidade é uma forma de não ser responsável sobre o que acontece quando desenho. Trabalha uma energia incompreensível. Remo seria alguém que me visita quando trabalho. Às vezes, é muito forte”, conta calmo, Esteban (ou Remo?), enquanto olho a evidência do trabalho forte, representado pelo osso de um touro descansado, na sombra, no chão do terraço.
Prossegue o papo.
Esteban, com olhos ressabiados sobre os teclados á disparar, demonstra preocupação pela extensão do relato. “Já sei! Tente escrever um conto, pois se continuar assim vai escrever uma novela”, afirma com cara séria.
O desenhista tem gosto pela história. Passamos pelos tempos de Juan Domingo Péron (1945/1955), e o plano do Turismo Social, nas estâncias de Chapadmalal, localidade situada a 23 quilômetros de Mar del Plata, onde Esteban cresceu com a família, lar que abandonou aos 15 anos.
“Sou um contador de histórias. A história é ferramenta para compreender a si mesmo. Por que vivemos assim? Por que a sociedade atua do mesmo modo que há 200 anos?”. Agora, Esteban se transforma em perguntador e direcionador da conversa, pega o violão e solta algumas melodias.
Perguntado se o gosto pela história é nele um vestígio do comum rasgo da nostalgia argentina, pondera: “Você quer dizer algo tanguero? Não. Com a história quero apenas entender. E isso é perigoso, pode te deixar triste. A sociedade está acostumada a culpar o outro, o presidente, o vizinho. E qual a responsabilidade de cada um? Para isso, temos que trabalhar, olhar para dentro de nós mesmos. E esse trabalho ninguém quer. Querem trabalhar para ganhar dinheiro, sentados em frente a televisão, trabalhar para pertencer ao todo social”.
Após sair do comum perfil nostálgico argentino, prossigo: você é, então, um dos chamados personagens de San Telmo? Esteban remexe na cadeira, ajeita o corpo para negar o que chama de categorização. “Sou um personagem, mas não um personagem de San Telmo. O personagem de San Telmo é parecer mais que ser. Poucos tentam ser, e muitos estão para parecer”. Remo chega a desenhar por 15 horas seguidas, no seu quarto-ateliê, localizado na parte de cima do casarão, que divide o terraço.
Espaço que Remo poderá ocupar com um novo objeto da natureza, dessa vez humana, para contemplar. “Não tenho crânio de humanos, porque ainda não consegui, mas em breve…”. Diante das incertezas, ao menos cuidamos aos nossos crânios do sol de verão portenho.
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