5 de junho de 2026

A arte do realismo cru de Visconti

Sugerido por Assis Ribeiro

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Do Blog História

Visconti, do neorealismo ao decadentismo
 
Lucchino Visconti, morto em 1976, foi um dos poucos cineastas do século 20 que conseguiu erguer o cinema dos níveis do entretenimento à grande arte. Universalmente reconhecido, sempre foi um homem de talentos múltiplos, renascentistas, que iam do domínio da música clássica até um detalhado e erudito conhecimento da história da literatura e dos costumes. Sem omitir-se a sua capacidade de conduzir, como um verdadeiro maestro, grande atores e atrizes e o controle cênico que sempre demonstrou ter, em mais de 40 anos de atividade artística. Sua carreira de diretor deu-se nos começos dos anos quarenta, quando alinhou-se entre os precursores do neorealismo italiano, encerrando sua trajetória, em 1976 mesmo, como o principal cronista da decadência do patriciado europeu.
 
Uma Itália em ruínas
 
Entrando na Segunda Guerra Mundial em 1940 – quando o ditador fascista Benito Mussolini decidira acompanhar a Alemanha Nazista -, três anos depois a Itália viu-se invadida pelas forças aliadas anglo-saxãs que, desembarcadas na Sicília em 1943, rapidamente dominaram a metade do país. Os aliados alemães, por sua vez, desconfiados da fidelidade do exército italiano, rapidamente ocuparam a metade norte da península, transformando a acidentalidade dos Montes Apeninos numa enorme trincheira natural para as suas tropas. Uma longa e morosa guerra então estendeu-se ainda por dois anos em seu território, até que ocorreu a capitulação final do nazi-fascismo, em maio de 1945. Mussolini morto, um país em ruínas habitado por um povo faminto, foi isso o que restou do sonho de uma Itália Imperial. Não era de estranhar-se que o filme italiano de então, empobrecido pela vicissitudes da guerra, refletisse uma estética da miséria, nascendo com ele o movimento neorealista (expressão cunhada pelo crítico Umberto Bárbaro, na Revista Il Film, de 1943).
 

Os primeiros anos de Visconti
 
 
 
“Obsessão”, o trágico destino da paixão proletária
 
Filho da aristocracia lombarda, Visconti, que nascera em Milão em 1906, teve, à instância da mãe, uma educação voltada para a arte. Diga-se que já a trazia no sangue, por assim dizer, visto que o seu avô materno fora um dos fundadores do La Scala, a maior casa de Óperas da Itália e uma das mais respeitadas e famosas da Europa. Nos anos trinta, espirrando-se para fora do clima opressivo e machista da Itália fascista, Visconti, que era homossexual, deu para circular em Paris pelas mãos da estilista Coco Chanel. Ela não só instruí-o nas noções básicas do figurinismo como o apresentou a Jean Cocteau, um dos mais famosos cineastas franceses e ativo agitador cultural na época da Frente Nacional. O mundo da moda e o cinema entraram em sua vida assim, simultaneamente. De volta à Itália, engajou-se entre os simpatizantes da resistência antifascista, liderada pelos comunistas e pelos partisans, os guerrilheiros de esquerda. Foi preso e torturado, mas escapou da morte por meio de uma fuga espetacular. Este foi o clima em que ele dirigiu o seu primeiro filme: Ossessione (Obsessão, 1943), que veio a tornar-se um dos pioneiros do cinema neorealista italiano.
 
O neorealismo italiano
 
 

“A terra treme”, o destino dos infelizes

 
Na dialética da cinematografia italiana, o neorealismo, um realismo cru, intransigente, despido de qualquer fantasia ou transcendência que não fosse as ligadas pelo sentimento, oscilando entre o sofrimento e a esperança, filmado sempre em preto&branco, surgiu na década de 1940, de certo modo, como o oposto às fantasias fascistas. Estas sempre girando ao redor do homem heróico, do tipo do brutamontes Maciste (como a refilmagem de Maciste all’inferno, de Brignone),que nada mais eram do que variações estilizadas do próprio Mussolini, visto como um super-homem. Fellini, contemporâneo de Visconti, ao seu modo, ironizou-lhe o tipo no filme La Strada, de 1954 (o saltimbanco Zampano, um forçudo de feira-livre, metáfora da decadência do Maciste). Visconti seguirá dando sua contribuição ao movimento dirigindo ainda a La terra trema (a Terra Treme, 1948), Belissima (Belíssima, 1952), filmes fiéis a estética da miséria que era a marca registrada do movimento, que tem um dos seus marcos com o filme de Rosselini Roma città aberta, de 1945, dramática e exemplar narrativa dos últimos dias da ocupação nazista da capital italiana.
 
Os atores da época do neorealismo, em geral, eram amadores, escolhidos em meio ao povo do lugarejo ou do bairro em que filmavam. Tratava-se de histórias comuns, envolvendo uma gente qualquer: pescadores, trabalhadores, diaristas, desempregados, lavadeiras, lavradoras, habitantes de ilhas remotas, de lugarejos perdidos, o povo do subúrbio. Os anti-heróis por excelência, ou heróis anônimos, personagens singelos, toscos, de traços rudes, mostrados sem nenhum amparo da maquiagem ou dos favores da luz, mas que atraiam e comoviam o público por suas histórias candentes de luta pela sobrevivência em ambientes hostis. Tudo se passava ao ar livre, visto que a Cinecittà, a cidade do cinema que o regime erguera em Roma em 1936 (o seu slogan era “A cinematografia é a arma mais forte”), para fazer filmes, estava inutilizada, repleta de refugiados de guerra. Além disso, dessas dificuldades materiais, nos roteiros neorealistas havia um transfundo ideológico esquerdista, preocupado em mostrar a “cara do povo”. Quase um documentário sem retoques para sensibilizar as platéias burguesas com aquele rosário sem fim de carências, padecimentos e dificuldades.
 

 

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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1 Comentário
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  1. vera lucia venturini

    5 de janeiro de 2014 12:47 pm

    Um cineasta onde a estética e

    Um cineasta onde a estética e o intelectualismo atingiu os mais altos patamares na arte cinematográfica.  Dos italianos é um dos meus cineastas preferidos. O outro é Federico Fellini.

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