5 de junho de 2026

A economia vai bem, a sociedade nem tanto

Quando o desemprego é baixo, o consumo alto, o crédito fácil, a miséria sendo combatida, não é de se estranhar que um governo seja muito popular. Afinal, alguns valores importantes estão sendo levados em conta, como a justiça social, a recompensa pelo trabalho.

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Mas isso é tudo o que uma sociedade precisa? É o suficiente para as pessoas deixarem de ser críticas? Não haveria outros valores que poderiam ser buscados?

Como os grandes partidos parecem não se importar muito com nada além de indicadores econômicos, a quem cabe questionar as coisas? A Academia? A Imprensa? Acho que sim. Mas, enquanto isso não acontece, pouco um cidadão comum pode fazer.

Acho que nossa sociedade, a brasileira, não vai tão bem por alguns motivos.

– Não há nenhum movimento organizado ou sistêmico para estudar ou pensar a redução dos crimes. Todos pensam apenas em aumentar o encarceramento, sem perceber que este já triplicou nos últimos 20 anos e a taxa de homicídios segue a mesma, das mais elevadas do mundo. E isto apesar da recente desconcentração de renda e redução do desemprego. Enquanto no mundo se fala em redução de penas, penas alternativas, descriminalização de drogas leves, etc, pesquisa recente do Senado mostrou que, para diversas questões propostas, cerca de 80% dos brasileiros acredita que endurecimento de penas é o caminho. E é isso que os políticos, comodamente, vão oferecer. Não vai dar em nada, claro, além de aumento de custos para o sistema prisional. Quando a sociedade abre mão de pesquisar alternativas e se aferra à intensificação no uso de fórmulas que já se provaram insatisfatórias, apenas para que a população vire seus polegares para baixo, temos um problema.

– Não parece haver uma grande conscientização em relação a meio-ambiente, algo que deveria ser não ideológico. Mas um novo e melhor Código Florestal foi dramaticamente truncado e o assunto saiu de pauta. Falar algo que ameace hidrelétricas, então, é tratado como apostasia. (Muito me chocou, recentemente, ver defendida a seguinte tese: que famílias sem-terra deveriam ser “realocadas” em conjuntos habitacionais em cidades e “treinadas” para trabalhar no setor de serviços. Assim, como se no Brasil faltassem terras ou estivéssemos na Inglaterra do Século XIX.) Alguém vai lembrar em 2014 qual partido votou em bloco contra o CF? Duvido. E, como esse partido não costuma ter candidato próprio à presidência e é garantia de governabilidade para todos os demais, ninguém vai lembrar disso em debates (nem mesmo representantes de partidos ecologistas, talvez.) Quando não há modo de fazer com que uma questão seja debatida politicamente, temos um problema (ainda que para as gerações futuras.)

– A sociedade ainda é marcadamente racista (vide trotes recentes), agressivamente sexista (cerca de 4 mil mulheres são assassinadas/ano por seus companheiros e/ou namorados) e notoriamente homofóbica. Mas como fazer algo a respeito se a conformidade política leva a que ministros julguem politicamente adequado não se manifestar se uma pessoa racista, machista e homofóbica assume (e não foi por acaso) a presidência do Conselho de Direitos Humanos na Câmara? Quando os grandes partidos que defenderam a transformação em lei das edições do PNDH (Programa Nacional de Direitos Humanos), nos anos de 1996, 2002 e 2009, simplesmente abrem mão de seu passado porque não querem que líderes religiosos fundamentalistas falem mal de seus candidatos a cargos executivos (e negociem seus tempos de TV), temos um problema.

– O brasileiro, tão ávido que é por “prender pessoas”, é, no entanto, extremamente leniente em relação a atos antissociais e muito refratário a prevenção. Dirigir perigosamente, por exemplo. De repente, quando algo sensato e usado há décadas pelo mundo é posto em prática, como a proibição de dirigir após beber, surge o discurso de que liberdades civis estão sendo tolhidas, como se vivêssemos ainda na ditadura militar. Quando o Brasil apresenta uma das maiores taxas de mortalidade por trânsito do mundo, algo entre 40 e 50 mil mortos/ano, e a população passa a defender uma ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade) movida por um lobby setorial de venda de bebidas, temos um problema.

Ou talvez não, talvez quem tenha problemas seja somente quem não veja as maravilhas do sistema. 

(P.S. Talvez a economia não vá também tão bem. Mas essa é uma outra estória…)

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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