O Deus do Padre Júlio Lancellotti é o Deus que eu quero acreditar, por Rogério Faria

O Deus do Padre Júlio Lancellotti é o Deus que eu quero acreditar, um Deus que ouve, que olha nos olha, que estende a mão e abraça, que ama.

Foto: Rogério Faria

O Deus do Padre Júlio Lancellotti é o Deus que eu quero acreditar

por Rogério Faria

No ano passado, o padre Júlio Lancellotti me deu a missão de fazer um quadrinho contra a pobrefobia. Fui convidá-lo para escrever o prefácio da minha HQ biográfica Paulo Freire #PRESENTE, em produção na época. Levei pra ela algumas páginas desse trabalho e um exemplar de Marighella #LIVRE, outra biografia em quadrinhos, que eu havia lançado dois anos antes.

Sentado ao lado dele no banco da igreja da paróquia de São Miguel Arcanjo, na Mooca, em São Paulo, aguardei enquanto ele folheava o material atentamente. De repente, eu não poderia ter sido pego mais desprevenido. Ele me convidou para escrever um quadrinho sobre pobrefobia ou, também, aporofobia – o ódio, o preconceito, aos pobres. Claro que aceitei o convite na hora, encantado.

Nos meses seguintes, eu o acompanhei nas rodas de conversa que ele realiza com pessoas em situação de rua na igreja. Ali ele ouve os relatos, levanta debates e provocações, desenvolve ideias, busca soluções, de forma colaborativa e horizontal, a exemplo dos círculos de cultura freireanos.

Foi um processo transformador pra mim. Já acreditava ter empatia com as pessoas em situação de rua, mas me descobri desconstruindo preconceitos e concepções erradas que trazia, só ouvindo e anotando tudo em um caderno já bem surrado.

Há algum tempo os religiosos me afastaram da religião. As atrocidades, o ódio, que o deus deles justifica, aqui e no mundo, foi me convencendo de que não é possível que um deus assim exista. Um deus que justifica a morte de quem pensa diferente, a segregação de pessoas por causa de classe, raça, gênero. Um deus que justifica, do outro lado do mundo, uma nação oprimir, humilhar, sufocar, bombardear e massacrar uma população desarmada, de homens, mulheres, idosos e crianças.

Mas, acompanhando o padre Júlio, pude conviver com um homem de fé que possui um outro tipo de relação com a religião, com um Deus que é amor de verdade. E isso aplacou a raiva que eu trazia comigo. O Deus do Padre Júlio Lancellotti é o Deus que eu quero acreditar, um Deus que ouve, que olha nos olha, que estende a mão e abraça, que ama.

Entendi que a religião também é um espaço de resistência e luta.

As histórias ouvidas naquelas rodas costumam ser bastante duras, de dar aquele aperto no coração. Mesmo assim, eu pude ver a esperança, o amor, a solidariedade, num ambiente sem julgamento. Cada um é o que é, e todos merecem ser tratados com dignidade; dignidade na sua saúde, na educação, em segurança e, sobretudo, dignidade nas suas escolhas.

Essa experiência virou um livro de histórias em quadrinhos originais, inspiradas naqueles relatos: Pobrefobia – Vivências das ruas com Padre Júlio Lancellotti. É esse trabalho que sonho agora em levar ao maior número de pessoas, para que o debate sobre pobrefobia possa permitir que mais gente, como eu, seja transformada.

Se você também acredita que essas pessoas têm voz, que todos nós temos que parar e refletir sobre a própria humanidade, faço o convite para conhecer o quadrinho e apresentá-lo para mais pessoas.

Essa é uma corrente que vale a pena.

Visite o endereço: www.catarse.me/pobrefobia

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Redação

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