
Canção Para Inglês Ver: como o genial Lalá reagiu à invasão americana
por Carlos Motta
Lamartine Babo, o Lalá, é um dos gigantes da música popular brasileira. O carioca morto aos 59 anos, em 1963, ficou conhecido por ter composto dezenas de deliciosas marchinhas de carnaval, que fazem sucesso até hoje, mas sua obra é muito maior: ele compôs sambas (Serra da Boa Esperança/esperança que encerra/no coração do Brasil/um punhado de terra…”), valsas (“eu sonhei que tu estava tão linda/numa noite de raro esplendor…”), e até uma opereta – embora não tocasse nenhum instrumento.
Compôs também hinos para os 11 clubes que disputavam, na sua época, o campeonato carioca, um mais bonito que o outro, uma façanha que por si só já o colocaria entre os gênios da MPB.
Foi craque também no rádio, mídia que, antes da TV, fascinava o Brasil, apresentando, durante muitos anos, o programa Trem da Alegria, junto com Yara Salles e Heber de Bôscoli – os três formavam o Trio de Ossos, que ficou famoso no país todo.
Gozador, trocadilhista, inquieto, Lamartine Babo soube como nenhum outro artista resumir a alma do carioca.
E, atento às mudanças que ocorriam no tempo em que viveu, foi um dos primeiros a perceber o impacto do “soft power” americano entre os brasileiros.
Em 1931 Lamartine lançou uma de suas músicas mais originais – ou malucas, ou cômicas, como queiram -, “Canção Para Inglês Ver”, que tem uma letra aparentemente surrealista, mas que, no fundo, é uma crítica ao estrangeirismo que começava a tomar conta do Brasil – principalmente aquilo que vinha dos Estados Unidos, por meio dos primeiros filmes falados.
“Canção Para Inglês Ver”, um foxtrote, ritmo nascido nos EUA, muito popular nos anos 30 do século passado, tem sido gravada até hoje – continua atualíssima.
Afinal, o Brasil de agora é muito mais americanizado que o de 87 anos atrás, quando ela foi lançada…
Ai loviu
Forguétisclaine maini itapiru
Forguestifaive anderu dai xeu
No bonde silva manuel, manuel, manuel
Ai loviu
Tu revi istiven via catumbai
Independence la do paraguai
Estudibeiquer jaceguai
Ies mai glass, ies mai glass
Salada de alface
Flay tox mail til
Istandar oiu, forguet not mi, oi
Ai loviu
Abacaxi uisqui of chuchu
Malacacheta independence dei
No istriti flexi me estrepei
Elixir de inhame, elixir de inhame
Reclame de andaime, reclame de andaime
Mon paris jet’aime, sorvete de creme
Mai guerli gudi naiti, oi
Duble faiti
Isso parece uma canção do oeste
Coisas horríveis lá do faroeste
Do tomas veiga com manteiga
Mai sanduíche
Eu nunca fui paulo istrish
Meu nome é laska di clau
Jone felipe canar
Laiti andipauer companhia limitada iu
Zê boi iscoti avequi boi zebu
Lawrence tíbeti com feijão tutu
Trem da cozinha não é trem azul
Mai sanduíche
Eu nunca fui paulo istrish
Meu nome é laska di clau
Jone felipe canar
Laiti andipauer companhia limitada iu
Zê boi iscoti avequi boi zebu
Lawrence tíbeti com feijão tutu
Trem da cozinha não é trem azul
LACosta
19 de janeiro de 2018 12:48 pmHistórias…
Lamartine também foi, a exemplo do Presidente JK, telegrafista dos Correios e Telégrafos.
Serra da Boa Esperança foi escrita por uma brincadeira de um fã do Lalá que sabia que ele se achava um sujeito muito feio e por brincadeira colocou e enviou uma carta com a fotografia de uma bonita morena que dizia ser de Boa Esperança (MG) e por ele estava apaixonada. Lamartine juntou uma mala e um violão e foi do Rio à Boa Esperança para encontrar-se com a morena. Chegando a Nossa Senhora das Dores do Pântano (por isso que quem nasce em Boa Esperança tem o gentílico de “Dorense”) demorou uma semana para que a versão da brincadeira ficasse clara para ele, e nascia ali uma das mais bonitas canções sobre uma paixão que não se concretizou da música popular brasileira:
“…no coração de quem vem
Serra da Boa Esperança meu último bem
Parto levando saudades, saudades deixando
Murchas caídas na serra lá perto de Deus
Oh minha serra eis a hora do adeus vou me embora
Deixo a luz do olhar no teu luar
Adeus…”
“…Nós os poetas erramos, porque rimamos também
Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem…”
Teve várias gravações e são conhecidas as versões de Francisco Alves, Silvio Caldas até que teve, na minha opinião, uma gravação com Duardo Dusek que foi de tirar o folego, mas, parodiando Caetano, a gravação do Zé Renato é definitiva…
Jorge Leite Pinto
19 de janeiro de 2018 2:36 pmDeiciosa postagem. Valeu.
Deiciosa postagem. Valeu.