4 de junho de 2026

Monteiro Lobato, o homem além dos preconceitos

 

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Caros geonautas,

A crônica de Veríssimo (abaixo) é sempre um porto seguro para se ancorar, aproveitando sua sapiência sobre o escritor Monteiro Lobato, e sobre o que fazer com a leitura de seus textos em sala de aula, na qual acompanho seu decidido e assertivo, “não sei”, mas gostaria de acrescentar algumas palavras do que sei, e que muita gente sabe,  sobre o homem e sua visão,  colocando pingos nos is e contra a maré de plantão, mesmo ela sendo justa, vou defende-lo para além dos preconceitos.

Monteiro Lobato foi um ferrenho nacionalista, e defensor da industrialização do Brasil, na década de 1920, mudou-se para os EUA, em pouca tempo identificou de forma certeira o coração da economia americana, disse, “o que move a economia dos EUA é o petróleo”, e desejou o mesmo para seu país, incorporou a sua luta pela industrialização, a defesa do monopólio do petróleo e do ferro no Brasil, nos anos 1930, voltou a escrever vários livros infantis, na qual criou o personagem, Visconde de Sabugosa e o poço de petróleo que jorrou no Sitio do Pica Pau Amarelo. Monteiro Lobato foi quem ciceroneou a chegada do grande educador baiano e brasileiro, Anísio Teixeira nos EUA nos anos 1920. Como não lembrar da celebre frase, “O petróleo é nosso”, que virou uma luta nacional, encampada por todos e pela luta dos estudantes-UNE, pela criação de uma empresa nacional de petróleo.

De certa forma, o petróleo que jorrou na Bacia de Campos com a inovação tecnológica que revolucionou o mercado na época (perfuração que era por volta de 100 metros para 500 a 600 metros em águas profundas) e lançou o nome da estatal brasileira, Petrobrás no mundo pela primeira vez, e novamente agora, com a nova revolução tecnológica e consagração da Petrobrás em inovação, tecnologia e estratégia global, como empresa nacional líder mundial em águas profundas (sete mil metros) com o Pré-sal. Creio que o petróleo que jorra na petrobrás, é o sonho de Visconde de Sabugosa de Monteiro Lobato, que nem sequer viu nascer a Petrobrás (Vargas, 1953), é o sonho do poço de Visconde de Sabugosa que jorrou no Sítio do Pica Pau Amerelo, é o sonho da nação brasileira que se tornou realidade. O Brasil deve muito aos sonhos desse grande brasileiro, que sonhou uma nação grande, como diz todo dia para mim, nas minhas visitas, rezas e crenças diárias, lá na casa dele, falo do mestre Darcy Ribeiro, que me diz com sua voz vibrante, bela e apaixonada, “o mais importante é inventar o Brasil que nos queremos”. (clique aqui, reze e ouça-o você também).

 

FGV: A questão do petróleo no Brasil – Uma história da Petrobrás (para download):

 

http://cpdoc.fgv.br/producao_intelectual/arq/54.pdf

 

Sds,

 

 

No contexto, por Luis Fernando Veríssimo

 

Minha filha estava lendo uma história do Monteiro Lobato para a minha neta e parou quando chegou num trecho que falava na Tia Nastácia. Hesitou, sem saber se lia o que estava escrito ou se exercia sua prerrogativa de leitora e mãe e pulava o trecho.

Decidiu-se pela censura.

Não me lembro se cheguei a ler Monteiro Lobato para meus filhos, mas tenho certeza de que não teria a mesma hesitação da Fernanda. Não me ocorreria que o texto era racista. Ou talvez ocorresse e eu o desculpasse, pois seria apenas um detalhe que em nada diminuía o imenso prazer de ler Monteiro Lobato. E escrito numa época em que o próprio autor não teria consciência de estar sendo ofensivo, ou menos que afetuoso com sua personagem.

Entre os anos em que eu lia Lobato e hoje mudou tudo no mundo, inclusive o contexto em que o racismo, consciente ou não, é encarado.

E não é preciso ir muito longe atrás de mudanças no contexto. Não faz tanto tempo assim que boa parte do humor na televisão brasileira era feito em cima de estereótipos caricatos de raças e minorias. O negro era sempre o “negrão” careteiro e não muito inteligente, o judeu era sempre um usurário atrás da prestação, o homossexual era sempre um grotesco. E era tudo inocente, baseado em preconceitos herdados e em hábitos culturais que ninguém questionava, já que era humor, não era por mal.

Hoje, no contexto atual, está havendo reação das partes que se sentem afrontadas, o que é ótimo — quando não é exagerada. No caso do “racismo” do Monteiro Lobato, minha posição sobre como o autor deva continuar sendo leitura deliciada das crianças apesar dos trechos abomináveis é um decidido “Não sei”.

Fala-se que nas edições adotadas nas escolas conste uma explicação que coloque os termos repreensíveis no contexto. Não sei. O essencial é que não se prive nenhuma criança brasileira de ler Monteiro Lobato.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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