5 de junho de 2026

Nove tipos da direita brasileira, por Mariana Nóbrega

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do Pandora Livre

Nove tipos da direita brasileira

por Mariana Nóbrega

Iniciado o processo de redemocratização brasileiro, trafegavam na política nacional os herdeiros do MDB e os militantes de esquerda que lutaram contra a ditadura ou participaram de movimentos sindicais, do campo ou eclesiais de base. O trauma da ditadura garantia uma unidade entre esses movimentos, que clamavam pela instauração de uma democracia neste país. Partidos como o PSDB e o PMDB caminhavam pelo centro, pendendo vez ou outra para a esquerda ou para a direita. De outro lado, os partidos assumidamente de direita serviam para divertir o tedioso horário eleitoral, com figuras análogas aos Enéas e Fidelixes da vida.

Algumas poucas décadas depois desse processo, instaurado um governo de esquerda neste país, insatisfações justas e injustas modificaram a cara das pessoas, dos movimentos e dos partidos aqui existentes. No meio dessa chacoalhada, acordaram o Gigante da direita brasileira, que parecia não existir. Estamos aqui para fazer você entender esse recente fenômeno social e político. Afinal, quem é essa nova direita brasileira? Bateu um Weber no Pandora Livre e mostramos abaixo os tipos mais representativos dessa categoria emergente.

1. A direita festiva: A direita festiva existe, apesar de ser uma minoria e perder em termos de animação para a esquerda festiva, como já ressaltou o rapaz Pondé. Isso porque nem todo mundo tem o cacife, ou melhor, a bufunfa necessária para participar de suas celebrações. Eles têm horror a festa gratuita e as festas pagas só podem ser curtidas no espaço mais caro do recinto; com a bebida que pisca, obviamente. A palavra-chave aqui é VIP, Very Important Person, porque são selecionados no meio desta gentalha tropical. Os queridinhos deste grupo geralmente são conhecidos pelo primeiro nome no diminutivo e o sobrenome de algum grande empresário – claro, o seu progenitor -, algo que soa como Mauricinho Loyola, Ricardinho Mesquita, Bernardinho Alcântara. Nas redes sociais, estão sempre a compartilhar as festas de sucesso de que participam ou que ainda vão participar. No último caso, com a frase “hoje tem!”. Sua vida é uma festa na ilha de Caras. Não curte muito política, sabe que odeia o Bolsa Família, e admira o nosso próximo representante, que dá as bases ideológicas para sua visão de mundo: o playboy cabeça.

2. O playboy cabeça: O playboy cabeça se orgulha em poder discutir tête-à-tête com a intelectualidade de esquerda. Fala francês com aquele errezinho difícil e conhece o Velho Mundo como ninguém. “Não sou turista”, esclarece, pois conhece a fundo, como um local, cada esquina de Paris, cada grão de areia da Côte d’Azur. Seus mentores são Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo. Ao contrário da direita festiva, não é muito afeito a badalações; prefere um queijos e vinhos aconchegante com os amigos bem sucedidos e, se fizer frio, pode até rolar uma gola rolê. Apesar de nascido em berço de ouro, tem a qualidade de se tornar independente financeiramente quando adulto, ao contrário do festeiro acima, que é famoso em dilapidar o patrimônio familiar. Botou na cabeça que só ele trabalha e paga impostos neste país. No final das contas, resolve que não vai dar esse gostinho para o Governo e malandra com o Leão.

3. O falso classe A: Nunca viu nem comeu caviar, mas até que disfarça bem pelo discurso. Tem a impressão que os seus 5 mil reais de salário lhe deram a condição de membro da nata brasileira. Teme que sua fortuna seja extraviada pela ditadura comunista e pela sua empregada doméstica que, aliás, anda atrevidinha demais. Está de olho na cotação do dólar, para fazer aquele sacolão em Miami nas próximas férias.

Foto: Tasso Marcelo/Fotos Públicas.

4. O indignado-com-tudo-isso-que-está-aí: O indignado-com-tudo-isso-que-está-aí pode ser seu tio, pode ser seu avô, pois está dentro de todas as classes sociais e nas melhores famílias. Ele está muito, muito indignado com toda essa sujeirada que só surgiu agora no Brasil com o PT. Por isso sai peia da vida pelas ruas, destemido, com semblante revolucionário. Põe sua camiseta da CBF, faz o cara-pintada e põe o seu nariz de palhaço, mostrando que não aguenta mais ser feito de bobo por essa corja. Segue a multidão entoando um “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”; mas, peraí… Avista um trio elétrico com uma faixa e os dizeres “Intervenção militar já!”. Fica espantado, depois, intrigado, e começa a gritar: “Ei, sai daê, po! Sai daê, minha gente! Eu não vim aqui por isso, não! Vocês estão estragando tudo!”.

5. O intervencionista: Assim como na esquerda temos aquele figura que queima todas nossas manifestações – aparece pelado, com um bode morto nas mãos fazendo performance e estraga todo o planejamento do protesto -, o intervencionista é o mela-manifestação da direita. Constrange todo mundo que está ali com seu nariz de palhaço, com a melhor das intenções, querendo limpar a corrupção do país – que só surgiu na última década, com o PT. Está sempre a disseminar conspirações acerca da ditadura bolivariana e do foro de São Paulo.

Foto: Tasso Marcelo/Fotos Públicas.

6. O requentador de Guerra Fria: Está você com sua sandália de couro, sua camiseta com foto do muso Che, sentado tranquilamente no ponto de ônibus. De repente, aparece na rua um senhor lôko com um jornal debaixo do braço que começa a gritar “Vai pra Cuba!”, “Defensor de assassino!”. Você para de ler seu livro da Boitempo, fica atônito. Pergunta o que está acontecendo. “O muro de Berlim caiu”, ele responde. Você perde o seu tempo explicando de Marx a Piketty, explica todas as peculiaridades da esquerda, admite os erros, fala das limitações que sofreu, os problemas que podem ser contornados. Com um sorriso no rosto de missão cumprida, você conclui. Ele retruca, mais calmo, “Ah, vai pra Cuba!”.

7. O ex-esquerdista: Geralmente pertencente a uma faixa etária maior de 40 anos. Antigo apaixonado do PT ou do Partidão. Associava a esquerda ao pobrismo e, por isso, depois que ascendeu, preferiu esquecer tudo aquilo que dizia acreditar. “Eu já fui como você”, é assim que rebate qualquer comentário esquerdista dos mais jovens, pois ser idealista não passa de um arroubo juvenil. Perdeu todos os amigos do seu passado pé-de-chinelo, pois é um comentarista de Facebook voraz, ácido, e não mede palavras para desmascarar toda essa bobagem do tempo dos dinossauros.

8. O teocrata: Antes fosse só Bolsa não sei o quê, Bolsa não sei que lá. O problema é que foi o PT que deu espaço para toda essa ditatura gayzista-feminazi. Homem com homem, mulher com mulher, onde este mundo vai parar? Os valores cristãos, onde estão os valores cristãos? Aí você, para lacrar, pergunta de volta onde está a caridade, o respeito ao próximo. Raspar a barba também é proibido na bíblia e está você aí fazendo depilação a laser.

9. O parece-esquerda-mas-não-é: O cara tem aquele jeito wild que as minas da esquerda curtem. Barbudo, camisa florida aberta na altura dos mamilos, uma barriguinha saliente sedutora – sinalizando que você pode pegar mais leve nos exercícios. Começa a tocar um violão, arranhando uma MPB e sua banda britânica favorita. Seus olhos brilham. Você se senta perto dele, ele te oferece um baseado, você recusa educadamente – recuso, mãe –, e aí ele começa a falar da criminalidade do país, que bandido bom é bandido morto, que mulher é tudo puta, que odeia bolsa vagabundo. Você não pode acreditar o quanto as aparências enganam. Nem os barbudos e maconheiros se salvam!

Tirinha: Andre Dahmer (www.malvados.com.br)

Pessoal, vamos continuar nossa amizade? Parentes, o Natal continua de pé. Prometemos que quando a situação estiver melhor para o nosso lado faremos um especial da esquerda. Também temos nossos ícones. Aguardemos.

Mariana Nóbrega é doutoranda em ciências criminais e mestra em ciências jurídicas. Pesquisa sobre direitos humanos, teorias feministas e criminologia. Também é servidora pública e mais uma advogada de araque neste país de direitoloides.

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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9 Comentários
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  1. Ciaro

    2 de agosto de 2016 5:37 pm

    8 tips da direito Brasileira

    Adorei a interpretacao do novo conservadorismo brasileiro.

  2. Victor Suarez

    2 de agosto de 2016 6:13 pm

    Sempre foi assim, enrustidos,

    Sempre foi assim, enrustidos, escondidos, envergonhados… tudo isso ai já fazia parte da nossa paisagem desde o início da República.  Hoje, eles sairam do armário, sem medo, pois estão protegidos pela Justiça e por Frota, o pornô malhado.

    O fato é que voltamos para a estaca zero.  Agora é cada um por si, uma vez que nossa esquerda está em crise existencial, os sindicatos capitularam e apesar de ser maioria sofremos com o monopólio da mídia.

    Realmente triste criar os filhos numa sociedade sórdida e desorganizada até a alma.

  3. agincourt

    2 de agosto de 2016 7:37 pm

    Completando a lista…

    Lista dos 9 não é semioticamente chamativa.

    Lista dos 10 é coisa bem mais pregnante.

    Destarte, e indo além de tipos ideais, completemos o rol com uma genuína categoria: o lulo-petista.

    É o malandro que almoça e janta com a direita, dá uma montoeira de cargos pra direita, porfia por realizar os desejos da direita, dorme e trepa com a direita e, quando a merda começa a feder, com a mais cândida das inocências, inda cai na hipocrisia de escrever cartinha com autocrítica.

    Saca esses trechinhos aí embaixo da Cartinha de Salvador.

    “56. O principal destes equívocos foi não ter estabelecido como tarefas prioritárias, desde o princípio, a reforma do sistema político e a democratização dos meios de comunicação. A falta de maioria parlamentar progressista e a intenção de reduzir ao máximo conflitos em um cenário no qual os trabalhadores não eram força hegemônica deixaram em suspenso uma campanha nacional por esses temas e a subestimar sua influência sobre todo o processo político.

    “57. A verdade é que, em contraposição aos processos vividos por outras nações latino-americanas sob governos progressistas, o Partido dos Trabalhadores e as administrações sob sua liderança deixaram, na prática, de alterar instituições e instrumentos de poder das velhas oligarquias, que, mesmo fora do governo central, hoje nos combatem ferozmente.

    “58. O Partido e o governo acabaram, assim, adaptados a um regime marcado pelo predomínio do poder econômico, pela limitação da participação popular e pelo monopólio da informação – abdicando de denunciá-lo com o peso devido e de lutar por sua superação desde a primeira hora.

    “59. Deixado intacto, esse sistema político-eleitoral contaminou práticas partidárias, deformou relações internas e trouxe de contrabando métodos e hábitos da política tradicional: a supremacia dos mandatos sobre as instâncias partidárias, o esvaziamento da vida interna fora de períodos eleitorais, o relativo distanciamento dos movimentos sociais, sinais de burocratização, a centralização como método de direção.

    “61. Uma das principais consequências desta dinâmica foi negligenciar a necessidade de investir na elevação da consciência e da cultura de classe das multidões beneficiadas pela ascensão social, objetivo que deveria ter mobilizado amplamente os aparatos de comunicação e educação do Estado, além do próprio Partido.

    “62. Mesmo internamente, os efeitos foram danosos, definidos pela pouca relevância oferecida à formação político-ideológica da militância e à construção de um sistema de comunicação que pudesse afrontar a influência das corporações midiáticas.”

    Não foi sem razão que Maluf, durante a campanha de Haddad, foi tão carinhoso com o PT.

    Saca só o que ele disse: ‘“Dos partidos com os quais eu já me coliguei, quem me trata melhor é justamente o pessoal do PT”, repisa Maluf. “Antes, poderia haver alguma divergência ideológica. Hoje, não tem mais.”’

    [http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2014/06/12/maluf-pt-me-trata-com-respeito-gosta-de-mim/]

  4. Marcelo33

    2 de agosto de 2016 8:31 pm

    9. O

    9. O parece-esquerda-mas-não-é: Eduardo Jorge 

  5. Mariana Nóbrega

    2 de agosto de 2016 8:39 pm

    Que honra ter meu texto
    Que honra ter meu texto publicado no GGN, fico muito feliz de terem gostado. Obrigada pela divulgação do meu trabalho. Abraços

  6. Andre B

    2 de agosto de 2016 9:05 pm

    Acho que o grupo dos

    Acho que o grupo dos ex-petistas inclui muitos que ainda estão no PT ou são simpaticos ao partido. Aqui mesmo uma porção de gente defendeu o ‘pragmatismo’ do PT contra os ‘idealistas’ de esquerda.

  7. Ze Guimarães

    2 de agosto de 2016 10:33 pm

    Faltou o principal

    Aquele direitista que age como petista, sobe no palanque petista, é filiado ao PT, ganhou a eleição pelo PT, mas faz nomeaçoes republicanistas. Nomea Ministro do Supremo de direita, Ministro da Justiça de direita, Afaga a mídia direitista , indo fritar omeletes no programa de TV, etc. Vence com promessas e programa de esquerda, e governa com programa de direita, aumentando juros e vetando a auditoria da Dívida Pública.

    Este é sem dúvida o direitista mais perigoso de todos, porque a gente pensa que é de esquerda, mas não é.

  8. Moisés Cesar

    3 de agosto de 2016 3:20 pm

    Ótimo, mas incompleto!

    Parabéns pelo texto, Mariana Nóbrega!

    Excelente o detalhamento das categorias, mas pra ser nota 10 só faltou uma categoria que infelizmente existe em número considerável! Uma figura bizarra formada pela rede bobo, ops, globo, e habita diversos espaços socias: o pobre de direita! Aquele sujeito completamente lascado, que vive na pindaíba pra garantir o lucro das classes altas, pagando caro pra sustentar os bom vivants brasileiros, mas teima em ser contra quaisquer modalidades de cotas e/ou políticas afirmativas, é totalmente advogado do “bandido bom – bandido morto”, defende com unhas e dentes que os mais ricos não devem pagar mais impostos (taxar grandes fortunas vai penalizar os coitadinhos que “trabalham” pelo desenvolvimento do país, a assim eles terão que sair do nosso Basil! snif snif), e acredita piamente que QUALQUER UM pode virar um milionário com o seu trabalho e esforço (a justa e perfeita meritocracia).

    Abraços,

    Moisés Cesar

  9. Wesley Rodrigues

    15 de março de 2017 6:38 pm

    Interessante

    Interessante artigo, porém falho. Digo isto porque como toda a esquerda, a direita foi colocada como dementes que não entendem nada e só vivem do ódio. Para iniciar um debate e digo isto pois sei que haverá comentários, gostaria de falar de o porquê do movimento direitista no Brasil estra ganhando tanto espaço. Podemos começar pela fato da roubalheira que NÂO, não foi cometida somente pelo PT, e nisto temos que ser realistas, porém foram os únicos que transformaram o mesmo em forma de governo, outro fato. Outra fato importante, é que sendo realistas e estudando bem sobre o assunto vemos que no Brasil não existe realmente um partido de direita, e sim alguns raros políticos de direita, como o citado acima sem o mínimo de respeito por quem foi e pela grande figura no campo medico Dr. Enéas Carneiro, que em minha opinião foi o melhor presidente que nunca tivemos. O grande problema do Brasil são os brasileiros que acreditam que socializando faremos um país melhor, então eu pergunto a todos da esquerda; como faremos isso? E aí vem o grande X da questão sempre respostas repetitivas e sem sentindo, e na verdade não é algo tão difícil assim, olhemos pelo ponto correto sem viés de esquerda ou direita, mais sim pelo ponto certo que ao me ver todos se recusam a olhar. Sou Dr. em Engenharia da Computação e como uma pessoa que trabalha já a quase 2 décadas na área tecnológica vejo o maior problema do nosso país, SOMOS O PAÍS MAIS RICO DO MUNDO, pra quem teve a oportunidade de ir a algum país do exterior com toda certeza notou a grande quantidade de “coisas” brasileiras que compramos nesses países e de uma qualidade quase duvidável na realidade e por um valor que se convertido em real, acaba custando muito menos que o um produto de qualidade inferior aqui, o nosso grande problema é que nunca deixamos de ser uma colônia, a “genialidade” brasileira e surreal, exportamos quase 90% da matéria-prima utilizada no mundo por uma preço ínfimo, e importamos os produtos fabricados com a nossa matéria-prima pelo triplo do valor. Aí está o X da questão, e é agora que entra um viés político, e o porquê da direita estar ganhando neste momento, por socialismo é = colônia eterna, nada de investimento em novas tecnologias, nada de investimento em grandes projetos, por isso para nós é tão doloroso uma crise por não criamos nada, não temos empresas brasileiras gigantes a nível mundial que gera dentro do próprio país uma quantidade massiva de empregos e renda, somos reféns do mundo, e digo por 99% de todo maquinário com o qual trabalho e importado, mais fabricado com matéria-prima brasileira, o que pelo menos eu me cansei foi disto, de saber que poderíamos morar na maior potência do mundo, mas na realidade moramos na maior colônia do mundo. Nem vou citar os restantes do nossos problemas internos, como segurança, transporte público e mais uma lista quase infindável de coisas.

     

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