“Da mesma forma, por razões que me escapam, sempre vi no ato sexual certa similitude com a morte, uma relação secreta, mas constante. Cheguei a traduzir esse sentimento inexplicável em imagens, em Um cão andaluz [Un Chien andalou, 1929], quando o homem acaricia os seios nus da mulher e, de repente, seu rosto se transforma no de um cadáver. Será que fiz isso porque, na infância e na adolescência, fui vítima da mais feroz opressão sexual que a história já conheceu?
[…]
Grande parte da atividade surrealista desenvolveu-se no Café Cyrano, na Place Blanche. Eu também gostava do Sélect, no Champs-Elysées, e fui convidado para a inauguração do La Coupole, em Montparnasse. Foi lá que encontrei Man Ray e Aragon para organizarmos a primeira sessão de Um cão andaluz. Não poderia citar todos. Digo apenas que o café supõe a conversa, o vaivém, a amizade, vez ou outra, mulheres.
O bar, ao contrário, é um exercício de solidão.
[…]
Esse amor descomedido pelo sonho, pelo prazer de sonhar, totalmente despojado de qualquer tentativa de explicação, foi uma das inclinações profundas que me aproximaram do surrealismo. Um cão andaluz nasceu do encontro de um de meus sonhos com um sonho de Dalí.
[…]
Um cão andaluz (1929)
Esse filme nasceu do encontro de dois sonhos. Dalí me convidou para passar uns dias em sua casa em Figueras, e, ao chegar, contei-lhe que tinha sonhado recentemente com uma nuvem esquia cortando a lua e uma lâmina de gilete rasgando um olho. Por sua vez, ele me contou que acabara de ver em sonho, na noite da véspera, uma mão cheia de formigas. Acrescentou: “E se fizéssemos um filme partindo disso?”
[…]
O roteiro foi escrito em menos de uma semana, segundo uma regra muito simples adotada de comum acordo: não aceitar nenhuma ideia, nenhuma imagem que pudesse dar ensejo a uma explicação racional, psicológica ou cultural. Abrir todas as portas ao irracional. Não acolher senão as imagens que nos impressionassem, sem procurar saber por quê.
Em nenhum momento houve qualquer desavença entre nós. Foi uma semana de identificação completa. Um dizia, por exemplo: “O homem puxa um contrabaixo”. “Não”, dizia o outro. E o que dera a ideia aceitava imediatamente essa discordância, julgando-a procedente. Em compensação, quando a imagem sugerida por um era aceita pelo outro, na mesma hora ela nos parecia luminosa, indiscutível e entrava imediatamente no roteiro.
Quando este foi concluído, me dei conta de que se tratava de um filme totalmente insólito, provocador, que nenhum sistema normal de produção podia aceitar. Eis por que pedi uma soma de dinheiro a minha mãe para produzi-lo eu mesmo. Convencida graças à intervenção do tabelião, ela me deu o dinheiro.
Retornei a Paris. Depois de gastar metade do dinheiro de minha mãe em boates, pensei que já era hora de ser um pouco sério e fazer alguma coisa. Fiz contato com os atores, Pierre Batcheff e Simone Mareuil, com o operador Duverger e com os estúdios de Billancourt, onde o filme foi rodado em quinze dias.
]…]
Da mesma forma, Dalí e eu, trabalhando no roteiro de Um cão andaluz, praticávamos uma espécie de escrita automática, erámos surrealistas sem o rótulo.
[…]
Essa primeira apresentação pública de Um cão andaluz foi promovida, com convites pagos, no Ursulines e reuniu o que se chamava então de a fina flor de Paris, isto é, alguns aristocratas, alguns escritores ou pintores já célebres (Picasso, Le Corbusier, Cocteau, Christian Bérard, o músico Georges Auric) e, naturalmente, o grupo surrealista em peso.
[…]
Após a “estreia triunfal” de Um cão andaluz, o filme foi comprado por Mauclair, do Studio 28. A princípio, ele me deu mil francos; depois, como o filme fez um verdadeiro sucesso (ficou oito meses em cartaz), mais mil francos, e depois outros mil. Ao todo, 7 mil ou 8 mil francos, acho. Houve quarenta ou cinquenta denúncias de pessoas que se apresentaram no comissariado de polícia afirmando: “Vocês têm que proibir esse filme obsceno e cruel”. Começou então uma longa série de insultos e ameaças, que me perseguiram até a velhice.
[…]
A menos que escolhêssemos o terrorismo, o que foi de fato a opção de alguns. Nesse caso, tampouco podíamos escapar das frases de nossa mocidade, ao que dizia Breton, por exemplo: “O gesto surrealista mais simples consiste em sair na rua empunhando um revólver e atirar ao acaso na multidão”. Quanto a mim, não me esqueço de ter escrito que Um cão andaluz não era outra coisa senão uma conclamação ao assassinato.
[…]
Lorca
Pouco antes de Um cão andaluz, uma desavença superficial nos separou por um tempo. Mais tarde, andaluz suscetível, achou, ou fingiu achar, que o filme era contra ele. Disse:
– Buñuel fez um filminho assim – gesto dos dedos – chama-se Um cão andaluz, e o cão sou eu.
[…]
Adorei Wagner e fiz uso de sua música em vários filmes meus, do primeiro (Um cão andaluz) ao último (Esse obscuro objeto do desejo). Eu o conhecia muito bem.
[…]
Jung assistira a Um cão andaluz e detectara nele uma boa demonstração de “dementia praecox”. Sugeri, então, a Alexander encaminhar uma cópia do filme. Ele se declarou encantado.
[…]
Dias depois de minha conversa com Éluard, Breton me perguntou:
– Buñuel, você poderia vir a minha casa esta noite, para uma pequena reunião?
Aceitei, não desconfiando de nada, e deparei com o grupo em formação completa. Tratava-se de um julgamento em regra. Aragon exercia com autoridade o papel do promotor e me acusava em termos violentos de ter cedido meu roteiro a uma revista burguesa. Além disso, o sucesso comercial de Um cão andaluz começava a parecer suspeito. Como um filme provocador podia lotar os cinemas? Que explicação eu podia dar?
Sozinho perante todo o grupo, eu tentava me defender, mas era difícil. Ouvi inclusive Breton me perguntar:
– Você está com a polícia ou com a gente?
Eu me achava diante de um dilema realmente dramático, ainda que os excessos da acusação possam me fazer rir nos dias de hoje.”
Meu último suspiro, Luis Buñuel. Trad. André Telles. Cosac Naify, 2009.
Jair Fonseca
23 de fevereiro de 2016 2:05 pmO segredo de Dom Luis
[video:https://www.youtube.com/watch?v=YDKGmW-5nbw%5D
jc.pompeu
23 de fevereiro de 2016 2:50 pm“Da mesma forma, por razões
“Da mesma forma, por razões que me escapam, sempre vi no ato sexual certa similitude com a morte, uma relação secreta, mas constante. Cheguei a traduzir esse sentimento inexplicável em imagens, em Um cão andaluz [Un Chien andalou, 1929], quando o homem acaricia os seios nus da mulher e, de repente, seu rosto se transforma no de um cadáver. Será que fiz isso porque, na infância e na adolescência, fui vítima da mais feroz opressão sexual que a história já conheceu?
[…]
Grande parte da atividade surrealista desenvolveu-se no Café Cyrano, na Place Blanche. Eu também gostava do Sélect, no Champs-Elysées, e fui convidado para a inauguração do La Coupole, em Montparnasse. Foi lá que encontrei Man Ray e Aragon para organizarmos a primeira sessão de Um cão andaluz. Não poderia citar todos. Digo apenas que o café supõe a conversa, o vaivém, a amizade, vez ou outra, mulheres.
O bar, ao contrário, é um exercício de solidão.
[…]
Esse amor descomedido pelo sonho, pelo prazer de sonhar, totalmente despojado de qualquer tentativa de explicação, foi uma das inclinações profundas que me aproximaram do surrealismo. Um cão andaluz nasceu do encontro de um de meus sonhos com um sonho de Dalí.
[…]
Um cão andaluz (1929)
Esse filme nasceu do encontro de dois sonhos. Dalí me convidou para passar uns dias em sua casa em Figueras, e, ao chegar, contei-lhe que tinha sonhado recentemente com uma nuvem esquia cortando a lua e uma lâmina de gilete rasgando um olho. Por sua vez, ele me contou que acabara de ver em sonho, na noite da véspera, uma mão cheia de formigas. Acrescentou: “E se fizéssemos um filme partindo disso?”
[…]
O roteiro foi escrito em menos de uma semana, segundo uma regra muito simples adotada de comum acordo: não aceitar nenhuma ideia, nenhuma imagem que pudesse dar ensejo a uma explicação racional, psicológica ou cultural. Abrir todas as portas ao irracional. Não acolher senão as imagens que nos impressionassem, sem procurar saber por quê.
Em nenhum momento houve qualquer desavença entre nós. Foi uma semana de identificação completa. Um dizia, por exemplo: “O homem puxa um contrabaixo”. “Não”, dizia o outro. E o que dera a ideia aceitava imediatamente essa discordância, julgando-a procedente. Em compensação, quando a imagem sugerida por um era aceita pelo outro, na mesma hora ela nos parecia luminosa, indiscutível e entrava imediatamente no roteiro.
Quando este foi concluído, me dei conta de que se tratava de um filme totalmente insólito, provocador, que nenhum sistema normal de produção podia aceitar. Eis por que pedi uma soma de dinheiro a minha mãe para produzi-lo eu mesmo. Convencida graças à intervenção do tabelião, ela me deu o dinheiro.
Retornei a Paris. Depois de gastar metade do dinheiro de minha mãe em boates, pensei que já era hora de ser um pouco sério e fazer alguma coisa. Fiz contato com os atores, Pierre Batcheff e Simone Mareuil, com o operador Duverger e com os estúdios de Billancourt, onde o filme foi rodado em quinze dias.
]…]
Da mesma forma, Dalí e eu, trabalhando no roteiro de Um cão andaluz, praticávamos uma espécie de escrita automática, erámos surrealistas sem o rótulo.
[…]
Essa primeira apresentação pública de Um cão andaluz foi promovida, com convites pagos, no Ursulines e reuniu o que se chamava então de a fina flor de Paris, isto é, alguns aristocratas, alguns escritores ou pintores já célebres (Picasso, Le Corbusier, Cocteau, Christian Bérard, o músico Georges Auric) e, naturalmente, o grupo surrealista em peso.
[…]
Após a “estreia triunfal” de Um cão andaluz, o filme foi comprado por Mauclair, do Studio 28. A princípio, ele me deu mil francos; depois, como o filme fez um verdadeiro sucesso (ficou oito meses em cartaz), mais mil francos, e depois outros mil. Ao todo, 7 mil ou 8 mil francos, acho. Houve quarenta ou cinquenta denúncias de pessoas que se apresentaram no comissariado de polícia afirmando: “Vocês têm que proibir esse filme obsceno e cruel”. Começou então uma longa série de insultos e ameaças, que me perseguiram até a velhice.
[…]
A menos que escolhêssemos o terrorismo, o que foi de fato a opção de alguns. Nesse caso, tampouco podíamos escapar das frases de nossa mocidade, ao que dizia Breton, por exemplo: “O gesto surrealista mais simples consiste em sair na rua empunhando um revólver e atirar ao acaso na multidão”. Quanto a mim, não me esqueço de ter escrito que Um cão andaluz não era outra coisa senão uma conclamação ao assassinato.
[…]
Lorca
Pouco antes de Um cão andaluz, uma desavença superficial nos separou por um tempo. Mais tarde, andaluz suscetível, achou, ou fingiu achar, que o filme era contra ele. Disse:
– Buñuel fez um filminho assim – gesto dos dedos – chama-se Um cão andaluz, e o cão sou eu.
[…]
Adorei Wagner e fiz uso de sua música em vários filmes meus, do primeiro (Um cão andaluz) ao último (Esse obscuro objeto do desejo). Eu o conhecia muito bem.
[…]
Jung assistira a Um cão andaluz e detectara nele uma boa demonstração de “dementia praecox”. Sugeri, então, a Alexander encaminhar uma cópia do filme. Ele se declarou encantado.
[…]
Dias depois de minha conversa com Éluard, Breton me perguntou:
– Buñuel, você poderia vir a minha casa esta noite, para uma pequena reunião?
Aceitei, não desconfiando de nada, e deparei com o grupo em formação completa. Tratava-se de um julgamento em regra. Aragon exercia com autoridade o papel do promotor e me acusava em termos violentos de ter cedido meu roteiro a uma revista burguesa. Além disso, o sucesso comercial de Um cão andaluz começava a parecer suspeito. Como um filme provocador podia lotar os cinemas? Que explicação eu podia dar?
Sozinho perante todo o grupo, eu tentava me defender, mas era difícil. Ouvi inclusive Breton me perguntar:
– Você está com a polícia ou com a gente?
Eu me achava diante de um dilema realmente dramático, ainda que os excessos da acusação possam me fazer rir nos dias de hoje.”
Meu último suspiro, Luis Buñuel. Trad. André Telles. Cosac Naify, 2009.
altamiro souza
23 de fevereiro de 2016 3:05 pmnavalha na carne, navalha no
navalha na carne, navalha no olho, cena magistral que marca o
surrealismo e projeta dali e buñuel como criadores exponenciais…
o cinema e as artes plásticas criavam aí seus mitos do século vinte…
altamiro souza
23 de fevereiro de 2016 3:09 pmesqueci de perguntar – o que
esqueci de perguntar – o que seria o equivalente simbólico desta
terrível cena da navalha no ojho hoje em dia?
a globo, o mpf, o afiado conluio?
ou o surreal aí implícito ou o surrealismo da pergunta?