5 de junho de 2026

“O protetor” ou como Micromegas se protegeria do americanismo cinematográfico

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Ontem fui assistir “O Protetor”, novo filme de Denzel Washington e Chloë Grace. O enredo é muito simples. Uma jovem prostituta de origem russa (Chloë Grace) é espancada por seu cafetão russo nos EUA. Indignado, o ex-agente da CIA que ficou amigo da moça resolve comprar a liberdade dela. Como isto não é possível, ele mata vários membros da máfia russa. Em razão disto, o chefe da organização, um oligarca russo, envia para os EUA um assassino que pertenceu às Forças Especiais da Rússia e à FSB. Após várias peripécias, o norte-americano mata o assassino russo e vai até a Rússia eletrocutar o chefe da organização mafiosa.

Ao chegar em casa, coloquei a comida no forno e peguei um livro na estante. Enquanto meu jantar assava reli algumas páginas de Micromegas, livro escrito por Voltaire em 1752. Comi e fui dormir. Hoje ao acordar pela manhã comecei a meditar sobre o filme “O protetor” e resolvi fazer uma lista de todos os filmes made in USA que vi nos últimos anos em que policiais, bandidos, agentes e soldados norte-americanos combatem mafiosos russos. A lista é grande, por isto vou me ater apenas aos que fizeram mais sucesso no Brasil.

Em “Os Donos da Noite” (2007) o irmão de um policial norte-americano trabalha para um mafioso russo que tem uma boate chamada “El Caribe”. Em “Dia de Treinamento” (2001) o protagonista do filme, um policial desonesto e violento interpretado pelo próprio Denzel Washington, faz qualquer coisa para arrumar dinheiro a fim de pagar a máfia russa e acaba sendo metralhado pela mesma. Em “Duro de Matar – Um bom dia para morrer” (2013) o policial John McClane vai visitar o filho na Rússia e acaba sendo obrigado a combater terroristas e mafiosos russos que pretendem levar seu candidato à presidência daquele país. Em “Jack Reacher – O último tiro” (2012) o protagonista combate a máfia russa para provar a inocência do ex-soldado que foi injustamente envolvido num assassinato cometido por razões políticas e econômicas. No filme “Jack Ryan – Operação Sobra” o herói descobre e derrota um complô orquestrado na Rússia para produzir o caos financeiro nos Estados Unidos.

Nos filmes citados (“O Protetor” incluído) a idéia básica é sempre a mesma: os russos são mafiosos violentos, a Rússia é a fonte do mal que obriga os norte-americanos a agir dentro e fora dos EUA. Todos estes filmes foram escritos, produzidos e exibidos nos últimos anos, exatamente no período em que uma Nova Guerra Fria foi sendo imposta à Rússia através das ações diplomáticas, sigilosas e militares dos EUA na Geórgia, Ucrania e Síria (para citar apenas alguns países em que os interesses econômicos russos foram sabotados ou abertamente combatidos pelos norte-americanos).

Durante os anos 1930, pouco antes de declarar guerra a Itália de Mussolini, os norte-americanos começaram a produzir e distribuir ao redor do planeta filmes em que os vilões eram os mafiosos italianos que agiam nos EUA. Nos anos 1980, durante as guerras sujas promovidas por Ronald Reagan na América Latina, os traficantes latinos se tornaram os vilões mais combatidos nos american movies. Nos dias de hoje, os vilões italianos e latinos foram substituídos pelos vilões russos.

O padrão é evidente e a finalidade ideológica também. Assim como foram levados a odiar italianos e latinos no passado, os cinéfilos dentro e fora dos EUA estão sendo ensinados a odiar os russos. Assim como associaram a Itália e a América Latina ao crime organizado, os expectadores são levados a acreditar que a Rússia é pouco menos que uma república de criminosos. Curiosamente, ao contrário dos soldados norte-americanos, nos últimos anos nenhum italiano, latino-americano ou russo cometeu crimes de guerra horrendos e desprezíveis no Iraque, Afeganistão e Paquistão.

Se Micromegas (o famoso personagem de Voltaire) resolvesse voltar à Terra e, antes de chegar, coletasse e analisasse as telecomunicações do nosso planeta considerando os filmes transmitidos como elementos que ajudam a compreender as culturas humanas recentes, ele certamente concluiria que o único país onde todas as máfias vicejam é os EUA. Qual a razão disto? Os norte-americanos são mais tolerantes com os criminosos do que os outros povos? Micromegas também perceberia uma lacuna. Não existem filmes produzidos na Itália, na América Latina e na Rússia sobre mafiosos anglo-americanos que agem dentro e fora dos EUA. Isto o faria concluir que nenhum outro povo é tão obsedado pelo ódio aos estrangeiros quanto os norte-americanos. De posse destas informações valiosas que país Micromegas não visitaria?

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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22 Comentários
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  1. Walter o primeiro

    28 de setembro de 2014 2:44 pm

    E os árabes ??

     

    Voce se esqueceu dos ÁRABES

    Estes sim as maiores vitimas

    1. Andre SP

      28 de setembro de 2014 3:05 pm

      Não esqueceu!

      Walter está tudo subentendido na matéria. Não há necessidade de elencar as nações. Não existe país que hollyood não atacou.

      Eles já dominaram até o Universo! É mole ou quer mais!

      1. Artaud

        28 de setembro de 2014 4:48 pm

        Assaltaram a gramática & assassinaram a lógica

        Não só dominaram o universo como já “salvaram” o planeta umas cem vezes.

        “Salvaram” de asteróides gigantes, de alienígenas, de invasão de zumbis, de pestes e epidemias planetárias, de monstros pré históricos, de vírus mortais, de mega vilões russos, chineses, árabes e até vilões de outros planetas e galáxias.

        Segundo Róliude a Terra, não fosse pela bravura indômita das forças americanas, seria hoje uma pedra rolando no espaço ou uma colônia comandada por minhocas gigantes tecnologicamente hiper desenvolvidas. Só não salvaram o senso do ridículo. Mas quem liga pra esse?

        1. Walter o primeiro

          28 de setembro de 2014 5:11 pm

          Foco

          Senhores

          Até concordo com suas opiniões,

          mas o texto esta focado na escolha dos inimigos e não no heroismo americano

           

          1. Artaud

            28 de setembro de 2014 6:38 pm

            Em propaganda o subliminar funciona melhor.

            Os inimigos, nesses filmes, são exemplares dos inimigos da américa, aqui e no universo. E são coadjuvantes.

            O protagonista, sempre e obrigatóriamente, é o personagem heroísmo americano.

            Pode ser personificado no Bruce Willis ou Silvester Stalone, ou Schazenagger ou algum herói da Marvel. E, por vezes, num cidadão comum americano (“Transformers” é exemplo exemplar).  

            De qualquer forma, oculto, subliminar ou não, o “heroísmo” é o protagonista desses filmes. 

  2. Assis Ribeiro

    28 de setembro de 2014 2:55 pm

    A economia mundial vai muito

    A economia mundial vai muito mal.

    Estão fazendo a receita de sempre, guerras.

    Quentes e frias

  3. Manoel Ribeiro dos Santos

    28 de setembro de 2014 3:14 pm

    Mafiosos russos

    Está com doda razão a colocaço do Fábio. Sou cinéfilo inveterado, está correto  o que  ele escreveu. Os americanosestão catucando com vara curta os russos e chineses, a sabedoria  de ambos são secularmente superiores a dos americanos. Na hora certa eles darão o bote e daí , Babau tia chica.

  4. Elio

    28 de setembro de 2014 3:49 pm

    Claro que você só se esqueceu

    Claro que você só se esqueceu da Russia de hoje,com o amabilíssimo Putin no poder e do pequeno agrado russo feito ao povo da Croácia.

    Claro que você também se esqueceu do amigável Stalin e sua Cortina de Ferro.

    É claro também,que a Russia sempre foi um esteio para a Paz e a Confraternização entre Povos.

    Uma verdadeira injustiça contra a Russia,que dó. 

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      28 de setembro de 2014 5:07 pm

      Estamos falando de filmes

      Estamos falando de filmes “made in USA” recentes. Mostre-me filmes russos recentes retratando norte-americanos como mafiosos e começaremos a conversar. 

  5. Cafezá

    28 de setembro de 2014 5:10 pm

    Bons motivos para deixarmos

    Bons motivos para deixarmos de assistir aos filmes hollywoodianos. Dizem que o cinema é a sétima arte. A maior parte desses filmes não passam de planfletos ideológicos que mostram a invasão cultural dos EUA no mundo, visando objetivos políticos bem definidos. 

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      28 de setembro de 2014 5:18 pm

      Enquanto alguém ver filmes

      Enquanto alguém ver filmes made in USA no Brasil creio que será preciso vê-los com um olhar micromeganiano para poder expor publicamente a pestilência cultural que eles espalham por aqui. 

  6. Free Walker

    28 de setembro de 2014 6:10 pm

    Muita chinelagem, muito

    Muita chinelagem, muito antiamericanismo rastaquera, ninguém faz mais filmes contra si mesmos do que os próprios americamos. 

    Só não vê as mentes paranóicas dessa esquerda chinfrim….

    1. sergio m pinto

      28 de setembro de 2014 6:41 pm

      Sabe de nada, inocente! Da

      Sabe de nada, inocente! Da próxima vez, apareça com argumentos. Vai ser difícil, eu sei.

    2. Fábio de Oliveira Ribeiro

      28 de setembro de 2014 7:33 pm

      Fale-me mais sobre a direita
      Fale-me mais sobre a direita chinfrim dos EUA que precisa criar inimigos no cinema para justificar suas pretensões belicosas na vida real? Fale-me mais sobre a estética dos filmes de propaganda nazista dos anos 1930 que os norte-americanos tem aperfeiçoado com a ajuda de comentaristas rastaqueras como você?

  7. Curioso

    28 de setembro de 2014 7:29 pm

    Quem sabe ler nas entrelinhas é quem tem cultura política

    Quem sabe ler nas entrelinhas (o enredo nos filmes e as ideias subjacentes de um telejornal, telenovela ou jornal) e tem uma sólida formação integral como o Fábio de Oliveira que, como eu, abandonou o CMI pelos insistentes trolles da direita mais vulgar, não pode deixar de concordar com o conteúdo deste texto seu.

    No entanto, tnão posso deixar de constatar que um membro médio do que se costuma chamr de  “classe média”, ou seja,  seus setores mais incultos e preconceituosos (que é a maioria), geralmente  vai ao cinema não pelo tema nem pelo diretor ou atores, mas sim pelo tamanho da fila. Quase nunca pergunta sobre estes aspectos mas sim “qual é a fila maior”?.

    É por essa razão é que alguém que sabe o que diz,  porque sabe analisar o enredo de um filme, uma telenovela ou um noticiário com um olhar crítico, percebe que ao ir ao cinema ou a uma livraria e procura observar o comportamente do leitor ou do cinéfilo médio, compreende como o sistema de dominação ideológica parece iinsuperável. E é a isso que Hollywood se presta: “convencer” o público médio norte-americano de que suas guerras de agressão contra os “outros” povos é o que deve ser feito pela “excepcionalidade” da nação norte-americana.

    O que falta à esquerda de verdade é encontrar caminhos de conrra hegemonia ideológica e a Internet poderia ser melhor explorada por quem quer uma sociedade livre do embrutencimento midiáticos imperialista.

    Uma boa sugestão de leitura para os que querem compreender o papel de Hollywood é a obra QUEM PAGOU A CONTA? – A CIA na guerra fria da cultura, de Frances Stonor Saunders.

     

     

     

     

     

     

     

     

  8. Francy Lisboa

    28 de setembro de 2014 8:32 pm

    Fábio, sua analise está

    Fábio, sua analise está certissima. Eu só não acho que tenha algum problema em ver filmes de “Róliude”. De vezez e quando são bons entretenimentos, mas claro, nada amis do que isso. Lendo o seu texto fica claro o porque de muita gente, incluindo colegas aqui do Blog acharem que qualquer critica aos EUA seja motivado pelo antiamericanismo. Acho que essa defesa intransigente dos EUA por alguns é a força de “Róliude! se manifestando.

  9. rdmaestri

    28 de setembro de 2014 8:46 pm

    Vou baixar um pouco o nível!

    Já viram em documentários sobre a África algum leão de juba preta?

    Eu nunca vi, mas no filme Rei Leão do Walt Disney o Leão malvado tinha a juba PRETA, enquanto o bonzinho era loiro!

  10. rdmaestri

    28 de setembro de 2014 8:49 pm

    Disney de novo!

    Já notaram que ninguém tem filhos nos personagens antigos da Disney (Só o Pateta e o João Bafo de Onça).

    E já se deram conta da profissão do Mickey, informante da polícia!

  11. wesley

    28 de setembro de 2014 9:51 pm

    ideologia

    como marx disse a ideologia vigente é da classe dominante(país tambem)

    brasil país do futebol(será?)

    estados unidos o país mais livre do mundo(a ta é so perguntar pro snowden)

    hitler,mao,stalin,bin laden,sadan os maiores criminosos conhecidos(quantos jhonson,nixon,regan,bush pai,bush filho,obama matou?)

  12. Alberto Porem Jr.

    28 de setembro de 2014 9:55 pm

    Um texto interessante sobre os judeus e Hollywood.

    Uma indústria na qual a criatividade, o talento, a audácia, a magia, a capacidade de sonhar e de fazer sonhar continuam servindo até hoje como matéria-prima.

    As pequenas e primitivas salas de projeção que apresentavam filmes mudos foram transformadas em deslumbrantes casas de espetáculos por exibidores judeus. Com o advento do cinema falado, a indústria cinematográfica percebeu que seus produtos deveriam abranger conteúdos mais consistentes e importou da costa leste dos Estados Unidos, mais precisamente de Nova York, uma nata de dramaturgos e escritores, judeus em sua esmagadora maioria. Em Hollywood, as principais agências de artistas eram operadas por judeus; os contratos, tanto por parte dos estúdios como do lado dos artistas, eram redigidos por advogados judeus; os medalhões da medicina, na capital do cinema, também eram quase todos judeus. E, acima de tudo, eram os judeus que produziam os filmes, moldando-os de acordo com suas exclusivas preferências. Num livro excelente e definitivo chamado “An Empire of their Own How the Jews Invented Hollywood”, o crítico Neal Gabler cita um levantamento feito pela revista Fortune, em 1936, no qual é apontado que de 85 nomes que aparecem nos créditos da produção de um determinado filme, 53 são de judeus. O escritor F. Scott Fitzgerald, que teve uma breve e fracassada passagem por Hollywood, escreveu em suas anotações para o romance “The Last Tycoon” que Hollywood estava sendo uma festa para os judeus e uma tragédia para os não-judeus.

    Mas, o fato é que, no início da década de 30, a verdadeira tragédia existente se abatia sobre os judeus do cinema, alvos de manifestações hostis, algumas vezes ocultas, outras escancaradas, estimuladas por grupos religiosos e de fanáticos direi-tistas, tipo Klu-Klux-Khan que, no mais tradicional estilo anti-semita, exortavam os americanos a arrancar a indústria cinematográfica das dominantes mãos dos judeus. Eles eram acusados de conspirar contra os valores tradicionais americanos e contra as estruturas do poder que os asseguravam.

    Entretanto, esses anti-semi-tas não tinham a menor noção do caminho equivocado que estavam percorrendo. Os judeus que criaram Hollywood empenhavam-se de corpo e alma num só objetivo: a adoção dos valores americanos e a possibilidade de serem acolhidos na estrutura do poder. Eles queriam ser vistos como americanos e não como judeus. Alguns deles chegaram ao ponto de jamais falarem sobre suas origens européias e muito menos judaicas. Tinham uma devoção ilimitada pelos Estados Unidos e não mediam esforços para serem aceitos pela sociedade americana, numa época em que a xenofobia era disseminada e aceita em todos os segmentos sociais. 

    Os pais da pátria de Hollywood constituíam um grupo homogêneo em função de suas infâncias e trajetórias muito semelhantes. O mais velho de todos, Carl Laemmle, nascido em 1867, emigrou de uma pequena cidade da Alemanha para os Estados Unidos no início do século passado. Percorreu uma série de trabalhos menores até fundar o Estúdio Universal. 

    Adolph Zukor nasceu numa aldeia da Hungria, ainda menino ficou órfão de pai e mãe, tendo sido criado por um tio que era rabino. Assim como Laemmle, foi parar na América, conheceu o cinema primitivo exibido nos Nickleodeons, apaixonou-se pelo que viu, culminando por ser dono de seu próprio estúdio: a Paramount. William Fox também era húngaro de nascimento. Chegou aos Estados Unidos levado pelos pais e começou a trabalhar por conta própria, ainda de calças curtas, como ambulante de pipocas e sanduíches. Anos depois, de terno e gravata, inaugurava a Fox Film Corporation, gênese da 20th Century Fox. 

    Louis B. Mayer tanto queria ser genuinamente americano, que dizia ter esquecido o nome da cidade em que havia nascido na Rússia. Também afirmava desconhecer sua data de nascimento, adotando o feriado da independência americana, o dia 4 de julho, para celebrar seu aniversário. Dentre os demais judeus europeus do cinema foi o mais bem sucedido, construindo o império da Metro-Goldwyn-Mayer. 

    Um judeu chamado Benjamin Warner partiu de sua aldeia polonesa em 1883, deixando para trás a mulher, uma filha e um filho, Harry. Começou a trabalhar como sapateiro em Baltimore e em pouco mais de um ano já tinha conseguido juntar dinheiro para trazer para a América toda a família. Benjamin era um judeu devoto que quase só falava ídiche, só comia casher e morava perto da sinagoga para bem respeitar o Shabat. Foi nessa atmosfera que cresceram seus outros filhos, Sam, Albert e Jack. Os quatro irmãos um dia juntaram suas economias, compraram um projetor usado e instalaram um pequeno cinema. Conta a lenda que Jack perguntou à mãe se ela achava que estavam fazendo um bom negócio. Ouviu a seguinte resposta: “Se o cliente paga antes de ver a mercadoria, só pode ser um bom negócio”. Os quatro rapazes fundaram a Warner Brothers e foram os responsáveis pela introdução do som no universo cinematográfico.

    Os judeus que criaram Hollywood tinham outra qualidade comum: um extraordinário sentido para apurar as preferências das platéias. Talvez isso se deva ao fato de que todos eles tiveram passagens em Nova York pela imensa indústria de confecções de roupas, tanto no atacado como no varejo, o que lhes valeu como um excelente treinamento para conhecer e medir os gostos do público. E, na medida que continuavam enfrentando dificuldades para serem aceitos pelo mundo não-judeu, encontraram no cinema uma forma de construir o seu próprio mundo, um mundo que não exigia escolaridade nem experiências anteriores, que lhes abria as portas e, acima de tudo, lhes pertencia. Os filmes americanos, a partir da década de 30, tornaram a ficção mais poderosa do que a realidade e conquistaram massas crescentes de espectadores em todos os continentes, retratando aspectos de uma nação toda impressa em celulóide: virtuosa e próspera, dotada de seus próprios códigos e valores. Era uma América na qual os pais eram vistos na tela como figuras fortes e respeitadas, as famílias eram estáveis, os homens e mulheres eram bonitos, os heróis eram trabalhadores, joviais e honestos. Este foi o país que os judeus de Hollywood materializaram no cinema, criando mitos e arquétipos que até hoje permanecem, tais como vistos em dois filmes emblemáticos: “A Felicidade Não se Compra” (It’s a Wonderful Life) e “A Mulher Faz o Homem” (Mr. Smith Goes to Washington), ambos dirigidos por Frank Capra e estrelados por James Stewart. Neste sentido, o crítico Neal Gabler chega a afirmar que as imagens criadas pelos produtores judeus foram tão poderosas que “de uma certa maneira colonizaram a imaginação americana”. E acrescenta: “Era impossível falar sobre os Estados Unidos sem falar sobre os seus filmes”. Numa avaliação semelhante, o economista John Kenneth Galbraith escreveu que muito mais do que qualquer aspecto material, quem mais impôs no mundo o poder dos Estados Unidos, foi Fred Astaire.

    Os reis de Hollywood durante os anos dourados dos grandes estúdios, ou seja, desde a introdução do cinema sonoro até um pouco mais do fim da década de 60, relutavam em se engajar em atividades comunitárias judaicas, embora se tivessem unido para fundar o Hillcrest Country Club para ali jogar golfe, já que levavam bolas pretas quando pretendiam se associar ao Los Angeles Country Club, freqüentado por não-judeus. Nenhum deles teve a coragem, como Charles Chaplin (que não era judeu, mas sofria ataques anti-semitas), de expor a malignidade do nazismo e de ridicularizar a figura de Hitler, no filme “O Grande Ditador”, que ele começou a rodar antes ainda de a Alemanha invadir a Polônia, em 1939.

    No seio da intelectualidade judaica de Hollywood, uma das vozes que mais se levantou contra o nazismo foi a de Ben Hecht (1894-1964), um jornalista de Chicago que se tornou um dos melhores roteiristas do cinema, tendo assinado mais de cem filmes, alguns de grande sucesso como “Duelo ao Sol”, “O Retrato de Jennie”, “Adeus às Armas”, “O Homem do Braço de Ouro”, parte de “E o Vento Levou” e realizações de Alfred Hitchcock. Quando a guerra terminou e os judeus da antiga Palestina começaram a confrontar os mandatá-rios britânicos, Hecht foi procurado por um emissário do grupo Irgun Zvai Leumi, que pregava a luta armada e atos de terrorismo contra os militares ingleses. O emissário se chamava Peter Bergson, nome de guerra de Hillel Kook, que veio a falecer em Israel em 2000, aos 86 anos de idade. Bergson conseguiu convencer Ben Hecht a ajudá-lo a captar doações para a compra de armas entre os ricos produtores de cinema. Não era uma tarefa fácil, pois muitos judeus, tanto em Hollywood como no mundo inteiro, se opunham às ações da Irgun. Mas, Hecht tinha trânsito livre e foi recebido por todos os poderosos chefões. Harry Warner, apesar de sionista convicto, expulsou-o de sua sala, pelo horror que tinha à Irgun. Louis B. Mayer e Samuel Goldwyn disseram não. Ben Hecht conta em suas memórias, “A Child of the Century”, que David Selznick só faltou agredi-lo, enquanto vociferava: “Esta é uma causa judaica de natureza política e eu não estou interessado nos problemas judaicos. Eu sou americano, não sou judeu”. Hecht valeu-se de um estratagema. Disse a Selznick que ele poderia indicar três pessoas de sua confiança, que chamaria ao telefone e perguntaria se o consideravam judeu ou americano. Se a resposta fosse judeu, Selznick se comprometeria a organizar um jantar para arrecadar fundos. Os dois primeiros responderam: judeu. O roteirista Nunnally Johnson, também responsável por grandes êxitos no cinema, foi mais explícito: “Pelo amor de Deus, o que está acontecendo com o David? Ele é judeu é sabe muito bem disso!” David Selznick não só organizou o jantar, como ainda promoveu um almoço, com a mesma finalidade, no restaurante dos estúdios da Fox.

    O advento do cinema sonoro eqüivale a uma ironia na história de Hollywood. Por mais que os magnatas dos estúdios pretendessem passar ao largo de suas raízes judaicas, o primeiro filme falado, “O Cantor do Jazz” “The Jazz Singer”, estrelado por Al Jolson, continha uma temática judaica até a medula.

    Tudo começou com a iniciativa dos irmãos Warner para dotar o cinema de diálogos e música. Para isso, contrataram um sistema técnico chamado Vitaphone que, em 1926, sonorizou um filme da Warner, com a duração de dez minutos, intitulado “Don Juan”. Enquanto discutiam um projeto para o primeiro longa-metragem sonoro, foram atropelados pelo cantor e comediante Al Jolson, o maior nome do show business daquela época. Jolson insistiu para que fosse levada à tela uma adaptação da peça teatral “O Cantor do Jazz”, um sucesso em Nova York. A motivação de Jolson era no sentido de que a temática teatral tinha tudo a ver com a sua própria trajetória. A peça conta a história do filho de um cantor de sinagoga, Jakie Rabinowitz, que se torna Jack Robin e faz sucesso na Broadway, ignorando sua origem judaica, o que resulta em rompimento com seu pai. No Yom Kipur, enquanto o cantor está em seu leito de morte, Jack adia a estréia de um musical que iria protagonizar e vai à sinagoga, onde canta o “Kol Nidrei”, numa cena transbordante de emoção. Depois, Jack volta ao teatro de variedades, onde é assistido e aplaudido pela mãe, cantando “My Mammy”, uma marca registrada de Al Jolson ao longo de toda a sua carreira. O filme estreou no dia 6 de outubro de 1927, alcançou um triunfo espetacular e mudou para sempre a história do cinema, contendo o próprio dilema dos donos dos estúdios: eles até poderiam ir à sinagoga, mas sempre voltariam para o mundo não-judeu.

    Quando terminou a segunda guerra, talvez como conseqüência do conhecimento do Holocausto, um filme quebrou um arraigado tabu de Hollywood, ao abordar a questão do anti-semitismo nos Estados Unidos: “A Luz É Para Todos” “Gentleman’s Agreement”, produzido em 1947 para a Fox pelo metodista Darryl F. Zanuck, que anos antes já tinha realizado um filme, “A Casa dos Rothschild”, em favor dos judeus da Europa. Seu novo projeto foi dirigido por Elia Kazan, não-judeu, e estrelado por Gregory Peck, também não-judeu, e com James Garfield, o judeu Jules Gurfinkle, que só aceitou um papel secundário em função do tema do filme. O sucesso foi estrondoso, com duas indicações, Peck e Garfield, e três Oscars para melhor filme, melhor diretor e melhor atriz coadjuvante, Celeste Holm. 

    Rompido o dique, histórias focalizando as lutas pela criação do Estado de Israel começaram a aparecer nas telas, nas décadas de 50 e 60, juntamente com outros filmes de temática judaica tais como “O Diário de Anne Frank” (1959, Fox), “Marjorie Morningstar” (1958, Republic) e “Os Últimos Homens Maus” (1959, Columbia). No tocante a Israel, tiveram êxito “Adagas no Deserto” (1949, Universal), sobre a imigração ilegal para a antiga Palestina; “O Malabarista” (1953, Columbia), com Kirk Douglas, todo filmado em Israel, o drama de um sobrevivente do Holocausto nos primórdios do novo país; e “A Sombra de um Gigante” (1966, United Artists), também com Kirk Douglas, a história verdadeira do coronel do exército americano, David Marcus, que morreu lutando como voluntário na guerra da independência de Israel. Esses filmes de cunho sionista tiveram sua síntese no formidável êxito internacional de “Exodus” (1960, United Artists), baseado no best-seller de Leon Uris, com uma mensagem tão dramática quanto objetiva: depois dos horrores do Holocautso, os judeus precisavam de um lar nacional. A bela música incidental composta por Ernest Gold para o filme, ganhou versos e estourou nas paradas de sucesso: “Esta terra é minha, esta terra me foi dada por Deus…”

    Hoje em dia, a postura dos grandes produtores de Hollywood é radicalmente oposta àquela de seus antecessores de setenta anos atrás. As raízes judaicas se tornaram motivo de orgulho, bastando citar um nome: Steven Spielberg, realizador de “A Lista de Schindler” e criador da Fundação Shoah, um museu da imagem e do som dedicado a sobreviventes do Holocausto no mundo inteiro.

    Nomes verdadeiros de artistas judeus

    Woody Allen: Alan Stewart Koenigsberg
    June Allyson: Ella Geisman
    Lauren Bacall: Betty Joan Perske
    Irving Berlin: Israel Baline
    Karen Black: Karen Blanche Ziegler
    Fanny Brice: Fanny Borach
    Mel Brooks: Melvin Kaminsky
    George Burns: Nathan Birnbaum
    Eddie Cantor: Edward Israel Iskowitz
    Lee J. Cobb: Jacob Amos
    Tony Curtis: Bernard Schwartz
    Kirk Douglas: Issur Danielovich Demsky
    Melvyn Douglas: Melvyn Hesselberg
    Paulette Goddard: Marion Levy
    Elliot Gould: Elliot Goldstein
    Al Jolson: Asa Yoelson
    Danny Kaye: David Daniel Kaminsky
    Jerry Lewis: Joseph Levitch
    Peter Lorre: Laszlo Lowenstein
    Yves Montand: Ivo Levy
    Joan Rivers: Joan Molinsky
    Edward G. Robinson: Emmanuel Goldenberg
    Jane Seymour: Joyce Penelope Frankenburg
    Simone Signoret: Simone-Henriette Kaminker
    Bevery Sills: Belle Silverman
    John Garfield: Jules Gurfinkle
    Paul Muni: Muni Weisenfreund
    Gene Wilder: Gerald Silberman
    Theda Bara: Theodesia Goodman
    Sylvia Sidney: Sophia Kosow
    Judy Holliday: Judith Tuvim
    Shelley Winters: Shirley Schrift

  13. Ataíde Coutinho

    28 de setembro de 2014 10:06 pm

    na pratica a teoria é outra

    No campo da estratégia os EUA vem tomando sucessivos bailes dos russos ,em especial na siria e Ucrania ,o assunto do avião de civis derrubado sumiu da midia  ,com a ameaça dos russos de mostrar as imagens de satélite ,aqui mesmo no blog jjá saiu as façanhas russas como essa https://jornalggn.com.br/noticia/caca-russo-teria-paralisado-sistema-de-combate-de-destroier-americano

  14. Ze Guimarães

    28 de setembro de 2014 11:42 pm

    A origem do ódio

    O ódio vem do medo. Os Impérios dominantes de todos os tempos sempre tiveram pavor do dia em que seriam apeados do poder imperial. Este dia sempre chegou para cada império e sempre chegará, pois nada dura para sempre neste mundo efêmero, mesmo que possa durar muito. Se não for pelas mãos dos outros será pelas próprias mãos dos economistas desregulamentadores de mercado do Imperio.

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