Série Piauí Cultura Regional (XIII)
Chico Guilherme e a resistência da Lezeira na Vila dos Picos
por Eduardo Pontin
Seu Chico Guilherme (Francisco José de Souza, 13/7/1941) é mestre cantador de Lezeira do povoado Boa Vista, município de Picos (PI). Um dos responsáveis pela continuidade dessa expressão cultural piauiense em seu torrão, Chico Guilherme é também verdadeiro repositório de cantigas de Lezeira que não se escutam mais por aí, pois remetem ao início do século XX e foram aprendidas com cantadores veteranos que já se foram. E hoje Seu Chico é o último elo entre esses cantos populares ancestrais e as novas gerações.
A zona rural é um espaço geográfico de gestação de culturas por excelência. A vida comunitária proporciona uma unidade de pensamento e organização social. É justamente nesse ambiente onde a dança da Lezeira nasceu e se criou. E é nos povoados rurais onde ainda hoje a Lezeira permanece viva, seja de forma mais frequente ou episódica.
Nesse contexto, é esse fato que justifica a existência da Lezeira no município de Picos, um dos mais desenvolvidos e urbanizados do estado do Piauí, com pouco mais de 80.000 habitantes.
Porém, longe do centro da cidade da antiga Vila dos Picos, comunidades rurais resistem mantendo um modo de vida tradicional, o que inclui a plantação de alimentos e criação de animais para consumo próprio, capelas para o alimento da alma e brincadeiras transmitidas de geração para geração, como a Lezeira.
A região do pacato povoado Boa Vista dos Borges, localizado na zona rural de Picos é hoje um ponto de resistência da Lezeira. Reduto de grandes mestres cantadores veteranos, como João Biato, Hosana e Chico Guilherme, além de jovens, como Véim de Vicente, Zé Forró, Lorimar e Domingo.

Chico Guilherme encharcado de suor após a roda de Lezeira. Ao fundo, Raimundão da Mutamba e Véim de Vicente | Foto: Francisca Sousa
Porém, o crescimento cada vez maior da cidade de Picos e uma série de outros motivos levaram a Lezeira a ficar adormecida por muitos anos na Boa Vista. Quando estive na região em 2021 junto com a jornalista Francisca Sousa, a brincadeira andava parada. Segundo Chico Guilherme, o terreiro da Boa Vista não levantava poeira brincando Lezeira havia mais de uma década.
Entretanto, Seu Chico nunca desanimou ou eliminou a Lezeira de seus pensamentos e de sua alma. Passava suas tardes de repouso que a aposentadoria lhe proporcionou a entoar cantigas de Lezeira, no balanço de sua rede. Pois foi essa chama alimentada por Seu Chico Guilherme que permitiu que o brinquedo da Lezeira fosse revivido em 2023, a meu convite.
Seu Chico junto de seu filho, Zé Melin logo arrebanharam o povo de Lezeira da região, que topou reviver a brincadeira. Foi assim que em janeiro de 2023 uma grande roda se formou no terreiro da Boa Vista, com pares de homens e mulheres se entrançando e cantando a plenos pulmões:
“Cajueiro abalou!”

Mesmo octogenário, Seu Chico é um dos mais ativos na Lezeira da Boa Vista | Foto: Francisca Sousa
Quem nasce para brincar nunca perde o espírito risão. Nem parecia que os participantes daquela roda estavam há mais de 10 anos sem o uso da Lezeira. Na verdade, foi a mais bela roda de Lezeira que tive o privilégio de presenciar. As pessoas encaravam a brincadeira com grande devoção, queriam fazer direito, respeitavam o ritual do brinquedo. E Seu Chico Guilherme era o grande ponto de convergência de todos, pessoa que mantinha o espírito da brincadeira, verdadeira referência na roda.
Após essa roda de retomada, a Lezeira da Boa Vista renasceu e festejou a brincadeira na Semana Santa de 2023, como secularmente seus antepassados faziam. E outras rodas mais vêm sendo dançadas espontaneamente na Boa Vista. Sempre com a figura de Chico Guilherme presente, brincando, orientando, achando bom, repassando os saberes e mantendo viva por mais uma geração a dança da Lezeira do Piauí.

Seu Chico Guilherme deixou seu filho Zé Melin ensinado na Lezeira | Foto: Francisca Sousa
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