Enviado por Erly Ricci

Por Ivan de Almeida, do Fotografia em Palavras – Fotos de Erly Ricci
O escultor Henry Moore atribuía ao ato de desenhar o condão de romper a passividade do olhar, sua acomodação. Os fotógrafos criaram um conceito mais ou menos impreciso e o nomearam “Olhar Fotográfico”. O nome é muito bom, mas a compreensão do que seja nem tanto. Esse olhar fotográfico é normalmente tido pelos fotógrafos como uma espécie de dom ou de talento, mais ou menos desenvolvível com a prática mas aparentemente uma instância distinta dos ensinamentos de técnica operativa da câmera fotográfica e da técnica de composição. Esse olhar fotográfico imaginado seria, para os que pensam assim, algo capaz de superar totalmente a técnica compositiva (vista como uma muleta para quem não tem o olhar fotográfico) e algo apenas instrumentalizado pela técnica operativa, essa um saber inerte, passivo, sem capacidade de criar lógicas visuais mas tão somente servir ao olhar fotográfico.
O bom nome, como veremos abaixo, termina assim sendo um biombo ocultando as questões verdadeiras, quais sejam o relacionamento das instâncias técnicas com o ato fotográfico e, principalmente, a educação do fotógrafo para superar a preguiça do olhar. É como se o tal Olhar Fotográfico fosse inato ou algo da personalidade e destacado da prática da fotografia, algo pessoal que, de repente, havendo uma câmera e uma técnica, aflorasse, mas sempre estando latente e pronto antes mesmo da experiência fotográfica. É assim, aliás o pensamento majoritário sobre as artes, algo da esfera do dom e não da técnica ou do trabalho. Algo que é inspiração.
Contudo, assim como aprendemos a desenhar treinando em nós uma maneira de analisar a cena e traduzi-la em uma convenção bidimensional de representação, e essa análise é muito bem definida em seus procedimentos consistindo em medir, comparar, avaliar tamanhos relativos e inclinações, e sobretudo, evitar que o olhar preguiçoso empregado na vida normal contamine o desenho, aprendemos também o Olhar Fotográfico fotografando e treinando como analisar a cena em função da representação desejada. Na verdade, adquirimos o Olhar fotográfico quando aprendemos a olhar para as coisas como uma câmera fotográfica; analisando o DOF, analisando um mundo contido em um retângulo definido, analisando a luz e a reação da superfície sensível a ela. Nosso pensamento produz um prognóstico da captura.
O olhar fotográfico é inseparável dos atos analíticos que empregamos para definir a fotografia. Ele não tem outra natureza a não ser a antevisão dos atos fotográficos a partir de uma compreensão do aparelho.
A relação entre Olhar Fotográfico e técnica fotográfica ou técnica de composição é uma relação como a cara e a coroa de uma moeda. Não é possível fazer uma moeda só com um lado. Não existe o Olhar fotográfico sem a introjeção da experiência fotográfica e sem o ato de análise fotográfica. É como um dado. Podemos olhar o dado de seis lados diferentes, mas termos somente o dado como coisa completa de seis lados do mesmo objeto. Experiência fotográfica (técnica) e Olhar fotográfico são a mesma coisa, somente que cada uma dessas expressões simboliza uma categoria analítica. Mas de fato o tal olhar acontece como uma conjugação de escolhas técnicas, e é adquirido pela experiência de fazer escolhas técnicas até o ponto em que sem uma câmera na mão podemos saber como uma câmera, com uma determinada lente, capturaria um assunto.
Diversas estruturas formais da fotografia são estranhas à vista humana desarmada; desfoques, silhuetas, DOF curto, perspectiva rectilinear, nada isso é nosso. Tudo isso é aprendido pelo uso da máquina ou pela contemplação do universo de imagens fotográficas circulantes no mundo. Aprendemos a fotografar vendo fotografias e entendendo sua forma de fazer.
Consta que o maior de todos, o Henry Cartier-Bresson, costumava olhar suas provas de cabeça para baixo para não ser perturbado pela coisa retratada ao analisar a composição. Olhando de ponta-cabeça ele via menos a coisa –o referente- e mais o jogo visual de linhas, massas claras e escuras, etc. É muito interessante como isso guarda semelhança com o desenho “com o lado direito do cérebro”. Separa a representação da análise formal tem sido, para todas as gerações de artistas visuais, o grande desafio. A fotografia é feita de um objeto objeto, mas constitui uma coisa própria, regida por leis próprias, e olhar fotográfico é análise formal, é tornar consciente a percepção visual, e aplicar essa consciência ao enquadrar o mundo no retângulo.







Durvalino
18 de dezembro de 2013 5:23 pm…. nem tanto ao ceu nem
…. nem tanto ao ceu nem tanto a terra.
a foto deve necessariamente registrar a intençao do fotografo, e no mais, como dizia meu instrutor, nao descuide da composiçao , do enquadramento e da regra de terço. experimente um angulo novo, se agache se for preciso, incline a camera e veja se melhora.
enfim, clique. eh uma forma sutil de deixar registrado um instante de sua vida, para sempre.
Erly Ricci
18 de dezembro de 2013 9:48 pmMuito além do olhar fotográfico
Sou jornalista e tenho o hábito de fotografar eventos e as pessoas envolvidas neles, mas sempre de forma analítica, desenhando dentro do quadro. Como diz o historiador português Antônio Luís Marques Tavares, “a evolução tecnológica da fotografia levou a que a denominada fotografia artística, ou de autor, inaugurada por Henry Cartier-Bresson, trilhasse percursos e tratasse temáticas diversas, conduzindo a que esta se catapultasse, paulatina e eficazmente, para um lugar que, por direito próprio, hoje ocupa na História da Arte Contemporânea”. Para ele, a única diferença entre a pintura e a fotografia é o ‘CLICK’ da máquina fotográfica. A fotografia contemporânea, tal como a pintura, tem na sua essência a criação de metáforas, de conotações, de analogias diversas, conseguindo converter a objetividade em subjetividade. O visível não é necessariamente aquilo que se nos é apresentado perante os olhos. Está muito além do ‘OLHAR FOTOGRÁFICO’.
A técnica que usei para fazer a ilustração que abre o texto do Ivan, por exemplo, foi a de girar a máquina rapidamente sob um varal de roupas coloridas enquanto clicava usando uma velocidade de -2, acrescentando depois a foto de um olho e de um beija-flor fotografado em uma velocidade de 1/4000 e abertura do diafragma em f 3.5.
morallis
18 de dezembro de 2013 6:49 pm(Sem título)
morallis
18 de dezembro de 2013 6:53 pm(Sem título)
Alexandre Weber - Santos -SP
19 de dezembro de 2013 7:27 pmFotografia
Acho que fotografia ganhou nova dimensão com o celular iphone 5s e seu soft de 64 bits.
As fotos que ele tira devem ser até boas, mas o que o processador faz é melhor do que muito artista plástico de renome em telas inspiradas
Ele bate a foto, mas na verdade registra várias em milésimos de segundo, porém com EVs diferentes, assim bate uma no EV zero e mais um monte de EV -8 até EV +8, depois o software mistura todas, escolhendo as que estão mais nítidas e focadas e mostra um mosaico das melhores imagens como a foto tirada.
Vi umas de interior, com neons e tons sutis que ficaram de tirar o folego, impossíveis com uma câmara normal sem o ambiênte luminoso estritamente controlado e fotometrado.
Arrisco dizer que é o fim das câmeras semi-profissionais para baixo, incluso todas as portáteis, pois não têm o processador com capacidade de calcular esta montanha de dados de forma rápida e eficientes.
As cancorders amadoras também viraram peças de museu.