Samba, rock, axé, jazz, bossa nova, MPB. Não importa qual seja o estilo musical, todos eles apresentam forte influência da cultura negra. Há historiadores e pesquisadores que dizem até que a influência da cultura negra na música brasileira é tão abrangente que é difícil separar a história da música do Brasil da história da comunidade negra no país.
A bossa nova, que fez com que as canções brasileiras ganhassem projeção internacional na década de 1960, nada mais é que “uma forma de tocar samba”, nas palavras de João Gilberto, considerado o criador do estilo. “A propria MPB, o que seria ela se não tivesse o componentem negro em relação à parte ritimica? A bossa nova traz uma influência muito grande. Temos o congo, a congada, o jongo. Todos são ritmos presentes não só dentro da canção, mas também na dança. É importante pensar este caldeirão cultural, marcado por conflitos também, pois a música brasileira tem grande referência da música negra, ainda que seja diversa”, afirma o historiador de Cultura e Arte, Juliano Nogueira Almeida.
O samba, segundo o historiador, tem influência imediata do lundu, ritmo de grande alcance popular africano ainda no século XIX, antes mesmo de a música se tornar um fenômeno de massa ou uma indústria cultural. No Brasil, o estilo surgiu com a música Pelo Telefone, a primeira canção gravada ainda em 1914 e que se tornou um fenômeno.
“Além do samba, temos o choro, que é mais sofisticado em termos instrumentais e tem uma grande carga da negritude. Cito o Pixinguinha como grande expoente do choro no Brasil”, continua Almeida.
Muito além do samba
As contribuições da cultura negra na música brasileira não se restringem ao samba. Praticamente todos os ritmos têm referências de matriz africana, a exemplo do axé, que se refere às religiões do velho continente, mas que se tornou um estilo musical de grupos de negros do bairro Curuzu e da periferia de Salvador. Deste movimento, destacam-se os grupos Olodum e Timbalada.
Ainda no nordeste, o maracatu e o samba de coco se destacam entre os movimentos de cultura de massa, dos quais são referência Jackson do Pandeiro e Selma do Coco, respectivamente.
Mesmo quando estilos musicais foram importados para o Brasil além da África, estes receberam nuances encontradas apenas no País. “Temos ritmos que, inclusive, vêm dos Estados Unidos, mas que no Brasil ganharam feições próprias. Rock, rap, funk e soul. No funk e no soul, por exemplo, temos nomes como Tim Maia, Marcos Ribas e Wilson Simonal. Todos eles trazem um pouco desta influência estadunidense, mas criaram um novo ritmo traduzido pela brasilidade”, emenda Almeida.
Além da influência no ritmo, a cultura negra influenciou a música brasileira em outros aspectos. Uma delas é o caráter performativo. “A música cantada, especificamente no palco, tem elemento performático muito forte e não tem como não considerarmos certas figuras, como Itamar Assumpção que renovou a MPB, um compositor e cantor negro extremamente performáticos. Temos também o Tim Maia, que trouxe uma nova releitura para a MPB e que trazia uma performance no palco incrível, que deu uma renovada na forma de se colocar no palco.”
Outros brasis
Enquanto a bossa nova carioca mostrava um Rio de Janeiro belo e elitizado, a participação do negro no processo de composição fez com que a musica popular ganhasse outras temáticas, a fim de revelar outras realidades do País.
“Enquanto as músicas da MPB que estamos acostumados falam das avenidas, regiões centrais e bairros de origem italiana, o rap de São Paulo abrange uma nova realidade. Quando escutamos músicas do Criolo, do Racionais MC’s, vamos expandir um pouco essa noção territorial, ter acesso a outras regiões da cidade, o outro lado do rio Tietê. Vamos conhecer um pouco do Capão Redondo, do Grajaú, do Brooklin, regiões em que compositores como Sabotagem cresceram e trabalharam”, acrescenta Juliano Almeida.
O rap paulista traz ainda uma nova linguagem para as canções, agora mais coloquiais e faladas, deixando a melodia em segundo plano.
Perseguições
Apesar de toda genialidade trazida pela comunidade negra, esta população, como em diversas outras situações, também foi perseguida simplesmente por expressar sua arte. “A música negra foi totalmente marginalizada. Há testemunhos na história do samba de que, se um músico fosse pego com um violão, o violão era confiscado pela polícia. A ideia de que se você era musico e negro, então você era malandro, não um trabalhardor”, afirma Tânia da Costa Garcia, professora em História da América na Unesp.
A docente conta que Tia Ciata, sambista e mãe de santo, costumava promover festas na Pequena África, na região portuária do Rio de Janeiro, em que o espaço tinha três ambientes. Na sala de entrada, tocava-se chorinho, para evitar a fiscalização da polícia. Já na sala adiante e no terreiro se tocava samba e batuque.
Foi graças à colaboração da imprensa carioca e à organização de concursos carnavalescos que o samba ganhou visibilidade e deixou a mira das autoridades, a partir de 1928. “São os jornais cariocas que montaram os júris e organizaram critérios para os concursos de escolas de samba. O carnaval deixa de ser apenas um desfile do corso, em que carros da elite carioca desfilavam em fila com homens e mulheres fantasiados, e passa por um momento em que cordoes se organizam em alas e surgem as escolas de samba. “A partir daí o samba deixa de ser um maxixe, e o samba vai ganhando outros ritmos, construindo o que chamamos de samba moderno”, comenta Tânia.
Branqueamento
A indústria fonográfica também investiu em ritmos que pudessem se tornar nacionais, especialmente para legitimar o poder dos governos populistas, como o de Getúlio Vargas.
Mesmo assim, os estilos ligados à cultura negra, especialmente o samba e o axé, passaram por uma política de branqueamento, tanto que as letras já não trazem palavras de origem africana como antigamente.
Vale ressaltar ainda a falta de reconhecimento dos artigas negros, tendo em vista que a maioria morreu pobre, a exemplo do Cartola, apesar da contribuições fundamentais à cultura nacional.
O historiador Juliano Almeida conta que Monsueto Menezes é um bom exemplo do apagamento de compositores e artistas negros. É dele a autoria de grandes sucessos da música brasileira, como Mora na Filosofia e Eu quero essa mulher assim mesmo, ambas gravadas por Caetano Veloso, A fonte secou, famosa na voz da cantora Cláudia, e Ensaboa, sucesso na voz de Marisa Monte. Falecido em março de 1973, Monsueto, no entanto, é pouco conhecido.
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+almeida
22 de novembro de 2023 10:30 amA bem da verdade, tudo o que está mais ao alcance das massas recebe dela os traços da sua identidade, da sua alma e da sua cultura.
Eu penso que um exemplo claro é a música clássica, que apesar de receber um pequeno aumento de público, após a tentativa das gravadoras e das mídias de democratizar mais o acesso popular, obteve um crescimento lento e tímido. No lado oposto a explosão de novos ritmos populares, que são mistura de ritmos populares já consagrados, arrasta multidões incalculáveis, mundo agora. E em todas elas a semente e o DNA da cultura, do sentimento e da espontaneidade negra é facilmente percebida, quando invade os nossos ouvidos e as nossas almas ricamente missigenadas.