Lula, Fernando Morais e a franqueza de sempre, por Jean D. Soares

É preciso dizer ainda que a estratégia usada por Morais é bastante louvável. Ao iniciar o livro pelos últimos anos, toda a história de Lula é revista tendo como pano de fundo a injustiça de condenar alguém por ideias justas.

Lula, Fernando Morais e a franqueza de sempre

por Jean D. Soares

Fernando Morais sabia da sorte que lhe foi reservada ao ter sido escolhido por Lula para escrever sua biografia. O ilustre marianense não fez por menos: ergueu em centenas de páginas já o primeiro volume de memórias que ultrapassam e muito o mero interesse sobre o indivíduo.

O encontro do biógrafo com seu “objeto” é sempre algo a se declarar quando se trata de contar a vida de alguém, já que nem se pode ser indiscreto a ponto de desnudar o que deve permanecer privado, tampouco faltar com a franqueza que a tarefa exige. Espelhando-se portanto em seu “objeto”, cuja “franqueza de sempre” é citada pelo autor, Morais faz um belo exercício de franqueza. Lula não leu os originais antes da publicação. Trata-se portanto de um livro que se compromete com a verdade, pois sob pena de inviabilizar a necessária e planejada continuação do projeto. E não se trata de mero elogio: Morais regressa à dura infância do autor, aos anos de metalúrgico que não queria saber de política, aos momentos de futebol, de religiosidade, de dor e de  mudança. Traça assim um perfil humanizado daquele operário, com suas errâncias, dilemas, dificuldades, amores e conquistas.

Tal retrato chama a atenção também para o fato de ter lula criado uma via original para fazer política. Digo “original”, porque ele não simplesmente importa experiências estrangeiras, mas escuta, aprende e se adapta às possibilidades. A habilidade do bom ouvinte enquanto presidente já havia sido forjada nos tornos políticos do Sindicato dos Metalúrgicos. Que se diga o porquê do adjetivo: bom ouvinte é aquele que sabe selecionar na escuta algo que ultrapassa o interesse pessoal, na direção do interesse comum, procurando superar seus próprios preconceitos. Isso não é garantia de isenção, mas pelo menos mostra que Lula nunca pautou suas lutas pelos conceitos. Muito pelo contrário, encontrava as estratégias discursivas através do diálogo com a maior variedade possível de interlocutores. Foi assim com o sindicato, para o qual não queria entrar, tendo se tornado dele presidente; foi assim para a política, da qual não gostava, tendo sido o líder na criação do PT, partido que o levaria até a presidência da república.

É preciso dizer ainda que a estratégia usada por Morais é bastante louvável. Ao iniciar o livro pelos últimos anos, toda a história de Lula é revista tendo como pano de fundo a injustiça de condenar alguém por ideias justas. O autor permite ao leitor compreender o quanto a história se repetiu agora não como a trágica e revolucionária experiência de Greve que levou Lula e os dirigentes à prisão; mas como a farsa que envolveu coagir, violar direitos e pretender alguém presumindo sua culpa, baseado somente em “convicções”.

Há algo que se repete, porém, ao longo de toda a trajetória de Lula e não é trágico: sua confiança na verdade, na capacidade do outro diante de si alcançar o sentido do justo que ele mesmo alcançou. Não à toa, sua amizade com carcereiros e delegados durante os períodos de injustiça mostram não um corruptor em ação, mas alguém que não abre mão de sua dignidade em nome da liberdade.

A biografia em questão leva assim essa máxima de dona Lindu a sério. Morais ocupa-se continuamente em mostrar o quanto a dignidade, entendida como uma forma de viver em consonância com as verdades em que se acredita, não pode ceder lugar à necessidade por liberdade. É nessa medida que podemos ver em Lula um parresiasta bem sucedido. “Parresiasta” é aquele que “fala tudo”, que pensa verdadeiramente, diz o que pensa, e compromete sua vida com o que pensa. Há diversos exemplos, os de Sócrates ou Diógenes, há os que morreram pela verdade que sustentaram, os que viveram uma vida outra. Lula tem sido bem sucedido na arte da parresia, do falar tudo, na medida em que acredita verdadeiramente no que é necessário para a vida comum. Ele governou contra a fome, contra o analfabetismo, contra a pobreza extrema, contra a falta de saneamento, em resumo, Lula governou contra a falta de dignidade. Ele entendeu melhor do que qualquer outro governante, por ter vivido isso na pele, que a liberdade só se conquista quando a dignidade é um bem comum. E veremos como ele transformou isso numa fórmula de governo de um país no segundo volume!

Jean D. Soares é filósofo, músico e escreve nas manhãs mais mornas.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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maria regina reis ramos

- 2021-12-12 08:25:52

Muito bom! "Parresiasta", Sócrates 1, Sócrates 2, o do Corinthians, Diógenes, Lula, todo aquele que insiste em pensar por conta própria, sem os clichês do sistema. Lula é a força do povo brasileiro, esse povo hoje desnorteado por um tripé sinistro: o fascista, o pastor, a mídia anti-povo.

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