4 de junho de 2026

A difícil construção da competitividade industrial, por Augusto Rocha

Destruimos políticas públicas em um desmonte gradual do país e de suas políticas de sucesso para a indústria, ao invés de uma evolução.
Zona Franca de Manaus

A difícil construção da competitividade industrial

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por Augusto Cesar Barreto Rocha

Tem sido um desafio definir o que leva a competitividade industrial em cada época. O executivo Haroldo da Silva defendeu, no ano passado, uma tese de doutorado pela PUC-SP com o título “A agenda legislativa da indústria (CNI): a ação política dos industriais no congresso [1996-2021]”, onde discorre sobre o quanto a ação política da entidade industrial foi divergente do que seria intensão, pois a construção da agenda da indústria levou a desindustrialização prematura do país.

A análise superficial de problemas estruturais passa por muitos afetos e enganos, provavelmente não intencionais, afinal é ilógico supor que um industrial será capaz de agir contra sua atividade. Entretanto, foi o que o autor identificou. Começo citando-o como executivo por ele ter sido um ator ativo na construção desta agenda, sendo quase uma pesquisa participante – onde o pesquisador é envolvido com o tema pesquisado.

Como temos uma estrutura industrial que precisa ser reconstruída no país e há atualmente uma série de leituras rasas da realidade, onde prosperam análises equivocadas, com base em fatores onde há semelhança ou proximidade, mas não relacionados em causa e efeito. Assim, temos destruído políticas públicas fundamentais em um desmonte gradual do país e de suas políticas de sucesso para a indústria, ao invés de uma evolução. Um exemplo é o sistema de pesquisa e desenvolvimento das universidades públicas, que, mesmo com todo o desmonte dos últimos anos, segue sendo a base para as inovações do país, mas não parece apontar para um futuro muito próspero no olhar empresarial ou das políticas em gestação.

No entanto, abundam falácias e análises superficiais onde “as universidades deveriam ser mais inovadoras”. Encontrar soluções fáceis e rápidas para políticas públicas é uma impossibilidade. Afinal, se tudo fosse fácil e rápido, todos os países do mundo seriam desenvolvidos, não haveria doenças, guerras ou competições. A elite do capital nacional precisa reconstruir as pontes com as elites que constroem políticas públicas de sucesso, sob o risco de seguirmos a destruir o país e a sua estrutura de modernidade mínima. O crescimento do PIB abaixo da média internacional e o encolhimento da indústria são evidências objetivas.

Um dos inúmeros aspectos discutidos pela tese é muito evidente, em um paralelo, ao caso da Zona Franca de Manaus: o interesse de grupos estrangeiros é normalmente divergente dos interesses do Brasil e, muito frequentemente, diferente dos interesses de grupos de empresários nacionais. Normalizar como se tudo fosse uma coisa só é um equívoco. A política neoliberal e o Consenso de Washington foram pródigos em destruir desenvolvimentos de alguns países, basta ver o que vem sendo feito nos últimos anos dos EUA. Queremos um “Estado mínimo”, mas quando chega a primeira crise, espera-se apoio do Estado. Este simples descompasso de interesses diz muito sobre favores e para quem serão os favores e o quanto as políticas podem se perder e, como consequência, destruir, ao invés de construir.

Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Augusto Cesar Barreto Rocha

Augusto César Barreto Rocha é Professor Associado da UFAM. Possui Doutorado em Engenharia de Transportes pela UFRJ (2009), mestrado em Engenharia de Produção pela UFSC (2002), especialização em Gestão da Inovação pela Universidade de Santiago de Compostela-Espanha (2000) e graduação em Processamento de Dados pela UFAM (1998).

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