Biodiversidade do Pantanal queima junto com fazendas. ‘O desgoverno está grandíssimo’

“Na minha região não tem ajuda do governo federal”, afirma fazendeira que teve as terras queimadas no Pantanal. Bolsonaro cortou verbas de combate a incêndios

Fauna e flora destruídos, fazendas queimadas. Tamanho da devastação corresponde a 19 cidades de São Paulo - Mayke Toscano/Secom-MT

São Paulo – Zita Muller é fazendeira e pantaneira. Suas terras ficam no município de Barão de Melgaço, no Mato Grosso. As queimadas nessa área do Pantanal começaram depois da região da rodovia Transpantaneira, ao sul. A fazenda de Zita foi quase que totalmente incendiada. O gado se salvou graças a um rio e um grande corixo (lago pantaneiro) onde o rebanho se abrigou. Agora, ela e os irmãos se revezam na tarefa de cuidar dos animais, já que não há mais pasto para a alimentação. “A fauna está muito sofrida. Hoje levamos comida para os bichos e sempre deixamos água em recipientes que eles possam beber.”

Zita relata que ainda há muito fogo na estrada. “E não tenho visto nenhuma ajuda oficial do governo. Por aquela região minha, não tem. O desgoverno está grandíssimo”, afirma. “E, em especial, não há um comando. O ministro do Meio Ambiente (Ricardo Salles) veio aqui há cerca de 20 dias. Não soube se foi feito algo.”

O governo de Jair Bolsonaro cortou recursos para o combate às queimadas que atingem o Pantanal. A verba para brigadistas foi reduzida em 58%. O gasto com a contratação de pessoal para combater o fogo por tempo determinado, somado às diárias de civis brigadistas desabou de R$ 23,78 milhões em 2019 para R$ 9,99 milhões em 2020. Os dados são oficiais, retirados do Portal da Transparência citados em reportagem do UOL.

Dezenove São Paulo destruídas

O descaso do governo federal com a questão ambiental está custando caro ao país. As queimadas na Amazônia aumentaram 30% no ano passado e o Pantanal padece sob o maior número de incêndios dos últimos dez anos.

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“Quando não se tem ajuda, a situação agrava”, diz Zita Muller. Assim, este ano, até agora, são cerca de 3 milhões de hectares de terras queimadas no Pantanal, de acordo com o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo). Isso, informa o Instituto SOS Pantanal, representa quase 19% do bioma no Brasil. O tamanho da devastação corresponde a 19 cidades de São Paulo, informa reportagem da BBC.

Apaixonada pelo Pantanal

A fazendeira é também ambientalista. Formada em Direito, Zita já atuou junto ao Ibama, em 1997, e ao Ministério do Meio Ambiente, em 1999. “Comecei em 1986, trabalhando na Fundação de Desenvolvimento do Pantanal (Fundepan). Essa fundação, criada pelo governo de Mato Grosso, foi embrião do que hoje é a Secretaria de Meio Ambiente”, lembra.

“O Pantanal é de uma riqueza imensa tanto em flora quanto em fauna, que é exuberante, linda. E um ecossistema delicado, sujeito ao ciclo das águas. Não dá para avaliar ainda o que perdemos, mas sei que devemos buscar providências urgentes para enfrentar esta recuperação e seca.”

A fazendeira administra suas terras com o menor impacto possível ao precioso bioma do Pantanal, sua maior paixão. “Nasci aqui em Cuiabá, minha mãe no Pantanal, a fazenda era dos meus avós. O ecossistema pantaneiro é ocupado por gado desde 300 anos atrás. E foi uma atividade econômica que se compatibilizou muito bem com aquele ecossistema.”

Zita Muller tem uma fazenda no Pantanal e trabalha há 35 anos na área ambiental

Pastagens naturais

Questionada sobre o papel dos fazendeiros no agravamento das queimadas no Pantanal, Zita compara. “Existem fazendeiros que têm más intenções e outros que têm boas intenções. Antigamente, nos idos tempos, convivia-se pacificamente. O fazendeiro criando seu gado e vivendo abastecido por ele. Fazendo as grandes vendas, vivendo disso. Havia impacto, sem dúvida, mas era bem menor. O gado era criado quase à solta, sem cercas, e tinham uma atividade econômica rentável”, diz, recordando as pastagens naturais, em que os animais não sofriam com pragas como carrapatos e bernes. “E isso fazia com que o gado crescesse saudável. Agora já existe impacto de toda natureza. O fazendeiro da região sofre inclusive financeiramente.”

Para a ambientalista, grande parte do impacto ambiental se explica pela destruição do Cerrado que circunda o Pantanal. De fato, a desocupação desordenada da região desse que é o maior bioma úmido do mundo, é considerada uma das principais causas dos problemas vividos pelo Pantanal. “A remoção da vegetação nativa nos planaltos para implementação de lavouras e de pastagens, sem considerar a aptidão das terras, e a adoção de práticas de manejo e conservação de solo, além da destruição de habitats, são fatores que aceleraram os processos erosivos nas bordas do Pantanal”, informa a Embrapa da região.

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Futuro do Pantanal

A fazendeira diz ter esperança nas muitas campanhas sendo feitas para salvar das chamas o Pantanal, seus animais e plantas. São várias as ONGs, aquelas tão criticadas pelo governo federal, que têm assumido a linha de frente. “Antigamente, havia mais respeito pelos órgãos de meio ambiente e até podia se contar com o que tinha. Agora, não temos como recorrer às autoridades”, avalia Zita.

“Acho que agora uma campanha pela conscientização da riqueza que é o Pantanal para esse nosso país, a riqueza da biodiversidade principalmente da fauna, é muito interessante para mobilizar os mais jovens, aqueles que possam assumir a cuidar desse patrimônio tão importante para o Brasil”, acredita.

“Para relembrar, o Pantanal está previsto na nossa Constituição (artigo 225, parágrafo 4º) como patrimônio nacional. É uma área muito importante para a gente, e especialmente agora, depois desse ciclo pior do fogo, terá de ser muito apoiado. Ver essas campanhas que tenho visto, algumas bem locais, acontecendo com jovens, se mobilizando, é muito importante.”

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