Por Helio J. Rocha-Pinto
Satélite lançado hoje ao Espaço promete revolucionar nosso conhecimento acerca da Galáxia, gerando dados científicos de qualidade excepcional sobre mais de 1 bilhão de estrelas.

Créditos: ESA
Por H. J. Rocha-Pinto
Hoje, às 6:12 da manhã, hora local na Guiana Francesa, partiu para o Espaço, a bordo de um foguete Soyuz, o satélite científico Gaia, da Agência Espacial Europeia (ESA). O lançamento foi realizado pela companhia Arianespace, líder do mercado mundial de lançamento de satélites e, atualmente, a única capaz de levar ao espaço uma ampla variedade de carga para todos os tipos de órbitas circum-terrestres, incluindo missões de abastecimento para a Estação Espacial Internacional.
Poucos minutos após o anúncio de que Gaia tinha sido posto em órbita, a presidente da Arianespace, Stéphane Israël, declarou que a empresa está orgulhosa de lançar com sucesso uma terceira missão científica na ESA apenas neste ano, garantindo aos países europeus acesso independente ao Espaço.
O satélite Gaia teve seu planejamento iniciado em 1993, após o sucesso da missão Hipparcos, também da ESA, lançado em 1989. Ambos os satélites, Hipparcos e Gaia, foram concebidos como satélites astrométricos, artefatos explicitamente especializados na medição precisa da distância angular entre estrelas. São, por isso, bastante diferentes de satélites astronômicos que operam como grandes telescópios, tal como o Hubble, cujo trunfo é a grande capacidade de coletar a luz de objetos astronômicos fracos, sejam planetas, estrelas, nuvens de gás interestelar ou galáxias.
Essa informação é o ingrediente chave para que a posição de uma estrela na esfera celeste possa ser representada por coordenadas celestes precisas e todo um conjunto de propriedades físicas seja estimada. Por exemplo: a oscilação periódica anual das coordenadas da estrela, devido ao movimento da Terra em torno do Sol, é tanto maior quanto mais próxima de nós estiver a estrela, o que nos permite medir sua distância por uma triangulação similar à empregada por agrimensores. Também é possível medir a velocidade da estrela, pela comparação entre suas coordenadas em épocas distintas.

Representação artística do Gaia no Espaço. Créditos: ESA/ATG medialab e ESO/S. Brunier
Hipparcos foi lançado em 1989, um ano antes do Hubble, mas teve uma missão bem mais curta: 5 anos, ao fim dos quais produziu dados astrométricos de qualidade excepcional. Gaia foi concebido para usar os conceitos da missão Hipparcos com tecnologia de ponta para produzir um catálogo de posição com pelo menos 50 vezes mais estrelas e com mil vezes mais precisão do que aquele produzido pelo Hipparcos.
Sua missão também durará um mínimo de 5 anos. Além de posições e distâncias para cerca de 1 bilhão de estrelas, os instrumentos do Gaia permitirão o cálculo da velocidade espacial, fluxo de radiação em diferentes partes do espectro eletromagnético e composição química da maioria dessas estrelas, possibilitando a criação de um mapa tridimensional de grande parte de nossa Galáxia. Através do Gaia, os cientistas pretendem compreender melhor a estrutura, formação e evolução da Via Láctea, bem como dar contribuições significantes para nosso conhecimento acerca de planetas extrassolares, do Sistema Solar, de outras galáxias e até mesmo da Física Fundamental.
Uma vez que o Gaia corresponde a um salto de qualidade muito grande com respeito ao satélite similar que o antecedeu, seus resultados devem dar início a um novo e empolgante ciclo de descobertas. Em conjunto com outros instrumentos astronômicos recém-construídos ou que devem começar a operar nos próximos 5 anos, Gaia dá a partida efetiva para a Astronomia do século XXI.
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