10 de junho de 2026

Siderurgia Brasileira: quem te viu, quem te vê III, por Luiz Alberto Melchert

É preciso eleger mecanismo compensatório cuja métrica seja clara e objetiva. Uma solução conveniente parece ser o uso do mercado de carbono

Siderurgia Brasileira: quem te viu, quem te vê III

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Resumindo, jeito tem, carecendo de criatividade e vontade política. Pode ser que a solução não seja essa, mas pode ser considerada mesmo que parcialmente.

Uma solução possível

Devolver o protagonismo dos anos 1980 à siderurgia nacional esbarra em questões  inerentes aos acordos de comércio internacional. Essas questões vão da punição ao subsídio do produto nacional ao excesso de tributação sobre o produto importado. É preciso ter em consideração o fato de o aquecimento ser – como o próprio nome diz – global, ou seja, quando exportamos nosso minério de ferro para um país que usa carvão mineral para redução do ferro, estamos favorecendo a emissão de gases-estufa do outro lado do mundo, mas, como a atmosfera é uma só cobrindo o planeta como um todo, o resultado nos afeta como se a mesma produção se desse em nosso território. Nada mais justo para o Brasil e para o mundo que tudo o que disser respeito ao aço, independentemente de onde seja produzido, leve em consideração os insumos despendidos nos fornos redutores.

É preciso eleger um mecanismo compensatório cuja métrica seja clara e objetiva. Uma solução conveniente parece ser o uso do mercado de carbono. Até agora, tudo o que se refere à preservação ambiental baseia-se em decisões voluntárias. A invasão do aço chinês mundo a fora pode ser a oportunidade de ouro para tornar compulsória a compensação ambiental devida por trazer à luz um insumo que, durante milhões de anos, esteve escondido no fundo da terra.

Para facilitar a explanação, apesar de saber que a correspondência real seja infinitamente mais complexa, assumamos que cada tonelada de carvão usada para a produção de aço corresponda a uma tonelada de carbono equivalente para a determinação de créditos de carbono, ou seja, 1 t de carvão mineral consumido para a redução do ferro gusa origine um débito de 1 t de carbono a recuperar. Suponhamos agora que sejam necessários 0,25 t de carvão para reduzir 1 t de ferro gusa. Assim, cada 4 t de aço importado, ou produzido internamente, a partir do carvão mineral obrigará a siderúrgica a comprar 1 t em créditos de carbono. Ocorre que o exportador de minério de ferro deve ser solidário, haja vista que seu mercado induz ao uso de carvão. Considerando, ficticiamente, que  cada tonelada de ferro gusa consuma 5 T de minério de ferro com teor de ferro ao redor de 60%, para cada tonelada de minério de ferro, o minerador tenha um débito de 0,09 t a recuperar em carbono. Esse valor, deve ser abatido do saldo da siderúrgica, tal que essa transação intermediária não onere o produto final.

Esses recursos podem financiar a adoção do aço verde por siderúrgicas ainda não adaptadas ao seu emprego. Além disso, esse valor pode contribuir para um fundo de financiamento do florestamento destinado à produção de carvão vegetal num mecanismo muito próximo ao que hoje se usa para a lavoura branca. Dessa forma, o aço importado passa a subsidiar a transformação do aço nacional sujo pelo verde, ao mesmo tempo em que mitiga o possível dumping da indústria chinesa.

Levando-se em consideração que o Brasil exporta ao redor de 400 t milhões de minério de ferro ao ano, tomando-se 0,09 t em carbono a recuperar, seriam algo como 36 t milhões de acréscimo ao mercado de créditos de carbono. Ao mesmo tempo, tomando em conta que produzimos em torno de 21 t milhões de aço reduzido pelo uso de carvão mineral, esse número sobe para algo como 57 t milhões de carbono a recuperar. Finalmente, somando-se a importação de aço na casa dos 25 t milhões, teremos um mercado cativo total de 82 t milhões em créditos de carbono. Aos nada realistas  US$15,00/t em carbono equivalente, os valores anuais chegariam aos nada desprezíveis US$1,23 bilhões ao ano.

Essa política já torna o aço brasileiro mais barato porque 12% dele é verde, saindo dessa obrigação, percentagem que tende a aumentar às custas do uso do carvão mineral, ou seja, cumprindo a missão pela qual os créditos de carbono foram criados trinta e dois anos atrás.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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