O inevitável declínio da Europa na geopolítica, por Vitor Fernandes

No entanto, a segunda metade do século XX foi da Ásia. Especialmente o leste da Ásia. Só agora percebemos que o eixo do mundo se desloca de Londres, Paris e Nova Iorque, para Pequim, Xangai e Nova Dheli.

O inevitável declínio da Europa na geopolítica

por Vitor Fernandes

Desde o fim da segunda guerra mundial, a Europa perde gradativamente influência relativa no mundo.

Primeiro, a própria guerra que destruiu parte da Europa, a enfraquece e a coloca sob influência das potências no mundo pós-guerra: os EUA e a URSS.

Nas décadas seguintes, fruto desse enfraquecimento, vem a descolonização da África e Ásia. Chamo especial atenção aqui para a independência da Índia em 1947 e da revolução comunista chinesa em 1949, os dois países mais populosos do mundo.

Com o fim da URSS em 1991, o poderio da Europa se expande para o leste e a união europeia incorpora alguns países do leste europeu, com o enfraquecimento da agora Federação Russa.

Mas a Europa, desde a 2º guerra mundial não tem política externa independente dos EUA. Com o fim da URSS, os EUA mandam sozinhos no mundo e, em boa medida, a Europa fica sob sua tutela, assim como Japão e Coréia do Sul, países sem forças armadas próprias.

Os EUA é que despontam como potência hegemônica no mundo com o fim da URSS.

No entanto, a segunda metade do século XX foi da Ásia. Especialmente o leste da Ásia. Só agora percebemos que o eixo do mundo se desloca de Londres, Paris e Nova Iorque, para Pequim, Xangai e Nova Dheli.

Isso foi um processo que foi ocorrendo desde os anos 1950, mas que se acelera a partir dos anos 1980 e1990, com os chamados “tigres asiáticos” e com a ascensão da Índia e principalmente da China no mundo.

Os números são impressionantes: dos oito países mais ricos do mundo em dólares PPC, só um é europeu.

A China, desde 2016 lidera o ranking com 24 trilhões de dólares PPC (paridade de poder de compra), seguida pelos EUA(2º), com 20,9 tri, Índia (3º) com 8,9 tri, Japão(4º) com 5,3 tri, Alemanha (5º), com 4,4 tri, Rússia (6º) com 4 tri, Indonésia (7º) com 3,3 tri e Brasil (8º) com 3,1 tri.[i]

Esses são os dados atuais. As projeções para o futuro apontam para mais crescimento relativo e absoluto da Ásia e enfraquecimento relativo maior ainda da Europa.

Para 2050, se projeta que a Índia tenha superado os EUA, e se torne a segunda maior economia do mundo e a Indonésia, seja a quarta, atrás dos EUA. Se projeta que a Europa reduza sua participação no PIB mundial (PPC), de 15 para 9%, enquanto a China, por exemplo, terá 20%, mais do dobro.[ii]

Isso explica o desespero dos líderes europeus que recentemente têm se aliado aos EUA contra a “ameaça chinesa”.

Além do fator econômico, soma-se o demográfico. A Europa inteira, tem um pouco mais da metade da população da China e da Índia, com 1,4 bilhão de habitantes cada um.

As baixíssimas taxas de natalidade, faz com que alguns países europeus estejam vivendo um decréscimo populacional.

A Europa só tem chance de continuar influindo no mundo em bloco, via UE. Cada país em separado, tende a ser engolido na geopolítica do século XIX.

O que é evidente para o século XXI é a ascensão da China e Índia.

A Índia já é o terceiro país mais rico do mundo (em dólares PPC), desbancando o Japão e tudo indica um continuo crescimento, embora a Índia não tenha tanto êxito em transformar esse crescimento econômico em melhoria de condições de vida de sua população.

Caso contrário é o da China, que tirou 840 milhões de pessoas da pobreza em 40 anos, tendo eliminado a pobreza extrema em 2020 em plena pandemia do novo coronavírus. A China sozinha responde por mais de 2/3 da redução da pobreza extrema no mundo, nesses últimos 40 anos.

Há, além de rápido crescimento econômico, melhoria substancial nas condições de vida da população, expresso não apenas na renda, mas nos indicadores sociais, como saúde e educação.

Estamos caminhando para o fim do mundo eurocêntrico, que se apresenta com a revolução industrial e se consolida com o colonialismo europeu do século XIX.

Ao que tudo indica, o “centro do mundo” voltará a ser o que foi por séculos: as civilizações chinesas e indianas.

A Europa e os EUA continuarão como referência cultural por décadas ainda. Essa mudança é um processo lento, mas em termos geopolíticos, o declínio europeu é inevitável.


[i] Fonte: FMI, 2021. https://www.dicionariofinanceiro.com/maiores-economias-do-mundo/ consulta em 21/06/2021.

[ii] https://www.pwc.com.br/pt/estudos/world-in-2050.html consulta em 21/06/2021

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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2 comentários

  1. Seu comentário é muito interessante, mas gostaria de dizer que a EU ja percebeu (França e Alemanha) que vão morrer abraçado com os EUA. Os americanos tem graves problemas internos com uma economia que corre risco (Rússia vai se desfazer das reservas de dólar) e perderam o trem da história porque passaram os últimos 20 anos em guerra. É claro que a Europa é uma região ocupada, mas já ensaia movimentos com China e Rússia. A China tem o maior mercado consumidor e todos querem vender na China, nem que seja só meio porcento do mercado
    Grande abraço

  2. Os burgueses estão muito mais interessados em se aproveitar da farta e barata mão de obra chinesa para produzir suas mercadorias em grande quantidade a baixo custo do que em vender seus produtos para os chineses.

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