Ou honrados ou otários, por Aracy P. S. Balbani

Falando em república, parênteses: no cercadinho de perdigotos do Alvorada se encaixaria perfeitamente aquele personagem de livro de ficção que confessou em suas memórias que um dia foi sincero só porque não teve tempo de inventar uma mentira.

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Ou honrados ou otários

por Aracy P. S. Balbani

Há gente incrível no Brasil. É o caso do General Hamilton Mourão, que ofendeu os países africanos chamando-os de “mulambada” em evento durante a campanha eleitoral. Como vice-presidente, foi pulverizado a escoteiro da Igreja Universal e despachado a Angola com dinheiro do contribuinte brasileiro. Consta que voltou de mãos abanando. Pois nem assim ele ficou com os cabelos grisalhos.

Muitos pensavam que o limite para um presidente da República esticar a corda foi alcançado quando Fernando Collor de Mello declarou que “tinha aquilo roxo”. Eis que não. Passados 30 anos, a questão do decoro degringolou para o escatológico. Isso antes mesmo de a CPI da COVID-19 apurar a divulgação de ozônio retal contra o coronavírus.

Graças ao Capitão das motociatas, os historiadores poderão dividir nossa república em aM e dM. A linha do tempo ficará rachadinha em antes do Mito e depois do Mito. Nosso futuro ex-presidente poderá abiscoitar um cachê com palestras se for convidado para algum evento de médicos proctologistas quando sair do cargo.

Falando em república, parênteses: no cercadinho de perdigotos do Alvorada se encaixaria perfeitamente aquele personagem de livro de ficção que confessou em suas memórias que um dia foi sincero só porque não teve tempo de inventar uma mentira. Consolidaria a mentirocracia nacional.

O fascismo é moralista apenas na aparência. Nas entranhas, é grosseiro, ignorante, covarde, hipócrita, corrupto e estúpido. Alberga muitos tipos: brucutus do bem – cavalheiros flagrados vez por outra agredindo pessoas e animais indefesos – agiotas filantropos, socialites com rico repertório de palavrões, negros com preconceito contra negros, mulheres machistas e rufiões indignados com a corrupção no governo. Mas só se o governo não agrada a eles, bem entendido.

Na barafunda de militares, milicianos, mercenários e missionários que escoram o fascismo verde-amarelo, vê-se o rabo abanando o jegue. Cabe até o delírio coletivo de semipresidencialismo. O país reduzido ao absurdo. Todavia é compreensível. Alienados irrecuperáveis acreditam em semivirgindade e hemigravidez.

Alguns dos nossos fascistas mais pitorescos são frequentadores de colunas sociais. Incluem-se aí seres cujo vazio interior nem o verniz dos condomínios fechados, da maçonaria e demais confrarias consegue preencher.

Existem os que perdem parentes para a COVID-19, perdem o emprego, veem o próprio negócio arruinar, mas não dão o braço a torcer. No máximo, esticam o braço para tomar vacina como se fizessem um favor. E ainda ousam querer escolher o fabricante da vacina e insultar os profissionais do SUS.

O país é controlado de fato por quem detém o dinheiro e ambiciona nossas riquezas naturais. Em nome dessa exploração se deflagrou uma guerra total ao povo brasileiro. O motoqueiro que prometeu acabar com a corrupção e o horário de verão se prestou a abre-alas desse esquadrão de saúvas da pátria. Espertalhões e otários, de terno ou de farda, entraram de cabeça na esparrela. Foram engolidos pela esperteza dos parasitas de sempre. Agora não sabem como vão sair da lambança que o Posto Ipiranga Paulo Guedes não tem competência para desembaraçar.

Acredito que, no fundo, os fascistas têm inveja dos democratas. Ou, pelo menos, da nossa liberdade e coragem. Deve ser muito chato o sujeito ver suas pretensões e seu mito esfarelarem, ter o rabo preso e não poder admitir publicamente que serviu de otário.

O povo sofrido, enlutado e faminto exige, pacificamente, ser respeitado por suas autoridades e representantes. Quer que prevaleça o Estado Democrático de Direito civilizado e sóbrio. Chega de desacato. Não ao genocídio.

Nos encontraremos nas ruas em 24 de julho com muita paz, máscara e álcool gel. Unidos na determinação, embora distanciados fisicamente, teremos a felicidade de cumprir uma missão muito importante. Entraremos para a História como cidadãos brasileiros honrados, não como velhacos ou otários. Em hipótese nenhuma seremos cúmplices de um morticínio.

Fora, Bolsonaro! Vacina no braço e comida no prato!

Aracy P. S. Balbani é médica

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