Em fevereiro de 1976, dias antes da inauguração prevista, um prédio escolar construído com dinheiro público em Foz do Iguaçu (PR) foi entregue à iniciativa privada. A escola havia sido erguida para atender crianças da rede municipal numa cidade que, segundo o governo estadual, tinha 3 mil pessoas em idade escolar fora das salas de aula. Em vez disso, foi repassada ao Colégio Anglo-Americano, contratado pela Itaipu Binacional para educar os filhos dos funcionários da hidrelétrica.
O episódio, investigado pelo podcast Perdas e Danos, da Radioagência Nacional, marca o nascimento de uma rede nacional de ensino privado sustentada, em grande parte, por recursos federais, e ilustra como a ditadura militar usou estatais para beneficiar grupos privados em detrimento da educação pública.
Chaves
José Kuiava era inspetor de ensino do município na época e recebeu, por telefone, a ordem de entregar as chaves do prédio recém-construído ao dono do Anglo-Americano, Ney Suassuna. A determinação veio diretamente do diretor-geral da Secretaria de Educação do Paraná.
“Eu já tinha dado na rádio, nas notícias dos jornais, a inauguração do colégio, para que os alunos da região fossem atendidos lá. De repente tive que suspender tudo e dizer: ‘olha, o colégio foi entregue nas mãos do Anglo-Americano, à disposição da Itaipu'”, lembra Kuiava.
O contrato foi assinado entre o Anglo-Americano, a Itaipu e o consórcio de empreiteiras responsável pela construção da usina. O acordo garantia pagamento mínimo de 1.000 vagas, todas pagas com recursos públicos. No primeiro ano, porém, o colégio já tinha mais de 10 mil alunos matriculados. No auge das obras, chegou a 14 mil estudantes.
Negócio sem licitação
O Anglo-Americano era, até então, uma escola tradicional com duas unidades na zona sul do Rio de Janeiro e cerca de 500 alunos. Ney Suassuna havia comprado a instituição cerca de um ano antes do contrato com Itaipu. Paraibano com passagem pelo Ministério do Planejamento, um dos mais poderosos da ditadura, ele chegou à reunião com o general José Costa Cavalcanti, então diretor-geral de Itaipu, amparado por contatos políticos.
“Cheguei dizendo que era do Ministério do Planejamento, que tinha trabalhado com o ministro. Eu cheguei com o meu currículo na frente”, conta Suassuna.
A professora Denise Sbardelotto, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), pesquisou arquivos em Itaipu, na Câmara Municipal de Foz do Iguaçu e em outras fontes, e não encontrou nenhum registro de processo licitatório. “Nós temos realmente um caso de escolha política arbitrária de um grupo educacional”, concluiu.
A Itaipu Binacional, procurada pela reportagem, não respondeu diretamente sobre a ausência de licitação.
Ovos de ouro
O contrato era altamente favorável ao Anglo-Americano. Itaipu e o consórcio de empreiteiras custeavam toda a infraestrutura, prédios, mobiliário, material pedagógico, e entregavam tudo pronto para a escola administrar e lucrar. O risco de inadimplência simplesmente não existia: quem pagava era a estatal.
“Era uma galinha dos ovos de ouro”, avaliou Sbardelotto.
O crescimento da instituição foi de 2.800%, número que o próprio Suassuna classifica como surpreendente. “Eu fiquei pasmo de ver que era um mundo. O meu colégio no Rio tinha 500 alunos, o de lá tinha 14 mil”, disse.
O contrato abriu caminho para outros. O Anglo-Americano fechou acordos com a hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, e com a Petrobras para atender famílias brasileiras no Iraque. A rede se expandiu por todo o país, com faculdades de medicina, direito e economia do Rio Grande do Sul à Paraíba. “De repente, eu tinha quase 50 mil alunos”, lembra Suassuna.
Escolas
O Anglo-Americano em Foz do Iguaçu, na prática, era mais de um. Os funcionários de Itaipu viviam em três vilas separadas por cargo e salário, e as escolas reproduziam essa hierarquia.
Os moradores das vilas A e B, de trabalhadores mais bem remunerados, frequentavam uma escola ampla, arborizada, com biblioteca, laboratórios de química e física, horta, fanfarra e auditório.
Os filhos dos trabalhadores braçais, moradores da Vila C, estudavam em uma unidade de madeira pré-fabricada, com 60 salas de aula, um ginásio e duas quadras descobertas, sem asfalto, cercada de lama.
O estudante Valdir Sessi chegou a frequentar as duas unidades e recorda as marcas visíveis da desigualdade. “A violência simbólica já definia. A roupa, o cabelo, o tênis, já denunciavam a classe social dentro do colégio. Tinha colega que usava a botina que o pai dava quando já não dava mais para usar no canteiro de obra.”
Os alunos da escola mais simples ganharam um apelido: chuta-barros. “Porque eles vinham com barro nas solas dos calçados”, explica Sbardelotto. A lama na sola era o sinal de que vinham da vila sem asfalto.
A diferença ia além da estrutura física. Na ditadura, o ensino médio profissionalizante era obrigatório. Na unidade da Vila A, os cursos preparavam para o ensino superior. Na Vila C, sequer havia segundo grau, os alunos eram encaminhados para cursos profissionalizantes no Senai ou em centros comunitários. Quem queria estudar mais tinha que ir para a outra escola e, lá, carregava o estigma do apelido.
Custo
Enquanto o Anglo-Americano prosperava, a cidade piorava. A construção de Itaipu quadruplicou a população de Foz do Iguaçu em dez anos, de 34 mil habitantes em 1970 para 136 mil em 1980.
Para a obra, foram desapropriados 1.800 km², incluindo territórios indígenas, e cerca de 40 mil pessoas foram retiradas de suas terras só no lado brasileiro. Nesse processo, cerca de 95 escolas da região foram submersas ou destruídas.
Com o inchaço populacional, a rede pública precisou criar um terceiro turno escolar no horário do almoço, das 11h às 14h. Itaipu indenizou parte das escolas inundadas e construiu outras, mas em número inferior ao que havia destruído.
“Algumas reformas e ampliações muito ínfimas, muito inexpressivas, comparadas ao montante de recursos canalizados ao Anglo-Americano por muitos anos”, avaliou Sbardelotto.
Procurada pela reportagem, a Itaipu Binacional não respondeu sobre as práticas do contrato, mas afirmou em nota que a chegada de trabalhadores exigiu a criação de infraestrutura inexistente e que os alunos do Anglo-Americano tiveram acesso a “uma educação integral, gratuita e inovadora para o período”. Ney Suassuna, por sua vez, defendeu que não havia outra saída. “Não tinha a menor chance. Nem no municipal e nem tampouco no estadual. Nós éramos os desbravadores”, disse.
O Anglo-Americano de Foz do Iguaçu não pertence mais a Suassuna. A instituição foi procurada, mas não respondeu.
*Com informações da Agência Brasil.
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Nabantino Gonçalves
23 de abril de 2026 3:48 amÉ o que sempre acontece quando os milicos assaltam o poder.
Marcelo
23 de abril de 2026 9:39 amAhan! As construtoras enriquecem com dinheiro público, porque pegam empréstimo para criar a moradia que você mora, e a Caixa (banco público), que financia, faz você pagar dois apartamentos. E isso em qualquer governo. As ONGs enriquecem. Os bancos socaram juros altíssimos nos empréstimos daqueles que falavam: “graças ao Lula, comprei carro, moto, celular… Só esqueceu de pagar. E as licitações milionárias para compras de insumos para todas as autarquias. Melhor parar de falar numa época que não existe mais e ir tratar desse estrabismo.
Rui Ribeiro
23 de abril de 2026 11:51 am10 escândalos das Forças Armadas com dinheiro público durante o governo Bolsonaro
https://www.esquerdadiario.com.br/spip.php?page=gacetilla-articulo&id_article=51943
JOÃO ELIAS NEMER KANAAN
24 de abril de 2026 2:51 pmCinquenta anos depois os “jornais” vêm postar uma notícia dessas.
Por que não fizeram, na época????
Gostam de fomentar dissidência
s.
Anônimo
23 de abril de 2026 3:00 pmÉpoca que não existe mais, chama-se: reparação, seu estrabismo
Marcos
23 de abril de 2026 5:29 pmA caixa te empresta à 5% ao ano!! Eu acho o PT muito capitalista apesar de tudo, pró-mercado demais pro meu gosto. Dá pra subsidiar geral. O caminho é mais à esquerda.
Marcelo Medeiros
23 de abril de 2026 9:54 pmFalou o bolsonarista, fã e puxa saco de ditadores milicos, milicianos genocidas corruptos vagabundos desordeiros sádicos oportunistas manipuladores golpista preso e inelegível até 2060 💩💩💩💩🤡🤡🤡🤡🙈🙈🙈🙈🤐🤐🤐🤐🖕🏼🖕🏼🖕🏼🖕🏼✌🏻✌🏻✌🏻✌🏻
Rui Ribeiro
23 de abril de 2026 11:48 amE quanto os Abacates desviaram da construção da Transamazônica?
Eles têm fama de serem parcimônia mas essa fama não corresponde aos fatos:
“Em 9 de outubro de 1979, o então presidente João Baptista Figueiredo foi surpreendido por 90 alunos de escolas das cidades-satélites de Brasília, que tinham ido conhecer o Planalto.
Quando a professora se afastou um pouco do grupo que cercava Figueiredo, um menino de 10 anos perguntou: “Presidente, como o Sr. se sentiria se fosse criança e seu pai ganhasse salário mínimo?” Figueiredo respondeu: “Eu dava um tiro no coco.” Na época, o mínimo em São Paulo era de Cr$ 2.268,00 (US$ 76).
Em seguida, Figueiredo tentou consertar: “Eu trabalharia para ajudar meu pai.” Então foi a vez de uma menina de 9 anos: “Presidente, por que a panela do pobre está sempre cheia de ilusão?” E Figueiredo: “Eu pretendo melhorar isso baixando o custo de vida””.
Com Bolsonaro, enquanto o povo tava na fila da ossada, eles estavam sozinhos comendo o filé da Nação inteira
Eduardo
23 de abril de 2026 3:51 pmDitadura é o que vivemos hoje!
Miguel Batista
23 de abril de 2026 11:23 pmJá experimentou um pau de arara?
Paula Cunha
23 de abril de 2026 3:53 pmTive o desprazer de conhecer esse Ney Suassuna no Senado, eram um ser sem limites, podia tudo.
luiz nese
24 de abril de 2026 3:21 pmQuerem comparar o feitos da Revolução de 1964 ao desgoverno corrupto de hoje?
Rui Ribeiro
25 de abril de 2026 9:29 amTortura, assassinatos e corrupção são os feitos dos anos de chumbo. Os vermes comiam e continuam se empanturrar com os recursos dos contribuintes. Fim do militarismo já!
PAULO CESAR NEGREIROS
26 de abril de 2026 3:49 pmPoderia informar a prática adotada pela ditadura de oferecer Bolsas de Estudos para Colégios Ginasiais também foi empregada? E que o acordo previa a Escola aprovar 75% dos Alunos? Eu estudei na Baixada Fluminense e houve muitas Bolsas de Estudos nos anos 1976 até 1982 me lembro
dagoberto marchetti
30 de abril de 2026 9:04 amEm 1977 FUI visitar em foz do Iguaçu PR,um primo meu de segundo grau. Eu oriundo de Duartina SP e esse primo meu oriundo de bauro sp. Ao chegar no local,vi a vila.Eram casas de madeira recém construídas,as ruas todas de barro. Meu primo casado, com uma filha pequena; uns dois anos,e esposa. O curioso é que eles estavam todos muito felizes com o local,o trabalho e a convivência entre os desconhecidos amigos do momento.Eu já era professor de educação física,formado em guarulhos sp. Vi toda felicidade engodada; sem que eles percebe em isso.Tenho 76 anos sou professor aposentado.