A crise do fenômeno crise capitalista

As crises do capitalismo não são uma novidade. No século XIX os economistas já discutiam as razões pelas quais elas ocorrem e as formas para superá-las. Não vou me alongar nesta questão.

“No passado, essas crises importantes de acumulação não só precisavam de uma mudança qualitativa de longo alcance na divisão do trabalho, como também tornaram possível tal mudança. A própria crise significa que o processo de acumulação (‘desenvolvimento’ ou ‘crescimento’ são talvez os termos mais usados popularmente, mas não são exatamente a mesma coisa) já não funcionava como no passado e exige reajustes importantes para que volte a funcionar no futuro. Ao mesmo tempo, a crise torna possíveis esses reajustes na medida em que sem a crise não haveria razão, ou não haveria razão premente, para as modificações de amplo alcance, muitas vezes a grandes custos sociais e políticos. Por exemplo, uma das manifestações e uma das razões da crise de acumulaç,ão é o fato de que as principais indústrias – isto é, as que eram as principais indústrias no período anterior de crescimento – tendem a perder suas posições de liderança, a mergulhar em crises de lucratividade particularmente sérias, e a ser, se não substituídas, pelo menos deslocadas para outras partes do mundo.” (Reflexões sobre a Crise Econômica Mundial, Andre Gunder Frank, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1983, p.  31)

A crise que permite a evolução do capitalismo podia ser considerada um fenômeno recorrente inevitável e, de certa maneira, desejável e importante quando os Estados arrecadavam impostos e tinham capacidade de agir sobre a economia. Isto deixou de ser uma realidade no exato momento em que os Estados se envidaram.

Endividados os Estados perdem a capacidade de corrigir as distorções econômicas criadas pelo mercado. A única coisa que eles fazem é renunciar a tributos, perdoar dívidas e tomar mais dinheiro emprestado privatizando tudo o que possível privatizar. Esta é a lógica adota pelos economistas do FMI e pela equipe de Michel Temer. O resultado seria a atração de investimentos e o ‘desenvolvimento’ ou o ‘crescimento’ da economia como dizem os jornalistas.

Ocorre que não é isto o que os fatos demonstram. Estados endividados como a Grécia tendem a contrair novas dívidas para pagar empréstimos antigos. Após o corte forçado de direitos trabalhistas e previdenciários o comércio não cresce, ele apenas encolhe provocando uma redução na produção e circulação de mercadorias. Os investimentos externos que supostamente iriam provocar um novo surto de desenvolvimento e crescimento da economia apenas conseguem enriquecer os empresários que passam a explorar como empresários privados serviços públicos que já existiam.

Nesse contexto a crise não pode ser mais considerada um fenômeno recorrente que permite sua superação. Ela se torna um meio de vida que agrava a exclusão social e, principalmente, o endividamento dos Estados. Afinal, quem foi perdoado, deixou de pagar impostos e que paga menos impostos nunca se sentirá estimulado a colaborar mais para sustentar um Estado que apenas toma dinheiro emprestado para pagar dívidas contraídas. Os credores também não se sentem estimulados a investir na economia real, pois eles podem viver confortavelmente com os juros crescentes que extorquem do Estado. O círculo vicioso se fecha quando os credores e banqueiros passam a sustentar políticos que se recusam a fazer mudanças estruturais que prejudiquem seus patronos financeiros.

A perpetuação d na Grécia (país em que um governo de esquerda foi constrangido a aceitar a receita do FMI)  e o aprofundamento da crise no Brasil sob o temerário neoliberalismo imposto pelos arquitetos e beneficiários do golpe de estado de 2016 revelam que já vivemos uma crise da crise. Afinal, a crise não é capaz de provocar qualquer melhora econômica palpável para aqueles que foram demitidos ou tiveram seus salários e benefícios previdenciários forçosamente reduzidos.

Muito pelo contrário. Com a crise da crise o empobrecimento (que era temporário na fase anterior) se torna crônico e crescente. O resultado da crise da crise provocada pela perpetuação do endividamento estatal (aliado à renúncia fiscal) tem sido visto na Inglaterra, na Espanha, na França, na Itália e até nos EUA. Nos países supostamente ricos e desenvolvidos a fome se torna uma realidade que a mídia teima em esconder porque resolveu viver num outro planeta (aquele em que o neoliberalismo só produz vitoriosos).

Felizmente não sou nem economista, nem jornalista. Se fosse eu já estaria me entupindo de cocaína ou me atirando do Viaduto do Chá. Afinal, a realidade cobra um preço doloroso à psique daqueles que a negam por razões ideológicas, econômicas ou porque se tornaram perversos por força do hábito.

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