A Neiva e a Embraer

Enviado por Mário Vinagre

Prezado Luís Nassif:

Li a nota “Embraer e Neiva”, publicada em sua coluna no Valeparaibano de ontem, quarta-feira 2 de maio, e não concordo com sua afirmativa de que “a história da Embraer tem alguns pontos obscuros que ainda não foram contados” e nem muito menos que a Embraer “havia sido criada para amparar essas empresas (Neiva)… (mas) em pleno período militar, acabou esmagando-as”.

Sobre o assunto, gostaria de tecer os seguintes comentários:

1) O último avião projetado e produzido pela Neiva foi o treinador básico a pistão T-25 Universal, desenvolvido em meados da década de 1960, do qual a Força Aérea Brasileira (FAB) encomendou 150 exemplares. Avião extremamente robusto, o T-25 passou por vários “upgrades” nos últimos trinta e poucos anos e continua sendo utilizado até hoje pela Academia da Força Aérea (AFA), em Pirassununga (SP), no treinamento de cadetes.

2) O projeto seguinte da Neiva foi o T-25B, batizado de Universal II, com motor mais possante, hélice tripá e ligeiras modificações aerodinâmicas e de sistemas para melhorar seu desempenho. Um protótipo chegou a ser construído e voou com sucesso, porém como a FAB possuia muitos exemplares do modelo anterior, bastante novos ainda, não houve interesse em comprá-lo e a Neiva ficou sem ter o que fazer.

3) Outra empresa aeronáutica sediada em São José dos Campos, a Aerotec, desenvolvera em meados da década de 1960 o modelo a pistão T-23 Uirapuru, que era empregado no treinamento primário de cadetes na AFA. Findo este programa, ela lançou o do treinador primário T-24 Tangará, cujo protótipo voou com sucesso, porém não foi adotado pela FAB porque a frota de Uirapuru era ainda nova e poderia continuar dando conta do recado por muitos anos. Como resultado, a Aerotec, da mesma maneira que a Neiva ficou sem ter o que fazer.

4) Em agosto de 1974, a Embraer assinou acordo com o fabricante estadunidense Piper Aircraft Corporation para produção de alguns modelos a pistão daquela empresa no Brasil. Eram eles os monomotores Piper PA-28-325 Pathfinder (Embraer EMB-710 Carioca), PA-28R-200 Arrow II (EMB-711 Corisco), PA-32-300 Cherokee Six (EMB-720 Minuano), e os bimotores PA-34 Seneca (EMB-810 Seneca) e PA-31-350 Navajo Chieftain (EMB-820 Navajo).

5)Como a Aerotec e a Neiva tinham capacidade ociosa, a Embraer então as contratou para fazer a montagem de subconjuntos dos aviões Piper destinados ao mercado brasileiro. Isto, todavia, não foi suficiente para viabilizar a continuidade da existência de ambas como empresas independentes. Por fim, a Aerotec fechou as portas e a Neiva foi comprada pela Embraer.

6) A partir de março de 1980 a Neiva passou a ser responsável pela produção de todos os modelos Piper acima citados, mais o avião para emprego agrícola EMB-201 Ipanema, originalmente desenvolvido no Centro Técnico de Aeronáutica (CTA), com verbas do Ministério da Agricultura. Este modelo, que continua em produção até hoje na Neiva em Botucatu (SP), já teve mais de mil exemplares produzidos, incluindo versões equipadas com motores a alcóol (cujo desenvolvimento foi iniciado na década de 1980, no CTA).

7) Na época de seu fechamento a Aerotec dependia exclusivamente de contratos militares para continuar existindo. O mesmo se aplica à Neiva, que não tinha produtos para o mercado civil, o qual era dominado pelos fabricantes estadunidenses Cessna, Piper e Beech, nessa ordem.

Portanto, não houve nada de obscuro na absorção da Neiva pela Embraer, como você supõe.

Abraço,

Mário Vinagre
Jornalista de Aviação

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