5 de junho de 2026

Brasil, paraíso dos agrotóxicos, por Rui Daher

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por Rui Daher

na CartaCapital

A colheita brasileira na safra 2015/16 sofreu várias traulitadas climáticas. Diversas regiões e culturas tiveram queda de produção em longos períodos de seca durante a vegetação, altos índices pluviométricos na colheita, e recentes episódios de geadas em zonas cafeeiras.

Com isso, a produção de grãos, prevista em meados do ano passado para registrar novo recorde (210 milhões de toneladas), segundo a última estimativa da Conab, deverá cair 10%, não passando dos 190 milhões, sendo as maiores quedas em feijão (22%), milho (17%) e soja (7%).

A cultura do café, no sul de Minas Gerais, sofreu geadas nos últimos meses, de menor impacto na colheita em fase final, mas capaz de prejudicar as duas próximas safras.

Em conversa com agricultores do sudoeste paulista, revelo que em 2015 a indústria de agrotóxicos, “mas pode-me-chamar-de-produtos-para-defesa-vegetal”, vendeu no Brasil US$ 9,6 bilhões, entre herbicidas, fungicidas e inseticidas. Segundo seu sindicato, queda de 21,5% em relação a 2014. Justificam o fato pelo câmbio, contrabando e atrasos nos recursos do crédito rural.

Acreditem somente no primeiro fator. Os demais foram mínimos. Tomando-se os períodos do ano mais expressivos na compra de agroquímicos, em 2015 o dólar registrou uma apreciação de 45% sobre o real em relação a 2014. O dobro da queda ocorrida no faturamento da indústria. Vale dizer, em reais, a moeda que sai do bolso dos agricultores, a indústria faturou 28 bilhões em 2014 e 34 bilhões no ano passado. Cresceu.

Continua-se, pois, aplicando monstruosidades de agrotóxicos nas lavouras brasileiras, o que perdurará enquanto predominarem o brutal poder de divulgação da indústria e os temores e comodismo de nossos agricultores.

O mercado mundial de pesticidas é estimado em US$ 45 bilhões. Mesmo com a queda, o Brasil ainda representa fatia de mais de 20%. Perto de um bilhão de litros é usado em nossas lavouras, 1/3 deles para a soja.

Tenho insistido que não precisaria ser assim, conceito que levo em todas andanças. Mais uma vez: é possível manter e mesmo fazer crescer a produção, diminuindo a dependência de agrotóxicos através de técnicas agrícolas milenares.

Nem toco aqui nos comprovados malefícios aos ecossistemas e saúde humana, sobretudo em países emergentes e pobres, onde vige sangrento vale-tudo. Deixo-os a julgamento em códigos criminais.

Refiro-me aos sensíveis bolsos plantadores, que poderiam ser poupados conhecessem a infinidade de tecnologias produzidas a partir de matérias orgânicas e manejos redutores do uso excessivo de agrotóxicos e fertilizantes químicos.

Mas empaca. Sim, razões e conceitos empacam nos hábitos e costumes dos agricultores, massificados pelo assédio do exército de agrônomos dos fabricantes, que os fazem temer perdas na lavoura.

Mais ou menos como o caboclo que depois de matar a cobra pisou tanto em sua cabeça, furou a sola do sapato, e absorveu o veneno.

O professor Jules Pretty, da Universidade de Essex, no Reino Unido, é uma boa referência para o assunto. Ele e equipe realizaram trabalho de pesquisa em 24 países da África e da Ásia comprovando manutenção dos níveis de produtividade com redução no uso de agrotóxicos, através de Manejo Integrado de Pragas e Doenças (IPM, na sigla em inglês), rotação de culturas, armadilhas biológicas.

Daí ter-me impressionado a importância que o pesquisador, em seus livros e artigos, dá à educação e ao efeito demonstração obtido no que ele chama de “Farmer Field Schools”, pulverização de campos experimentais para que agricultores possam comprovar, fora de suas lavouras, a efetividade desses produtos e técnicas poupadores.

Tivesse o Brasil governo legítimo voltado ao desenvolvimento social e iniciativa privada menos rentista, quantos assentamentos e núcleos de agricultura familiar poderiam se transformar em “Campos de Ensino de Agricultores”?

Nem pensar. Basta ver que o silábico governador de São Paulo propõe vender as poucas fazendas experimentais pertencentes a tradicionais instituições de pesquisas.

Fora todos! E fica proibido silabar e usar mesóclise.

Rui Daher

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

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7 Comentários
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  1. edmorc

    19 de agosto de 2016 1:19 am

    Mercado, o eterno “Deus Mercado”

    Tal como em todos os demais setores da economia, o agronegócio está totalmente dependente do oligopólio formado por 1/2 dúzia (ou já são menos) de empresas transnacionais, que atuam nas duas pontas, fornecendo insumos e comprando o produto. Ao produtor, as agruras e riscos da produção. Com isso, o Brasil que poderia tirar proveito de exuberância e diversidade de seu ecossistema predominantemente tropical, aplica as tecnologias reducionistas herdadas dos países do norte. Para mitigar esses efeitos, somente um governo verdadeiramente comprometido com os interesses da população (saúde, segurança alimentar, desenvolvimento sustentável não só no discurso, etc). E teremos isso algum dia???

    1. Rui Daher

      19 de agosto de 2016 11:43 am

      Ed, temo

      que a resposta à sua pergunta é: nunca. São interesses de tal forma cruzados, que vão desde a massiva divulgação e oferta goela abaixo até a colaboração dos órgãos regulatórios que colocam determinam emprecilhos às pesquenas e médias empresas capazes de oferecer tecnologias menos agressivas, tão produtivas quanto as das transnacionais. Em resposta a este artigo, no FB da Carta, um monte de gente critica, dizendo impossível produzir sem agrotóxicos. Em certos casos, é verdade, mas o que não entendem é que é possível reduzir, pelo menos, 50% o uso. Em alguns casos, até 100%. Porra, eu vivo vendo isso acontecer. Abraço 

      1. Fernando J.

        19 de agosto de 2016 12:28 pm

        Mais: o terror de perder uma safra

        Mestre Rui, acrescentaria ainda o seguinte. A perda de uma safra desarruma a vida do agricultor que não tenha uma grande estrutura por 3 a 5 anos, dependendo do porte do estrago. A inadimplência, a perda do crédito, a renegociação penosa e onerosa no banco, tudo isso faz com que o agricultor pese a mão nessa hora. Na dúvida, vamos seguir as “recomendações técnicas”. Afinal, ele não recebe – e nunca receberá – recomendações técnicas para reduzir os insumos, certo? Pelo contrário, sempre será sugestionado por um “caso de sucesso” do vizinho. E dê-lhe dia dia de campo com um lauto churrasco e muita cerveja promovido pelas empresas, telão projetando vistosas lavouras tratadas com o produto. 

        1. Rui Daher

          19 de agosto de 2016 2:20 pm

          Fernando,

          essa realidade, sem dúvida, cria o temor, mas dificilmente o uso associado de agroquímicos com materiais orgânicos permitiria a eles diminuirem o uso, sem risco de perda, a não ser as mesmas que teriam de qualquer jeito com os produtos convencionais, e gastando muito menos. Abração. 

    2. ze sergio

      19 de agosto de 2016 3:39 pm

      mercado…

      Primeiro: não vamos reduzir esta conversa àquela balela direita X esquerda, que serve apenas para manter nossa única e verdadeira elite. Aquela que mama em tetas maravilhosas do Estado. Dito isto, sr. edmorc, nós precisamos continuar com este “fatalismo” por que? Depois da volta das representatividades ditas democraticas, do fim da Guerra Fria, das gentes nacionais que dzaim não ter o rabo preso à interesses estrangeiros, por que não foram alteradas as poiliticas nacionais? O que nos impediu? Quem está com este revolver apontado para nossas cabeças, que não podíamos seguir por caminhos nossos? Se não podemos ficar totalmente sem agrotóxicos, por que não os fabricamos, se temos todas as condições, e superiore a qualquer outro de fazê-lo? Por que não implementamos de forma decisiva outas técnicas de cultivo e proteção à agricultura? Por que não investimenos na tecnologia desenvolvida por um professor brasileiro de biocombustíveis, que daria liberdade de energia elétrica, de gás encanado, de combustivel e produção de fertilizante dentro da propriedade em qualquer “fundão perdido deste país”? Por que não investimeos na liberdade de produzir álcool,e açúcar (principalmente álcool) em propriedades pequenas, alavancando e aumentando a renda da agricultura familiar e dando autonomia ao país com mais de um  combustível renovável. Poderíamos ter uma frota e uma indústria autonôma e nacional só baseada em biodiesel e álcool combustível. Se não o fizemos, se nos acovardamos, se seguimos por caminhos errados e se não reconhecemos que tudo isto só teve um único culpado, nós mesmos (porque não existia nada que não podíamos alterar, combater ou rever), continuaremos no erro. E pior, acusando os outros pelas noissas falhas. Abs. 

  2. Rita Lama

    19 de agosto de 2016 3:16 pm

    Agrotóxicos garantem grandes lucros

    A agroindústria baseia-se principalmente nos Organismos Geneticamente Modificados – OGMs ou apenas GMs – que são resistentes ao mais perigoso agrotóxico existente:  o glifosato.

    O glifosato (N-(fosfonometil glicina, C3H8NO5P) é um herbicida sistêmico não seletivo (desenvolvido para matar mato, mata qualquer tipo de planta) que afeta diretamente a microbiota (diversidade biológica) do solo – tanto sua atividade quanto sua composição.  É um conhecido agente inflamatório e cancerígeno que desequilibra o sistema endócrino (mimetiza certos hormônios), sendo tóxico à mitocôndria e tendo sido ligado a defeitos de nascença.  Os consumidores – todos que se alimentam de produtos advindos de fazendas que fazem uso de sementes GMs e glifosato/RoundUp – se envenenam e eventualmente adquirem as chamadas ‘doenças modernas’ ou doenças imunológicas:  problemas digestivos, câncer doenças degenerativas, neurológicas, alergias (problemas de pele e pulmonares, como asma), etc..

    Além disso, em sua decomposição (por combustão), glifosato libera monóxido de carbono, óxidos de fósforo e óxidos de azoto, perigosos poluentes atmosféricos.

    O glifosato é o principal agente do herbicida RoundUp, da Monsanto, a mais poderosa firma produtora de agrotóxicos do mundo, que produziu, ao lado da firma Dow Chemical, o condenado Agente Laranja/dioxina, desfolhador usado pelos EUA na Guerra do Vietnam  (1961-1971), tendo glifosato como um de seus ingredientes mortais.  80 milhões de litros foram usados em mais de 20% da área florestal e das terras agrícolas do Vietnam, destruindo seu sistema ecológico e afetando cerca de 5 milhões de pessoas, causando mais de 400.000 mortes, mais de 1 milhão de deficientes físicos, e problemas genéticos que persistem;  alarmantes níveis de dioxina estão presentes no solo e na água até hoje, contaminando os alimentos.

    A Monsanto nega os efeitos negativos do RoundUp e age para evitar que sejam conhecidos – em 2012, uma pesquisa francesa publicada pela Elsevier demonstrando os efeitos cancerígenos do glifosato foi retirada de circulação pela Monsanto.  Essa pesquisa foi republicada em 2015 pelo jornal Environmental Sciences Europe).  A Monsanto e outras firmas produtoras de agrotóxicos semelhantes já foram pegas planejando pesquisas ilícitas para ‘mostrar’ que glifosato é seguro;  todavia, não têm sido capazes de esconder a verdade…

    Mais de 40 países já proibiram o uso de sementes GMs e de glifosato para defender a saúde de sua população:  Argélia (desde 2000) e Madagascar (desde 2002) na África;  Turquia, Arábia Saudita, Quirguistão, Butão, Sri Lanka e China na Ásia;  México, Belize, Peru, Equador e Venezuela nas Américas;  Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte, Alemanha, França, Holanda, Malta, Chipre, Grécia, Bulgária, Rússia, Sérvia, Croácia, Itália, Dinamarca, Hungria, Moldova, Letônia, Lituânia, Áustria, Polônia, Eslovênia, Azerbaijão, Bósnia e Herzegovina, Luxemburgo, Ucrânia (embora haja contaminação de GM no país), Noruega e Suíça, na Europa.

    Por que, mesmo sabendo dos danos ambientais e à saúde que causa, os maiores agricultores dos países condescendentes ainda usam RoundUp?

    Usando sementes GMs, que são resistentes ao glifosato/RoundUp, os grandes agricultores podem pulverizar a plantação para matar o mato e obter, assim, uma colheita gigantesca e MUITO LUCRO!!!  É o LUCRO, portanto, que está por trás do uso indiscriminado de agrotóxicos.

  3. Jofran Oliva

    19 de agosto de 2016 10:39 pm

    O poder de fogo das multinacionais. . .

    O poder de fogo das multinacionais de agrotóxicos no Brasil, também conhecidas como “veneneiras” é muito forte, e tem a defendê-las a ANDEF (Associação Nacional dos Defensivos Agrícolas) que deveriam ser a primeira a encampar a luta pelo emprego do MIP (Manejo Integrado de Pragas). Essa prática que já é conhecida há mais de cinco décadas, prevê o uso dos agrotóxicos (inseticidas e fungicidas) em menos vezes, e de maneira a afetar o mínimo possível o equilíbrio biológico dentro das  próprias lavouras. Quanto às plantas daninhas, é possível um bom controle só com o uso de uma rotação de culturas bem feita, essa prática é conhecida desde antes de Cristo e era empregada pelos romanos e ibéricos segundo o historiador Plínio o Velho. Programa de MIP desenvolvido pela EMATER-PR em áreas modelo em todo o estado do Paraná levaram a uma redução de cerca de 50% no número de aplicações de agrotóxicos em lavouras de soja, de 7 para 3,5, sem perda de produtividade. Infelizmente o Ministério da Agricultura não tem nenhum programa nesse sentido. O Brasil é realmente o PARAÍSO DOS AGROTÓXICOS.

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