O uso do Boletim Focus como balizador econômico não apenas levanta conflitos de interesse como também induz a erros de direcionamento da política econômica, segundo análise do Conselho Regional de Economia da 2ª Região – SP (Corecon-SP)
Embora o boletim Focus tenha sua importância, ao afetar as deliberações do Banco Central sobre a taxa básica de juros, o Corecom lembra que o documento “não expressa a opinião do BC como muitos empresários e parte significativa do público em geral são levados a crer, apenas é tabulado e divulgado por ele”.
Além de carregar a percepção das instituições participantes entrevistadas, é preciso ter em vista que o boletim “carrega o viés de interesse dos respondentes, majoritariamente instituições financeiras, que objetivam maximizar seus retornos, como por meio de aplicações com taxa de juros altas e baixo risco”.
“Ressalte-se que os Títulos Públicos estão entre os principais destinos das aplicações dessas instituições financeiras e que, além de terem o menor risco do mercado brasileiro e elevada liquidez possuem suas remunerações atreladas à taxa Selic. Logo, as pressões por mais aumentos da já elevada taxa Selic, a partir das expectativas tabuladas no Boletim Focus, por si só, já denotam um conflito de interesses”, diz o documento.
Erros de interpretação
Outro ponto de destaque é que os agentes econômicos têm sido levados a erros de interpretação e direcionamento de suas decisões devido aos recorrentes deslizes nas projeções do Focus.
“Considerando o primeiro e o último Relatório Focus divulgados em 2024, as estimativas variaram de 3,9% para 4,9% no IPCA; de 1,59% para 3,49% no PIB; de R$ 5,00 para R$ 6,00 no dólar; e de 9% a.a. para 11,75% a.a. na Selic. A variação entre um relatório e outro indica expressivos desacertos nas previsões”, ressalta o Corecon-SP.
A visão é de que as estimativas do mercado revelam mais desejos do que projeções fundamentadas sobre o que realmente se acredita que ocorrerá.
“Há um incentivo intrínseco, quase sem risco, de grande parte dos respondentes em superestimar a inflação, com o objetivo de pressionar pela manutenção de elevada taxa Selic e, consequentemente, assegurar juros reais mais elevados na economia brasileira e garantir alta rentabilidade nas suas operações financeiras e nos seus fundos administrados”, afirma.
Segundo o Corecon-SP, como está hoje, o Focus impacta as expectativas de forma positiva e negativa, mas sempre com o viés interpretativo do mercado financeiro, que tem uma presença exagerada na composição da amostra.
“Empresários que investiriam na economia real tornam-se mais refratários, o que afeta o crescimento econômico, os investimentos produtivos, a geração de empregos e a própria competitividade sistêmica brasileira. Quase todos perdem, pela ausência de diversidade de agentes econômicos respondentes, diante do desequilíbrio decorrente da amostra que origina o levantamento”, explica.
Fúlvio Marino Negro
9 de abril de 2025 11:48 amCorreto, e a partir dos mesmos argumentos, é preciso também reestudar a composição do conselho Monetário Nacional.
Marcos
9 de abril de 2025 11:43 pmNão sou economista mas, fica uma pergunta. Quando comparamos as projeções do boletim focus e o real resultado do período, como por exemplo a inflação, temos uma convergencia dos números? Pergunto isso porque a inflação depende de um número gigantesco de variaveis que vão além dos agentes economicos do mercado financeiro.
Vanderlito Alves de Melo
9 de abril de 2025 3:26 pmMuita oportuna, coerente e bem elaborada, às colocações e comentários do CORECON-SP. Decisões do Comitê do BACEN têm sido muito mais favoráveis ao “Mercado financeiro”, perante ao conjunto dos demais setores que integram à Economia.
Marcos
9 de abril de 2025 11:44 pmNão sou economista mas, fica uma pergunta. Quando comparamos as projeções do boletim focus e o real resultado do período, como por exemplo a inflação, temos uma convergencia dos números? Pergunto isso porque a inflação depende de um número gigantesco de variaveis que vão além dos agentes economicos do mercado financeiro.