1 de julho de 2026

As 4 engrenagens que tornam o crédito no Brasil um agente de empobrecimento

Do uso da poupança popular ao consignado do BPC, uma radiografia de um sistema que empobrece enquanto diz modernizar.
Foto de Mikhail Nilov via pexels.com

1. Sistema financeiro brasileiro prioriza lucros bancários em detrimento do desenvolvimento econômico, impactando famílias com altas taxas de juros e serviços caros.

2. Poupança de baixa renda financia setores lucrativos, como crédito caro, enquanto benefícios sociais são usados como garantia para empréstimos consignados.

3. Juros altos no Brasil não freiam consumo, mas beneficiam mercado financeiro, gerando endividamento recorde e transferência de riqueza da base para o topo.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Esta é a oitava reportagem da série Por Dentro do Sistema Financeiro, uma parceria entre o Jornal GGN e a Contraf-CUT que busca analisar por dentro do Sistema Financeiro Nacional

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Se você já abriu a fatura do cartão, tentou financiar um eletrodoméstico ou entrou no cheque especial e teve a impressão de que o sistema financeiro está sempre contra você, essa percepção não é um delírio, mas a consequência de um modelo construído ao longo de décadas para beneficiar quem já está no topo e transferir riscos e custos para o resto da população.

Nas últimas décadas, o crédito deixou de ser um instrumento de desenvolvimento e passou a funcionar prioritariamente como uma engrenagem de lucro do setor financeiro.

Assim, produtos como cartão de crédito, cheque especial, empréstimos, financiamento, que deveriam apoiar a vida econômica da população acabaram se tornando mecanismos de extração de renda.

O resultado é um país onde famílias pagam caro para acessar serviços básicos, enquanto bancos operam com margens entre as maiores do mundo. E alguns fatores ajudam a explicar por que o Brasil é, hoje, um dos países onde o crédito mais empobrece.

Como a Poupança dos Pobres Financia o Lucro dos Ricos

A função básica do crédito deveria ser simples: pegar o dinheiro de quem quer guardar, emprestar para quem precisa e movimentar a economia real. No Brasil, essa lógica foi completamente distorcida.

O atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, chamou atenção recentemente para um mecanismo silencioso: a poupança funciona como um “Robin Hood às avessas”.

O sistema opera assim:

  • Milhões de brasileiros de baixa renda deixam o dinheiro na poupança, que paga pouco.
  • Esse dinheiro barato é utilizado pelos bancos para financiar setores que têm alta capacidade de pagamento, inclusive os mais ricos.

O spread médio está acima de 20 pontos percentuais, segundo o Banco Central. Isso significa que, enquanto o banco paga quase nada ao poupador, cobra juros altíssimos de quem toma crédito.

O FGTS, por exemplo, foi sistematicamente transformado de uma poupança para a segurança do trabalhador em um produto financeiro.

Sob os governos de Temer e Bolsonaro, a liberação de saques e a permissão de empréstimos com garantia do fundo serviram para aumentar o volume de crédito e os lucros dos bancos, sempre colocando o interesse do mercado acima do objetivo original do fundo.

Crédito às custas do endividamento

É preciso ter em vista que, embora o acesso a cartões de crédito seja positivo quando se fala em inclusão financeira, seu potencial em aumentar o nível de endividamento não pode ser desconsiderado.

Uma pesquisa elaborada pelo próprio Banco Central em 2023 lembra que o maior acesso a cartões de crédito, embora positivo do ponto de vista da inclusão financeira, também merece atenção por seu potencial de aumentar o nível de endividamento das famílias.

“Quando o cliente deixa de pagar o valor total da fatura do cartão, o valor não pago se torna uma modalidade de empréstimo, chamada rotativo do cartão de crédito. Essa é uma das operações de crédito com maiores taxas de inadimplência e custo no mercado”, lembra a autoridade monetária.

O gráfico abaixo mostra como o endividamento das pessoas físicas no cartão de crédito aumentou ao longo do período entre junho de 2019 e 2022 – sendo que o indicador mais expressivo fica com o salto de R$ 14,3 bilhões para R$ 74,1 bilhões no saldo devedor registrado pelas fintechs, tendo em vista a facilidade em se obter cartões de crédito por meio dos bancos eletrônicos em relação às instituições tradicionais.

Descrição:
G1 – Bancos públicos e os três maiores bancos privados.
G2 – Demais bancos, à exceção daqueles que apresentam modelo totalmente digital de operação, e sociedades de crédito,financiamento e investimento (“financeiras”), incluindo aquelas ligadas a empresas do ramo varejista e que emitem cartões vinculados às suas redes de lojas.
G3 – Instituições financeiras que operam predominantemente com modelo digital, seja por meio de licença bancária ou por meio de um conglomerado que inclua instituições não bancárias e emule os serviços de bancos, sociedades de crédito e instituições de pagamento.
G4 Bancos cooperativos e cooperativas singulares.
Fonte: Banco Central do Brasil

Por que Juros Altos Não Freiam o Consumo no Brasil

O discurso clássico de política monetária diz que juros altos servem para esfriar a economia e segurar a inflação.

Na prática, no Brasil, o mecanismo funciona de uma forma muito específica, e com efeitos entre pessoas físicas e empresas.

Quando a Selic sobe, o país atrai capital estrangeiro em busca de rentabilidade. Esses dólares entrando fortalecem o Real. É essa valorização do câmbio — e não a queda do consumo — que puxa a inflação para baixo.

Ou seja:

  • A Selic sobe.
  • O Real se valoriza.
  • Importados ficam mais baratos.
  • A inflação cai porque o câmbio caiu, e não porque as famílias reduziram consumo.

Esse efeito cria um paradoxo incômodo: a Selic alta pode até aumentar o poder de compra ao baratear produtos importados. É o oposto do que o Banco Central costuma afirmar em suas comunicações.

Além disso, é preciso ter em vista que uma taxa de juros elevada também compromete o fluxo de investimentos produtivos, com efeito negativo na geração de emprego via encarecimento do crédito – algo criticado inclusive pelo empresariado.

“A Selic tem freado a economia muito além do necessário, uma vez que a inflação está em clara trajetória de queda. A taxa de juros atual traz custos desnecessários, ameaçando o mercado de trabalho e, por consequência, o bem-estar da população. Além disso, o Brasil segue com a segunda maior taxa de juros real do mundo, penalizando duramente o setor produtivo”, afirmou o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, em comunicado divulgado após a reunião em que o Copom manteve os juros em 15% por mais uma reunião.

Uma pesquisa da CNI mostra que 80% das empresas industriais apontam a taxa de juros elevada como a principal dificuldade para a tomada de crédito de curto prazo. No caso de acesso a financiamento de longo prazo, 71% dos empresários apontam a Selic como principal barreira.

O debate revela uma política monetária muito mais alinhada ao fluxo internacional de capitais do que ao desenvolvimento interno. A Selic não atua como ferramenta de “freio”, mas como um sinal para o mercado global.

Benefícios de Crianças Viram Efeito Colateral

Entre todos os problemas do sistema, talvez nenhum seja tão grave quanto o uso de benefícios sociais — inclusive de crianças — como garantia para empréstimos consignados.

O caso de Clara, 7 anos, portadora de síndrome de Down, é emblemático. Seu benefício do BPC foi usado como garantia de um empréstimo. Uma fotografia no celular substituiu uma assinatura que ela não poderia dar. A dívida passou a ser descontada direto de seu benefício.

Ela não é exceção. É efeito de um sistema construído ao longo de 15 anos:

  • Ferramentas digitais de contratação acelerada
  • Portabilidade automática
  • Open finance
  • Normas que favorecem risco zero para os bancos

Tudo isso permitiu transformar a renda mínima de sobrevivência em ativo financeiro.

E uma série de dados oficiais evidenciam como a vulnerabilidade virou uma oportunidade de negócio – para o setor financeiro:

  • R$ 12 bilhões em empréstimos têm como garantia benefícios infantis.
  • Cerca de R$ 20 bilhões são consignados apoiados em programas assistenciais.
  • 2,6 milhões de beneficiários do BPC têm consignados.
  • Um em cada seis beneficiários do Bolsa Família contraiu esse tipo de crédito.

A Conta da Dívida das Famílias

Os bancos – sejam eles instituições tradicionais ou as chamadas fintechs – se apresentam como modernos, tecnológicos e acessíveis.

Mas os resultados dessa “modernização” são:

  • Endividamento recorde: famílias comprometem 49,1% da renda anual.
  • Comprometimento mensal histórico: 28,8% da renda vai para dívidas.
  • Juros de 58,7% ao ano no crédito livre.
  • Inadimplência em 4%, a maior em três anos.
  • Spread bancário de 20,8 pontos percentuais, um dos maiores do planeta.

Enquanto isso, cada ponto da Selic custa ao governo R$ 54 bilhões por ano.

Com a economia gerada pela redução de apenas 2 pontos percentuais, seria possível dobrar todo o investimento federal em educação. Entretanto, o modelo transfere recursos públicos para remunerar o capital financeiro — e essa decisão política custa caro.

A economia real é quem sustenta o sistema que se apresenta como moderno, mas entrega empobrecimento e estagnação.

Para Quem o Crédito Trabalha?

Os quatro mecanismos — poupança regressiva, Selic paradoxal, uso de benefícios sociais como colateral e juros que drenam renda — mostram que o sistema financeiro brasileiro funciona exatamente como foi desenhado: para transferir riqueza da base da sociedade para o topo.

A pergunta, portanto, não é técnica. É política:

O crédito existe para desenvolver o país ou para remunerar o mercado?

Leia abaixo as demais reportagens da série

Por dentro do sistema financeiro: A ‘guerra fiscal’ entre bancos e fintechs

Dossiê Fintechs: as manobras cambiais no Banco Central de Campos Neto

Dossiê Fintechs: ‘Porta giratória’ como conexão lucrativa

Dossiê Fintechs: Questões por trás do movimento de porta giratória

Dossiê Fintechs: Banco Central e Receita estreitam controles sobre operações das fintechs

Fintechs não cumpriram a promessa de trazer maior competitividade e juros menores

Fintechs: da promessa de modernização à rota para lavagem de dinheiro

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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