Sugerido por Gunter Zibell – SP
Da Superinteressante
Pronto: já temos a maior bolha imobiliária da história
Alexandre Versignassi
A bolha mais violenta de todos os tempos foi a do Japão. Entre 1985 e 1991 os preços dos imóveis subiram 180%, em média, nas maiores cidades de lá. Quase uma triplicada em seis anos. Mas agora já era. Deixamos os japoneses para trás: em São Paulo, foram precisamente 181% de aumento, em seis anos também – de 2008 para cá. No Rio, 225%. Chupa, Japão.
Mas falando sério: tem quem ache que isso nem é uma bolha, só um ajuste natural. Faz sentido, até: nenhum país que viveu uma bolha para valer tinha acabado de sair de quase uma década de hiperinflação, estagnação e sarneyzação – um limbo econômico que manteve o valor dos nossos imóveis bem baixos em relação aos dos “países nobres”, só pra usar o termo que o mercado imobliário aplica a bairros, e que entrou para o léxico de todo mundo. Levando isso em conta, simplesmente comparar nosso aumento percentual de hoje com o do Japão dos anos 80 acaba passando uma ideia imprecisa do que é uma bolha de gente grande.
E uma bolha de gente grande é o seguinte: quando o preço dos imóveis no Japão estava só começando a inflar, em 1985, o metro quadrado em Tóquio já custava R$ 28 mil, em valores de hoje. Bem mais que o do Leblon (R$ 20 mil) ou o da Vila Nova Conceição, o mais caro de São Paulo hoje (R$ 14 mil). Isso porque o Japão já tinha tido seus anos de crescimento chinês, e o PIB continuava bombando na faixa de 4%, 5% ao ano. De quebra, o país via sua renda média por habitante superar a dos EUA, roçando no equivalente a R$ 5 mil por mês. Nisso, o yene começou a valorizar demais. Quando a moeda valoriza, os exportadores se trumbicam, já que os produtos que eles vendem acabam mais caros no exterior. O governo, então, passou a imprimir cada vez mais yenes para ver se o preço da moeda baixava. E forçou a entrada desse dinheiro novo na praça mantendo os juros reais em 0% – o juro nominal era de 2,5%, mas a inflação também. Então o juro para valer era zero mesmo. Com crédito sobrando, o mercado imobiliário pegou fogo.
E seis anos depois o metro quadrado de Tóquio estava batendo nos R$ 80 mil. R$ 4 milhões por qualquer biboca de 50 metros quadrados… Isso na média. Os picos eram bem mais surreais. No distrito de Ginza, a Oscar Freire deles, chegaram a negociar imóveis comerciais por R$ 2 milhões o metro quadrado. O metro quadrado. Foi nessa época que apareceu aquela lenda urbana, a de que o terreno do Palácio Imperial valia mais do que todos os imóveis da Califórnia (o que devia dar uns três Brasis daquela época…). Valia mesmo. Aí estava claro: os preços japoneses tinham violado de vez a realidade. Imobiliária Salvador Dalí.
Nossos preços de agora também têm flertado com o surrealismo. Quando a gente aqui na Super fez uma matéria de capa sobre a obesidade dos preços no Brasil, em abril de 2013, o apartamento mais caro do país era uma cobertura quadriplex nos Jardins – um daqueles palácios suspensos com 900 vagas na garagem, heliponto e o Chuck Norris de segurança. Custava R$ 35 milhões. Agora o buraco está mais em cima: Paula Lavigne colocou o apartamento em que ela morou com o Caetano, no fofo edifício JK, em Ipanema, por R$ 37 milhões. Como a apto tem 750 m2, dá R$ 49 mil o metro quadrado. E olha só: ainda assim é menos que o m2 da Tóquio dos anos 80. Também é bem menos que outro apartamento na orla de Ipanema, anunciado neste ano por R$ 66 milhões. Este, de 600 m2, acaba batendo a média do auge da bolha japonesa – já que custa quase R$ 100 mil o metro quadrado. Recorde histórico, mas ainda uma migalha perto dos preços mais altos do Japão de 30 anos atrás.
Quando saiu a notícia desse apartamento sendo vendido por R$ 66 milhões, aliás, uma comparação recorrente foi dizer que “por esse preço daria para comprar um apartamento perto do Hyde Park, em Londres”. Big shit: a orla Ipanema-Leblon é, arguably, a região urbana mais bonita do mundo – sem falar que o Rio tem um PIB bem razoável: US$ 130 bilhões, igual ao de Hamburgo, na Alemanha.
Então, sim, uma parte dos nossos preços surreais é só uma adequação à própria realidade. Mas isso não significa que a bolha não exista.
E a maior evidência dela não está nos Jardins ou no Leblon. Está no fato de o milhão de reais ter virado a unidade básica da economia imobiliária. Para entender o que isso tem de ridículo, não precisa levar em conta que a renda média no Brasil é de R$ 1.500. Todo mundo sabe que a gente vive num regime quase escravocrata. O que impressiona é que nem os senhores de escravos têm como lidar com esses preços. A renda média do 1% mais rico do país é de R$ 18 mil. Um contra-cheque confortável para os padrões nacionais, óbvio, mas mesmo assim longe do suficiente para comprar nossas bibocas de mais de um milhão de reais sem apertar o cinto. Aí não tem jeito: ou você é do 0,01% mais endinheirado ou está fora desse show do milhão. Pior: quem mais ajuda a inflar nossa bolha é justamente parte do 0,01%: investidores que compram imóveis de baciada para revender depois. Ok. É do jogo: o mercado tem de ser livre mesmo. Mas, num país em que o dinheiro grosso não está nem no topo da pirâmide, mas numa agulha fincada nesse topo, esse jogo é mais arriscado do que parece. Trata-se simplesmente de um mercado pequeno demais para sustentar a alta. E quem diz não sou eu, mas o Robert Shiller, que ganhou o Nobel de economia justamente por ter previsto a bolha imobiliária de 2006 nos EUA (uma mais suave que aquela do Japão, mas que levaria à crise sistêmica de 2008): “Os preços só sobem. Todo mês”, Shiller disse recentemente, sobre o nosso mercado imobiliário. “O que justifica isso, fora o puro entusiasmo? Era exatamente o que eu dizia nos Estados Unidos em 2005. Não quero criar pânico, mas não custa avisar.” Não, não custa.
rafaelbianchini
23 de janeiro de 2014 11:17 am“Bolha”
Duas obervações:
Bolhas são infladas por crédito e, por essa razão, geram crises sistêmica. Esse segmento com preços de bolha não depende de crédito. Então, se e quando desinflarem, não haverá crise bancária.
Segmentos de ativos sem mercado líquido, como artes e jogadores de futebol, são tradicionais meios de lavar dinheiro. Outro meio de se lavar dinheiro é o mercado de imóveis de alto padrão. Isso é mais provável que bolha, um meio de legalizar dinheiro sonegado e internalizar aplicações no exterior.
evandro condé de lima
23 de janeiro de 2014 11:37 amEu já ouvi dizer que bom
Eu já ouvi dizer que bom método de lavagem é boi.
sabetudo
23 de janeiro de 2014 2:37 pmLavagem com Boi?
E com
Lavagem com Boi?
E com embrião de boi?
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI57598-15259,00.html
Quem vai atestar que o embrião foi pra onde ele foi e que vale isso mesmo?
Nicolas Crabbé
23 de janeiro de 2014 2:08 pmAumento generalizado
Não são só os imóveis de alto padrão cujo preço está subindo; a alta é generalizada, desde o apartamento de 2 quartos e 55 m2 até as mansões ou as coberturas com 900 m2 nos bairros mais chiques de cada cidade.
Acredito que os preços estão totalmente fora da realidade para o nível de renda que existe no Brasil.
luiz valentim
23 de janeiro de 2014 11:20 amÉ pecado analítico a exceção e a ínfima parte definir o todo
Sim houve uma valorização imobiliária devido a crédito e programa do Governo , nunca na história despipaís construiu tanta moradia para o povo.
Quê isso tem a ver?
Ora, quem vende terreno?
Quem constroe imoveis ,? quem produz e/ou vende material de construção?
R. É o pessoal que compra imóveis a beira mar , imóveis nas avenidas badaladas e lojas de shopping(outro boom ancorado no consumo da classe C))
A situação atual é de acomodação de preços dos imóveis da classe média , mas ainda tem os imoveis badalados que segue especulação comandada pelos novos ricos, simm nunca surgiu tanto novos ricos nestipaís.
Não devemos ter tanta atenção ao imóvel do Caetano ou de outro famoso.(aí tá embutido valor cultural, sim imóvel que foi de famoso e popular tem acréscimo em reais sim senhor.
Tudo isso o resultado é uma acomodação geral de alta abaixo num pouso suave. O resto é especulação jornalística e mania de citar pontos fora da curva como idéia geral.
Mar da Silva
23 de janeiro de 2014 12:03 pmO importante é fazer a
O importante é fazer a relação entre a suposta bolha imobiliária e o efeito de seu estouro na economia.
Motta Araujo
23 de janeiro de 2014 12:13 pmEsta bolha é obviamente
Esta bolha é obviamente inflada por credito, nunca se financiou tanto imovel no Brasil para as classes C e B.
No mercado classe A não há bolha, nos Jardins em São Paulo existem 54 casas à venda, algumas há dez anos, não se vende e nem o dono baixa o preço.
Paulo F.
23 de janeiro de 2014 12:41 pmNunca antes
Pobre consumindo é uma draga não? Votando então….
Bons eram os tempos do Império quando para votar tinha que ter renda….
Nicolas Crabbé
23 de janeiro de 2014 2:15 pmVide os EUA
Se você for analisar a bolha imobiliária nos EUA, que foi baseada no endividamento de pessoas que não tinham a menor condição de pagar seus imóveis – sem contar as sacanagens que instituições financeiras fizeram, dando financiamento sem entrada, sem isso e sem aquilo, só para atrair os incautos – você verá que uma alta de preços baseada no endividamento das camadas mais pobres da população geralmente acaba mal.
Não se trata de juizo de valor ou elitismo por achar que pobre não tem direito a consumir, mas se trata simplesmente de um comparativo entre a renda disponível e o peso do financiamento. Se esse equilíbrio não existir a situação se torna insustentável.
Paulo F.
23 de janeiro de 2014 3:04 pmTeoria do copo meio cheio
pessoas que não tinham a menor condição de pagar seus imóveis
Não é bem assim. Tinham sim. Caso contrario não seria concedido o 1º financiamento. O problema é quando o imóvel que foi financiado por U$ 400k passou a valer U$ 750k e gananciosamente o financiante concedeu ao financiado a diferença e esta diferença de U$350k , invariavelmente, foi parar no consumo. Enquanto ninguem cobrava a conta tudo ok. Mas quando a recessão é decretada por aqueles mesmos que estimularm o consumo (aqueles U$350k do exemplo) pois “a inflação esta alta” foi tudo a breca. O imóvel que valia U$750k passou a valer U$380k, e pior devido a retração do mercado boa parte dos financiados perdeu o emprego. Como o banco não quer carro, casa ou freezer, o que lhe interessa é o dinheiro, o que sucedeu foi ainda mais perverso, aprofundou-se a crise pois inundou-se mais ainda o mercado por meio de leilões de repossuidos. Resultado o imóvel que valia U$ 400k lá no início caiu ainda mais de preço e pode ser comprado em leilão tranquilamente por U$ 300k. (os números são meramente ilustrativos, a perversidade não).
Alias, o processo de emprestar dinheiro a quem sabidamente não tem capacidade financeira para pagamento é prática corrente, pois a legislação permite que se tome até o último centavo do devedor. Ainda bem que a escravidão por dívida foi banida por boa parte do mundo dito civilizado, senão os nº s fariam corar qualquer patrício romano.
Tanto quem empresta como quem toma dinheiro emprestado tem responsabilidades. Mas o tratamento dado a ambos ainda é assimétrico.
Ramalho12
23 de janeiro de 2014 12:15 pmEsta Bolha é Crédito-Dependente
A bolha imobiliária que ora ataca a economia brasileira é potencialmente perigosa e causa, ou causará, prejuízos consideráveis – que poderiam ser evitados, pois bolha especulativa não é fatalidade – a quase todos, de compradores e locatários de imóvel, ao Estado, passando por contribuintes, sociedade, governo, comércio etc. Pode pôr em risco a economia como um todo, mas pode ser contida.
Há em curso no Brasil um processo de aumento desenfreado e insustentável dos preços dos imóveis novos e usados, tanto para venda, quanto para locação – chamado de bolha imobiliária. Pesquisando-se a Internet por intermédio do Google, e usando-se como argumento de busca “bolha imobiliária Brasil”, chega-se a inúmeras entradas sobre o assunto – 289.000 resultados mais precisamente, isto, hoje, 16/09/2012. Ora, não haveria tantas entradas se não houvesse bolha especulativa imobiliária, e argumentar mais para mostrar a existência do fenômeno é perder tempo. Há uma bolha imobiliária no Brasil afetando os preços de venda e locação de imóveis novos e usados, ponto.
Até há pouco tempo atrás, o mercado imobiliário brasileiro estava praticamente parado, com demanda baixíssima. A favelização era crescente. Mesmo hoje, quando alguns dizem que a demanda aumentou fortemente, há, talvez como resquício da fase anterior, só no centro da cidade de São Paulo, por exemplo, um estoque de mais de 400.000 imóveis vazios (há mais imóveis vazios na cidade de São Paulo do que famílias sem moradia – http://www.cartacapital.com.br/sociedade/ha-mais-imoveis-vazios-do-que-f…). Com o advento da política habitacional do governo federal – financiamento de casa própria em prazos mais longos com juros mais baixos, propaganda em favor da aquisição da casa própria etc. – a demanda aumentou. A política habitacional seria, então, por ter provocado o aumento da demanda, a causa indireta da bolha imobiliária. Mas não é assim: a forma de implementação da política imobiliária, ela sim, e não a política em si, é a verdadeira causa indireta da bolha imobiliária.
O mercado é fortemente influenciado pelas políticas habitacionais governamentais: se o mercado imobiliário não for assistido pelo governo, como a experiência prova, sua produção míngua, o deficit habitacional aumenta e a favelização explode. Como o mercado por si só não atende as necessidades habitacionais da sociedade, os governos se veem obrigados a intervir, e tem sido assim desde há muito (BNH etc.). Neste momento, o mercado está a sofrer intervenção do governo federal, e, portanto, está sob regulação (ou controle) do governo. Embora seja uma intervenção “bondosa” – o governo fez aportar bilhões de reais ao mercado -, é uma intervenção. Não há, portanto, que se falar em lei da oferta e procura, como fazem alguns, para tentar justificar a explosão especulativa perpetrada a custa de recursos de milhões de poupadores em cadernetas de poupança (e, portanto, nesta acepção, recursos tão públicos quanto os impostos), afora outras fontes, para favorecer uns poucos especuladores. Há uma bolha especulativa cuja causa indireta é a forma de implementação da política habitacional do governo que inundou o mercado com dinheiro, e que não considerou o preço como critério para concessão de financiamento.
A sabedoria popular diz que “quem pariu Mateus que o embale”. Sob este primado, uma vez que é causador ainda que indireto da bolha imobiliária, cabe ao governo, por meio dos operadores da política habitacional, analisar, caso a caso, o preço do imóvel para a concessão de financiamento. Já existe protocolo regendo a concessão de financiamento, e, portanto, considerar o preço justo como mais um critério para a concessão de financiamento não chega a ser novidade. Haverá defensores da bolha, os poucos que ganham com ela em detrimento de muitos, mas têm de ser enfrentados, pois acabar com a bolha é absolutamente necessário e urgente, uma vez que este movimento especulativo é prejudicial a quase todos.
Dizem alguns, como se fosse coisa boa, que a bolha imobiliária brasileira demorará bastante para estourar – bolhas especulativas, como é o caso dessa bolha imobiliária, cedo ou tarde, estouram inevitavelmente, a exemplo das famosas “correntes” ou “pirâmides”. É como se estes dissessem: fique frio, aproveite este tempo bom enquanto pode. Ledo engano: se você não é especulador, corretor financeiro, corretor imobiliário, este tempo é ruim para você. A fase pré estouro da bolha que se está a viver prejudica os destinatários últimos das moradias – as famílias sem casa – e, também, o governo, o Estado e a sociedade em geral. Uns poucos, muito poucos se comparados aos prejudicados, são beneficiados por ela. Estes ganham bilhões com a bolha. Você (e eu) é um dos que dará seu rico dinheirinho a eles, agora, ou, se não agora, quando a bolha arrebentar.
As famílias que querem comprar casa para morar estão se defrontando com aumentos do preço dos imóveis em taxas que chegam a 100% em um ano. Na cidade de São Paulo, por exemplo, como testemunharam colegas comentaristas aqui mesmo no blog, há casos pornográficos como estes: apartamento de 52 m2 a R$ 750 mil (na planta!); apartamento de 42 m2 (6m x 7m) a R$ 350 mil (sem garagem), ou de 45 m2 (com garagem) a R$ 450 mil. Na cidade do Rio de Janeiro, sou testemunha de aumento de um imóvel usado na Ilha do Governador cujo preço, em cerca de uma ano, passou de R$ 80 mil para R$ 190 mil. Mas não é só na Ilha do Governador: em toda a cidade do Rio de Janeiro, os preços de venda dos imóveis explodiram, bem como os preços dos aluguéis, embora estes tenham crescido em menor proporção (mas, ainda assim, muito elevada).
Alguns dados e escolhas: a renda familiar mensal das classes E, D e C varia, tomadas em conjunto, de quase zero a R$ 6.220,00, segundo http://blog.thiagorodrigo.com.br/index.php/faixas-salariais-classe-social-abep-ibge; ou de quase zero a R$ 7.475,00, segundo http://g1.globo.com/economia/seu-dinheiro/noticia/2012/06/com-renda-de-classe-media-trabalhador-diz-que-so-faz-o-basico.html. As famílias, como consideradas nas definições das classes mencionadas, são supostas constituídas por quatro pessoas: pai, mãe e dois filhos (não são levados em conta idosos agregados à família). Vai-se considerar que a renda familiar das classes E, D e C vai até R$ 7.475,00. As classe E, D e C correspondem a 78% da população (http://www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2012/03/22/classe-c-passou-a-ser-maioria-da-populacao-brasileira-em-2011).
A política habitacional governamental tem por propósito, como se depreende dos discursos das autoridades, prover habitação decente às classes E, D e C, uma vez que membros delas foram empurrados para favelas, cortiços e ruas – de impressionar o depoimento de uma professora aposentada dado ao “Fantástico” em 09/09/2012, obrigada a viver nas ruas da cidade de São Paulo. Para tentar minorar o descalabro, o governo criou o programa “Minha Casa, Minha Vida”, afora outros programas pró casa própria terem sido melhorados, ou criados. O aumento abusivo dos preços dos imóveis, porém, esta a inviabilizar o atingimento do objetivo da política governamental de melhorar as condições habitacionais das classes populares. Ao contrário, tais condições podem piorar!
Dá para ver a que a política habitacional do governo está inviabilizada quando se faz a simulação do financiamento para compra da casa própria. Vejam-se os resultados da simulação de financiamento pela CEF – usando-se sítio dela – do imóvel de 42 m2 antes mencionado (R$ 350.000,00), supondo-se que o adquirente tenha renda familiar igual ao máximo da classe C (R$ 7.475,00) e tenha 32 anos de idade. Segundo a simulação, o adquirente teria de dar uma entrada de R$ 123.909,01, pagar prestações mensais de R$ 2.146,39 (bem suavemente decrescentes) e submeter-se a um prazo de financiamento de 420 meses (35 anos).
Fica evidente que, em condições normais, nenhuma família das classes E, D e C poderia comprar este imóvel minúsculo, de apenas 42 m2 (6m x 7m), pouco mais do que uma cela de presídio. Quem das classes E, D e C disporia de R$ 124 mil para dar de entrada? E, depois, qual família destas classes aguentaria pagar R$ 2,150 mil mensalmente, mais condomínio, IPTU, água, luz e gás? Ainda que o imóvel custasse “apenas” R$ 200 mil, o adquirente teria de dar de entrada, segundo uma nova simulação, R$ 22 mil, e arcar com prestações mensais de R$ 2,160 mil. Com tais preços, 78% da população brasileira está impedida de financiar a compra da casa própria (as classes C, D e E). Os destinatários últimos das moradias estão, claramente, portanto, sendo prejudicados pela bolha especulativa: se antes, um imóvel pequeno, popular, com dois quartos, custava de R$ 80 mil a R$ 120 mil, hoje começa, no mínimo em R$ 190 mil, sendo o limite superior infinito. Hoje, a política habitacional do governo é prejudicial às classes populares, com reflexos negativos nas demais classes. Trata-se do chamado tiro que está a sair pela culatra, infelizmente para todos nós.
O governo também está sendo prejudicado: programas de financiamento habitacional que deveriam melhorar as condições de habitação da maioria da população – classes E, D e C que constituem a base eleitoral do governo – estão sendo apropriados por especuladores e por compradores de alta renda. Assim, a bolha imobiliária impede que o governo atenda ao justo reclamo por acesso à moradia de sua principal base de sustentação, as classes populares, com evidentes prejuízos políticos. O objetivo governamental de promoção do desenvolvimento do país é, também, prejudicado pelo aumento abusivo dos preços dos itens – quanto mais caro o imóvel, menos imóveis são contratados e menor é o desenvolvimento. O controle da inflação é afetado, pois a bolha é fortemente inflacionária. Ademais disto, o crescimento artificial do custo da moradia drena recursos deprimindo o consumo familiar, o que reduz a arrecadação de impostos. A bolha é ruim para o governo e também para o comércio.
O Estado é prejudicado porque a precariedade habitacional é fator promotor de criminalidade, doença, formação educacional/profissional deficiente que impactam desfavoravelmente e estruturalmente o Estado, reduzindo-lhe persistentemente (20 anos ou mais, em razão das expectativas de duração dos financiamentos) a receita e aumentando-lhe os custos. Trata-se de efeito deletério que ultrapassa governos. A bolha é ruim para o Estado.
A sociedade contribuinte é prejudicada, pois é ela que mantém o Estado, e, quanto mais ineficiente ele for, maior é o ônus dos que efetivamente contribuem – e a sociedade contribuinte é, majoritariamente, a classe média, aquela mesma que, além de ver barrado seu acesso á casa própria, é onerada pela ineficiência aumentada do Estado, pelo aumento da inflação, isto sem se falar do aumento da favelização, criminalidade, doenças contagiosas etc. A bolha é ruim para a sociedade contribuinte, em especial, para a classe média.
Mas o pior virá depois: quando a bolha arrebentar, emergirá de uma só vez o prejuízo construído sorrateiramente por anos, causando hecatombe econômica formidável, como ensinou ao mundo a bolha especulativa americana, também de fundo imobiliário. Claro que, quanto mais demorar a explodir, maior tenderá a ser o prejuízo produzido pela bolha em sua fase recôndita, e, por conseguinte, tenderão a ser piores as consequências quando a roubalheira – e o termo não é forte, pois bolha especulativa é roubo – aflorar, e a conta tiver de ser paga em sua integralidade. Por mais paradoxal que pareça, s,e a bolha é inevitável, melhor que estoure logo, não depois.
A bolha explodirá quando os compradores, em quantidade estatisticamente significativa, não puderem mais pagar seus financiamentos e os agentes financiadores (CEF, BB e privados) não tiverem a quem repassar os imóveis, a esta altura valendo metade, um terço, um quinto dos valores artificialmente elevados de quando foram vendidos, e, mesmo assim, muito poucos podendo comprá-los – tal pode acontecer se, por exemplo, houver estremecimento econômico, estremecimento que será enormemente agravado pelo concomitante estouro da bolha. Nessa oportunidade, como se viu nos EUA, a conta será apresentada a nós, pois bancos não podem falir – assim, quem roubou, roubou, e cubramos nós o rombo. As perspectivas de risco, este sim sistêmico, são gravíssimas.
É muito prejuízo efetivo e potencial, mas há solução: a moralização pelo governo do mercado imobiliário, proibindo que agentes financeiros governamentais concedam empréstimos para a compra de imóveis cujos preços caracterizem especulação, cujos preços não sejam justos. Pode ser feita, precisa ser feita e é providência que tem de ser tomada com urgência.
Paulo F.
23 de janeiro de 2014 12:17 pmCerta Miopia
Não há propriamente uma bolha. Há um fenômeno chamado demanda reprimida. Durante três décadas houve demanda por imóveis. Mas era mais fácil agendar uma entrevista com sua santidade o Papa do que falar com o gerente da CEF acerca de um financiamento pelo SFH.
Junte-se a isso a especulação imobiliária; nas capitais, principalmente. Sim aquela velha história, tem-se 10 km lineares de loteamentos, com digamos 10 empreendimentos; começa-se a venda pelo mais distante, com infraestrutura ZERO. Nada de água, luz e esgoto; acesso? Geralmente precário. E aguarda-se o poder público agir sob a pressão dos incautos que compraram em 436 prestações seu terreninho. Não se absolve o poder público, pois geralmente planejamento urbano é duplamente ZERO, inexistente e quando o há é dominado exatamente por aqueles que não deveriam nem chegar perto. Desta forma quando forem comercializados os mais próximos da área central as margens de lucro estarão na baixa estratosfera.
Bem, ademais, quando se inicia um processo de restauração dos mecanismos de crédito, por meio de redução da burocracia e da adoção de juros em patamares pouco abaixo da usura, a represa arrebenta. E só não arrebentou antes, pois a sociedade é criativa em achar respostas naturalmente; basta procurar um cantinho em qualquer “comunidade” e ver o quanto este custa.
Agora os 0,01%, estão poucos se lixando para o que ocorre com a manada. Caso dê errado, sempre há uma forma de empurrar o prejuízo garganta abaixo da sociedade no velho e conhecido processo de privatiza-se o lucro e socializa-se o prejuízo. Basta sacar de um nome bunitinho (grafado assim mesmo) como: “garantir a sustentabilidade e credibilidade do sistema”, e lá vai a Viúva (e a patuleia junto) garantir que a Möet & Chandon não falte no andar de cima.
Chris
23 de janeiro de 2014 12:20 pmO artigo discorre bem sobre o
O artigo discorre bem sobre o assunto. Não precisa ser especialista para perceber que os preços dos imóveis estão irreais frente a renda das pessoas. Essa euforia é alimentada pelos grandes e eventos mas não tem como se sustentar depois disso, aí vem o prejuízo daqueles que embarcaram na onda dos especuladores.
GEORGE Vidipo
23 de janeiro de 2014 12:24 pmbolhas pelo mundo
Parece que o mercado segue um caminho: japão, eua, espanha, inglaterra, países arabes e agora o Brasil.
Zé Mané
23 de janeiro de 2014 12:37 pmEu queria que alguém publicasse alguns dados:
– quantos imóveis foram comprados para “investimento”, quantos são os investidores e qual é o total “investido”?
– quantos imóveis foram comprados para moradia mesmo, qual o comprometimento de renda médio dos compradores, qual é a empregabilidade desses compradores no longo prazo?
Bolha é credito sem renda ou investimento sem comprador e até agora o pessoal só fala do preço. Assim, não dá para saber em que pé a coisa está de verdade.
Leo V
23 de janeiro de 2014 2:37 pmexato!
exato!
Lionel Rupaud
23 de janeiro de 2014 3:14 pmCê pode ser Zé mas não é nada Mané!
O seu ponto é muito complexo para o QI de quem trabalha na Ed. Abril, lê a sua “produção”.
Mas é isso aí.
1 – o mercado imobiliário é muito “local”, há realidades muito diferenciadas. Por exemplo atualmente ocorrem quedas de preços em algumas capitais (Manaus p.ex). Nosso AA citou um outro caso em São Paulo.
2 – Já houve uma correção forte em São Paulo em 2011, bem visível quando saíram os balanços das construtoras de 2011, 2012 e certamente ainda 2013. Quem comprou na planta em 2008-9-10 para ganhar com o aumento dos preços daquele período, perdeu bastante em 2012-13 quando recebeu o imóvel. Depois desta fase a compra para investimento diminui muito.
3 – os indicadores do setor: velocidade de vendas e comprometimento da renda familiar pioraram em relação a 2008-9-10, mas pouco, e de fato voltaram aos níveis históricos.
Agora se olhar a situação pontual, p.ex. zona Sul do Rio, dá para entender que falta de terrenos disponíveis vs demanda aquecida (Rio é o centro da nossa industria de Óleo e Gás em plena expansão) geram um aquecimento que nada tem de bolha imobiliária.
Marcelo A. O.
24 de janeiro de 2014 11:34 amDados sobre a bolha imobiliária
Os dados que você gostaria de receber especificamente são muito improváveis de se serem conseguidos, mas muitos outros dados sobre a bolha imobiliária você poderá ver acessando o link abaixo.
Um abraço!
http://www.bolhaimobiliaria.com/
Marcelo A. O.
23 de janeiro de 2014 2:00 pmÉ flagrante a existência de uma bolha imobiliária no Brasil
É flagrante a existência de uma bolha imobiliária no Brasil.
Há uma distorção gritante entre o aumento dos preços dos imóveis e o aumento da renda da população.
Conheço um apartamento de dois quartos com suite, 45 m² de “área de vassoura” (60m² total com 1 vaga de garagem), que custava R$ 72.000,00 em maio de 2007 e hoje a dona dele quer vendê-lo R$ 250.000,00. Entretanto, a renda dela, a dona, só subiu 64% de lá pra cá. Ou seja, hoje, ela mesma teria dificuldade de comprar o seu próprio apartamento. O que se mostra, no mínimo, uma situação descompassada.
Ademais, é entendimento comum, que o valor do aluguel efetivamente pago, dentro de um contrato atualizado, é um parâmetro bastante lógico para se calcular o preço de um imóvel. Esse percentual do valor do aluguel em relação ao valor do imóvel gira em média entre 0,5% até 0,8%, dependendo do ímóvel e da sua localização. Lembrando que 0,5% equivale mais ou menos ao rendimento da caderneta de poupança, que é o investimento mais simples e de retorno mais baixo.
Bom, no caso do apartamento referido acima, que é um apartamento “tipo”, no mesmo prédio dele, um apartamento igual está alugado há menos de 1 ano por R$ 750,00, ( existem outros apartamentos no prédio alugados por um valor abaixo disto) sendo que a proprietária queria inicialmente R$ 800,00 de aluguel, mais depois de uns 8 meses fechado, com ela tendo que arcar com as despesas de condomínio e outras, para não ter mais prejuízo, aceitou R$ 750,00 pelo aluguel.
Sendo assim, se o mercado está disposto a pagar R$ 750,00 de aluguel, e este valor correspondendo a 0,5% do valor que seria lógico, real do imóvel, este apartamento deve valer de fato R$ 150.000,00.
Este caso acima não trata de um situação rara, ao contrário, é a uma coisa comum nesses tempos de bolha imobiliária.
São imóveis avaliados descabidamente por preços irreais, que depois de muito tempo à venda, sem interessados, postos para alugar, conseguem valor de aluguel efetivo, muito inferior a 0,5% do preço pedido para a venda. O que demonstra a distorção do preço pedido e a capacidade de pagamento dos interessados.
Já existem sinais de estouro dessa bolha. Vamos aguardar os preços voltarem para a realidade.
alexis
23 de janeiro de 2014 3:09 pmE o IPTU?
Se, por exemplo, ao invés de aumentar a taxa do IPTU fossem atualizados os valores de avaliação dos imóveis, pelo seu preço real (ou próximo dele), haveria aquela chiadeira em São Paulo?
Motta Araujo
24 de janeiro de 2014 2:23 amMas não houve nenhum aumento
Mas não houve nenhum aumento de aliquota em SP, o aumento proposto por Haddad é da plata generica de valores exclusivamente, essa é a discussão.
Gil Freitas
4 de maio de 2014 4:30 amBolha
Acho que logo logo essa bolha bolha imobiliaria ira estourar. Estou esperando os preços baixarem , afinal não há como o preço dos imoveis subir ainda mais.