Uma citação do economista austríaco Joseph Schumpeter dizia que uma verdadeira transição econômica pode ser reconhecida pelo surgimento de novos bens, métodos de produção e formas de organização industrial. Atualmente, três inovações atendem a tais requisitos: drones, celulares e energia solar.
Segundo os pesquisadores Mark Blyth (Universidade Brown) e Daniel Driscoll (Universidade da Virgínia), esses três vetores tecnológicos estão desestabilizando a hierarquia global, redistribuindo poder e autonomia entre países ricos e o Sul Global.
Drones e o novo equilíbrio militar
Durante décadas, o poder militar esteve concentrado nas mãos de países com orçamentos bilionários. Um único porta-aviões norte-americano da classe Gerald R. Ford custa cerca de US$ 13 bilhões, enquanto cada caça F-35 chega a US$ 100 milhões.
Contudo, a disseminação dos drones de baixo custo vem alterando essa equação: como exemplo, pode-se citar a Ucrânia, que atualmente produz mais de 200 mil drones FPV (first-person view) por mês a um custo inferior a US$ 300 por unidade.
Em 1º de junho, a chamada “Operação Teia de Aranha” surpreendeu a Rússia: caminhões carregando drones ucranianos destruíram aviões de guerra em bases russas, demonstrando que a guerra com drones é barata, precisa e difícil de conter.
“Quantos drones seriam necessários para neutralizar um porta-aviões, e a que fração do custo?”, provocam os autores, em artigo publicado no Project Syndicate.
Celulares e a revolução financeira no Sul Global
No campo econômico, o telefone celular tem o mesmo potencial transformador: conforme o custo dos dispositivos e do acesso à internet cai, bancos, meios de comunicação e empresas tradicionais enfrentam perda de espaço.
Segundo os articulistas, a telefonia móvel não apenas democratiza o crédito e a informação, mas redefine educação, emprego e crescimento em escala continental.
Em países como Quênia, onde infraestrutura tecnológica e bancária era escassa, os smartphones se tornaram a espinha dorsal da economia digital.
De acordo com o artigo, mais de 80% da população queniana possui um aparelho, e as transações financeiras móveis já alcançam 77% das zonas rurais e 89,7% das urbanas. O governo estima que a economia digital responderá por 10% do PIB em 2025.
Energia solar e a autonomia dos emergentes
A transição energética também está sendo reconfigurada: enquanto o governo de Donald Trump levou os Estados Unidos a aumentar a produção de energia fóssil, a expansão da energia solar – impulsionada pela China – tem quebrado esse ciclo de dependência.
Em 2025, as importações de painéis solares da Argélia cresceram 85 vezes em relação ao ano anterior. O Paquistão já gera 20% de sua eletricidade a partir do sol.
Em grande parte do Sul Global, a energia solar garante autonomia energética e alívio das contas externas, especialmente em regiões rurais fora da rede elétrica.
Mesmo países exportadores de petróleo veem vantagem: usar o sol para consumo interno e preservar combustíveis fósseis para exportação é, além de estratégico, mais lucrativo.
O ponto de inflexão global
“Estamos assistindo não apenas a uma transformação tecnológica, mas a uma mudança geopolítica, na qual as vantagens históricas das potências estão sendo corroídas por inovações baratas e compartilháveis”, escrevem Blyth e Driscoll.
Para os autores, o futuro ainda trará novas disrupções. “Resta saber se a inteligência artificial reverterá ou acelerará esse processo — nossa aposta é que ela o acelerará.”
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