Inflação bem-comportada deveria melhorar os humores do mercado
por Lauro Veiga Filho
Os mercados continuam com sua versão muito mais negativa do que sugerem os dados sobre o comportamento recente da inflação, destacando fatores pontuais para sustentar projeções mais pessimistas para o ritmo inflacionário daqui em diante e mantendo uma análise igualmente mais negativa para as taxas registradas nas últimas semanas. De fato, o recuo persistente dos índices inflacionários desde março vem sendo determinado em grande medida pela reversão das altas das tarifas da energia elétrica residencial e, de forma menos intensa, pela mudança de sinais nos preços dos combustíveis. Mas este não parece ser um motivo para que os mercados mantenham seu costumeiro mau humor sobre o tema.
Energia e combustíveis tem demonstrado certa volatilidade recentemente, com altos e baixos ao longo dos meses, influenciando os indicadores inflacionários para um lado ou para outro sem que isso possa vir a determinar algum tipo de tendência mais duradoura para os índices de preços. Ainda assim, a exclusão daqueles itens e de outros produtos ou grupo de produtos de comportamento mais volátil parece sugerir alguma estabilização das taxas inflacionárias, depois de forte recuo na saída de fevereiro para o começo de março.
Esse “retrato” indica ainda que as pressões altistas têm se concentrado no setor de alimentos e, dentro do grupo, principalmente em alguns itens específicos, a maior parte dos quais passou a perder fôlego nas semanas mais recentes. Divulgado na sexta-feira, 25, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 de abril (IPCA-15), aferido entre os dias 18 de março e 14 de abril, apontou variação de 0,43%, o que se compara com 0,56% anotados para as quatro semanas do mês passado e 1,31% ao longo de fevereiro.
Ou seja, nas últimas seis semanas, o IPCA observou uma redução de 0,88 pontos percentuais e praticamente dois terços dessa queda podem ser creditadas aos custos da energia nos domicílios, já que a tarifa nesta área havia saltado 16,80% em fevereiro, quando respondeu por 42,4% da inflação mensal, e passou a recuar 0,09% na quadrissemana encerrada no dia 14 deste mês.
Estabilidade predominante
A exclusão de itens de maior volatilidade e flutuações mais intensas para cima ou para baixo no cálculo do IPCA – a exemplo de passagens aéreas, tomate, manga, ovos, leite e café e combustíveis – assim como de energia e combustíveis, setores que influíram decisivamente para a queda do índice “cheio”, mostra uma inflação extraordinariamente estável. Sem aqueles itens, os demais preços na economia haviam subido 0,80% em fevereiro e tiveram a alta reduzida para 0,32% no IPCA-15 de março (medida entre 13 de fevereiro e 17 daquele mês), recuando para 0,30% nas quatro semanas do mês passado para registrar 0,32% na quadrissemana terminada em 14 de abril.
Entre altas e baixas
Entre os nove grupos de despesas das famílias, na medição do IPCA, quatro anotaram queda na pressão de alta sobre o índice geral ou mesmo tiveram queda nos preços médios aferidos na pesquisa do instituto, enquanto cinco outros subiram de forma mais intensa – o que mostra que as pressões de baixa sobrepujaram as altas, levando o IPCA para baixo desde as primeiras semanas de março. A baixa mais intensa veio do grupo habitação, sob a influência notória das tarifas de energia, passando de elevação de 4,44% em fevereiro para redução de 0,09% nas quatro semanas finalizadas em 14 de abril, seguido pelos transportes (que havia subido 0,61% e caíram 0,44% na medição mais recente).
Passado o ciclo de ajustes nas mensalidades e matrículas escolares, o grupo educação anotou variação de apenas 0,06% nas duas primeiras semanas de abril, mas havia saltado 4,70% em fevereiro. A “taxa de inflação” das despesas com artigos residenciais recuou de 0,44% para 0,37% no mesmo intervalo.
Entre os cinco grupos ainda sob pressão altista, o destaque mais evidente vai para “alimentos e bebidas”, que havia subido 0,70% em fevereiro e passou a avançar a um ritmo mensal de 1,14% ao final de segunda semana de abril (em leve recuo, é verdade, em relação à taxa de 1,17% acumulada ao longo de março). Nesta área, as altas ficaram concentradas em meia dúzia de produtos – a saber, tomate, ovos de galinha, café moído, leite longa vida, manga e cebola. Em conjunto, aqueles produtos determinaram a variação acumulada pelo total dos alimentos na comparação com as quatro semanas concluídas em 17 de março último, representando ainda pouco mais de 58% do IPCA-15 deste mês.
O dado permite outra leitura, já que parece indicar que a variação média de todos os demais itens e produtos do setor de alimentação e de bebidas foi praticamente nula, ou mesmo negativa, sem maior influência na composição da “taxa de inflação” dos alimentos. Essa constatação deveria servir para apaziguar ânimos e desautorizar a expectativa fomentada por alguns setores de uma escalada inflacionária no setor, mesmo porque a entrada da safra no mercado, já em curso, deverá ajudar a conter pressões altistas.
Menor pressão
Entre aqueles itens e/ou produtos alimentícios, cinco vêm perdendo força: os preços médios da cebola saíram de uma elevação de 5,12% em março para 3,84% nas quatro semanas terminadas em 14 de abril; a manga, que havia saltado 25,64%, passou a subir 12,57% (o que sugere um processo não só de arrefecimento das altas, mas de queda num período mais recente); vilões mais recentes, os preços dos ovos e do café, que haviam anotado elevações respectivamente de 13,13% e de 8,14% em março, passaram a variar 4,0% e 6,73% até o final da primeira quinzena deste mês; idem para o leite longa vida, com altas de 3,34% e 2,44% em março e abril, pela ordem. A exceção continua sendo o tomate, castigado pelo clima. Os preços médios haviam disparado 22,55% em março e subiram ainda mais em abril (até dia 14, para relembrar), com salto de 32,67%.
Perfumes, uma preocupação?
Ainda entre os grupos em alta, agora na comparação de abril com fevereiro, o índice médio de elevação dos preços do vestuário avançou da estabilidade total (zero de variação) para 0,76% positivos. Os preços no setor de saúde e cuidados pessoais passaram a subir 0,96% depois de elevação de 0,49% em fevereiro, refletindo sobretudo o reajuste autorizado para os medicamentos no final de março e o aumento nas mensalidades dos planos de saúde. Neste caso, a tendência é de perda de ritmo na alta ao longo das próximas semanas, na medida em que o mercado absorva os reajustes praticados.
No mesmo intervalo, os custos médios da comunicação e das despesas pessoais avançaram, na mesma ordem, de 0,17% e 0,13% para 0,52% e 0,53%. A maior pressão sobre as despesas pessoais veio dos produtos de higiene pessoal e, neste item, mais especificamente, dos preços dos perfumes (que, no entanto, respondem por apenas 1,07% na composição do IPCA total). No dado de abril, os perfumes ficaram 2,49% mais caros e responderam por 45% da alta de 1,51% registrada pelos artigos de higiene pessoal. O produto chamou a atenção dos mercados, ainda que este não seja exatamente um item de primeira necessidade, cujo consumo pode ser postergado sem maiores danos para a saúde ou para a higiene das famílias.
Lauro Veiga Filho – Jornalista, foi secretário de redação do Diário Comércio & Indústria, editor de economia da Visão, repórter da Folha de S.Paulo em Brasília, chefiou o escritório da Gazeta Mercantil em Goiânia e colabora com o jornal Valor Econômico.
Lênin and The Ulianovs
26 de abril de 2025 8:17 pmOlha, esse texto foi escrito com Boss intenções, eu imagino…
Mas o inferno está cheio delas.
Nem o mercado, nem seus sócios do Bacen elevam juros para baixar inflação, filhote
Logo, a inflação pode chegar a 0, e ainda assim, vão arrumar uma “expectativa” de alta, para criar uma taxa maior de extorsão.
É crime mesmo, filho.
1% de Selic dá 70, 80, 100 bilhões de reais do tesouro pelo esgoto do mercado.
Olha os precatórios que só iam vencer em 2027, e o governo pagou 100 por cento do valor de face, os bancos compraram por 40, 50%?
É crime, amigo, crime!!!!!
Triste acreditar que Lula seja capaz, mas é, foi, está sendo…
Julio Cesar
28 de abril de 2025 10:32 pmSobre os precatórios, vocês viram a briga deles pelos ativos
do banco Master?
Dizem que são 30 bilhões de precatórios do
governo federal. Quase o banco foi comprado por 1 Reai.
Falaram até em preocupação com “quebrar sistemática”.
Os caras dizem isso desde a época de FHC, que gostava muito
de dizer nesse tal de “risco sistêmico”. São cara de pau, não
mudaram em décadas.
E os caras são ninjas e a imprensa é nojenta. Não estão vendo que
uma quadrilha para enganar a opinião pública.
Paulo Dantas
26 de abril de 2025 9:52 pmMercado.
O problema está no mercado, no super-mercado e na feira …
A energia nào deve melhorar muito o humor.
JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO
27 de abril de 2025 7:48 amComo os juros foram impostos pelo mercado considerando a inflação proxima a 6%, de fato, havendo um recuo da mesma, propricia um ganho real maior para o tal mercado. No entanto, a queda da inflação tira um dos argumentos para elevação da taxa de juros. Com a crise desencadeada pelo agente laranja com sua guerra tarifária, aqui como no resto do mundo, a perspectiva é de uma queda no crescimento econômico, o que derruba um outro argumento do mercado com respeito ao perigo inflacionário do mesmo. Mas para o famigerado mercado o que interessa mesmo é ganhar dinheiro fácil às custas da imensa população, o fato de um aumento de rendimentos pela queda inflação, não lhes traz alegria, pois prejudica o seu poder de pressão.
Jicxjo
27 de abril de 2025 9:21 amClaro, o pânico moral precisa ser alimentado permanentemente para se “justificar” uma taxa de juros reais de 10% aa, bem como as oscilações de alta frequência na renda variável, que formam um jogo de soma zero em que as grandes bancas sempre vencem, sob o beneplácito da CVM. O governo também não ajuda, não desmascarando para a população de forma sistemática as mentiras contadas pelo “Mercado” e seu bumbo midiático, como as narrativas da “gastança”, da dívida pública “explosiva”, da necessidade de juros altos para enfrentar choques de oferta (!). Daí ressurgem essas figuras tenebrosas, como o Sr. Praga, pai aliás da delirante meta de inflação de 3% para um país em desenvolvimento, a defender congelamento do mínimo por seis anos enquanto o rentismo embolsa juros reais pornográficos. Parafraseando o estrategista de Clinton, é a luta de classes pelo orçamento público, estúpido!